Após a prisão de nove pessoas acusadas de fraude na aquisição de remédio de alto custo fornecido pelo Estado, a Secretaria de Estado da Saúde reavaliará os pacientes com psoríase em tratamento. Segundo o delegado de polícia Alexandre Zakir, cedido para a pasta pela Secretaria de Segurança Pública (SSP), a lista de pacientes será repassada à Procuradoria-Geral do Estado para que o órgão solicite à Justiça a convocação dos doentes.
De acordo com ele, a secretaria já está organizando uma rede de serviços para fazer o procedimento, sendo que terão prioridade os tratados pelo médico Paulo César Ramos, de Marília, preso anteontem, informa a Agência Estado. É o caso, por exemplo, da moradora de Bauru Marli Aparecida Pedroso. Ela soube pela imprensa sobre a suspeita de fraude na aquisição de remédios de alto custo para psoríase.
Marli foi atendida pela Associação dos Portadores de Vitiligo e Psoríase do Estado de São Paulo, colocada sob suspeita pela operação “Garra Rufa”, desencadeada pela Polícia Civil de Marília em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde e que resultou nas prisões. Ontem, a paciente não sabia o que fazer. O médico da entidade, Paulo César Ramos, lhe receitou Remicade, um dos três medicamentos citados no esquema.
Por conta das denúncias, ela agora está com medo de usá-lo. O medicamento foi receitado para livrá-la do problema que enfrenta há 16 anos. Já a costureira Joanelice de Souza Galdino, também de Bauru, não se deixou abater pelas denúncias.
Também recorreu à associação de Marília por sofrer de psoríase desde 1986. “Soube da entidade numa matéria na televisão. Desde 1993 fazia tratamento no Instituto Lauro de Souza Lima e não obtia resultado. Fui na ONG e não me cobraram nada. Consegui o medicamento via judicial. Meu corpo limpou. Antes, as pessoas nem se aproximavam de mim, não parava um ano no emprego por conta das dormências nas mãos”, comenta. Por conta da situação, ela levou outros parentes a Marília.
Como o quadro não era tão grave, o médico teria receitado para alguns deles outros tratamentos. Joanelice está indignada com a prisão do advogado bauruense Guilherme Goffi de Oliviera, quem entrou com sua ação na Justiça para reivindicar o tratamento de alto custo. Ontem, a reportagem tentou contato com a família dele, que ainda preferiu não manifestar-se sobre o assunto.
Já Thiago Luís Rodrigues Tezani, advogado do representante de laboratório farmacêutico Dalton Araújo Pereira, também preso anteontem em Bauru, informou que seu cliente nega ter cometido qualquer tipo de ilicitude. “Vamos esperar todas as oitivas para daí entrar com a medida cabível. Vamos tentar a partir de amanhã (hoje) tomar uma providência. Ele está muito abatido. Não é fácil, ainda mais para quem não cometeu nada”, comenta.
De acordo com Tezani, por ter curso superior, Pereira está numa cela especial numa carceragem em Barra Bonita.
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Interrogatório
Tiveram início ontem, na sede da Delegacia Seccional da Polícia Civil de Marília, os interrogatórios dos nove presos na Operação “Garra Rufa”. Foram ouvidos a advogada Fabiane de Castro e o médico dermatologista Paulo César Ramos, ambos de Marília. Hoje, devem ser interrogadas a presidente da Associação dos Portadores de Vitiligo e Psoríase do Estado de São Paulo, Luci Grassi, e a secretária da entidade, Ivonete Aparecida Lima.
Só depois o advogado Guilherme Goffi de Oliveira e o representante de laboratório farmacêutico Dalton Araújo Pereira, presos em Bauru, passarão pelo procedimento, informa o delegado de polícia Alexandre Zakir. De acordo com ele, as informações obtidas até agora reforçam a linha de investigação. Como a expectativa é concluir o inquérito até sexta-feira, o delegado Fábio Alonso, responsável pelo inquérito instaurado pela Delegacia Seccional de Marília, não deve solicitar a prorrogação da prisão temporária de cinco dias.
Caberá ao promotor requerer à Justiça a prisão preventiva. Caso contrário, serão liberados. Conforme o JC divulgou, os nove são suspeitos de integrar uma quadrilha que patrocinava ações judiciais para forçar o Estado a comprar medicamentos de alto custo, fora da lista de distribuição gratuita.
Até agora, o valor confirmado do “prejuízo” provocado pelo grupo está estimado em R$ 900 mil. Mas o esquema já teria provocado prejuízo de R$ 63 milhões.
Segundo o divulgado até agora, a ação que seria fraudulenta teria início na organização não-governamental. Ela é acusada de encaminhar pacientes ao dermatologista Paulo César Ramos. O médico é suspeito de emitir laudos, afirmando que os pacientes precisavam dos medicamentos específicos para tratar a psoríase. Os laboratórios dos remédios financiariam o médico, a ONG e advogados.