O mundo atual é caracterizado por um tempo curto demais para tudo que queremos ou necessitamos fazer. No corre-corre diário, imposto pelo padrão de vida do mundo contemporâneo, as pessoas assumem cada vez mais funções, paralelamente à sensação de que nunca há tempo para nada. Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, porém, o homem está diante da possibilidade de uma concepção oposta: a de uma vida muito mais longa.
Em “A Vida Mais Longa”, novo módulo do “Café Filosófico” do qual o filósofo é curador, Ribeiro pretende discutir o prolongamento da vida e trazer à tona quais os desafios que essa nova realidade irá impor às pessoas. Quem ministra a primeira palestra deste ciclo, “Arte Longa, Vida Curta”, será o próprio curador, amanhã, às 19h, na CPFL Paulista de Bauru.
“Cem anos atrás, a expectativa de vida era de 30 e poucos anos. Hoje, é de mais de 60, no Brasil. Mesmo levando em conta que o grande fator de mortalidade era a infantil, e quem passava dos 5 anos vivia mais, poucos chegavam aos 50. Sem dúvida, temos muito mais tempo de vida. Nos resta saber agora o que isso significará em termos de mudança de valores”, adianta Ribeiro sobre o objetivo do debate, em entrevista ao JC Cultura.
Para o filósofo, o prolongamento da vida apresenta um desafio baseado na decisão que como se lidará com esse “tempo adicional”. “Hoje, a correria e as pressões a que estamos submetidos fazem que desfrutemos pouco da vida. O desafio imediato é reduzir essas pressões e perguntar como podemos aproveitar melhor os ganhos de produtividade que tivemos. Mas, a longo prazo, temos um novo desafio: como poderemos reinventar constantemente a vida, de modo a conseguir passar de um modelo a outro sem sentir, com nisso, um fracasso”, explica.
Segundo Ribeiro, a proposta de todo o módulo é também mostrar como os sucessivos “módulos de vida” (jovem, pai ou mãe, profissional numa área, depois profissional em outro) possam ser, cada um deles, fonte de riqueza espiritual e cultural. “Pretendo sair das discussões banais - quem vai pagar a conta da previdência social - e perguntar como são as mudanças ao longo da vida, entendidas como algo positivo e não atemorizante”, espera.
Na semana que vem, Ribeiro retorna ao “Café Filosófico” com a palestra “Lazer e Trabalho na Vida Longa”, na qual o filósofo, entre outros temas, discutirá porque o lazer não correspondeu à otimização do trabalho. “A jornada de trabalho foi-se reduzindo, do século 19 para o 20, até chegar a oito horas diárias. No último meio século, a única redução foi que parte da população deixou de trabalhar aos sábados. No entanto, o avanço tecnológico poderia - ou poderá? - permitir jornadas menores e um lazer maior. Por que isso não acontece? Temos medo do lazer?”, provoca.
Para ele, uma das respostas é de que o lazer ameaça por exigir criatividade. “Se somos mais produtivos, devemos aproveitar melhor o lazer. Mas o problema é que não sabemos o que fazer com ele. Isso porque, o lazer, que basicamente consiste na valorização da cultura e do esporte (ou do corpo), é subestimado em nossa sociedade. Ele não é ‘sério’. O lazer tem de ser mais inteligente”, defende o curador.
Doutor e professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo (USP), Ribeiro foi o primeiro curador do “Café Filosófico” da CPFL Cultura, tendo organizado módulos em Campinas (SP) desde 2003. Entre suas obras, destacam-se “A Sociedade Contra o Social: o Alto Custo da Vida Pública no Brasil” (Prêmio Jabuti, 2001) e “Ao Leitor sem Medo - Hobbes Escrevendo Contra o seu Tempo”.
No dia 19, o projeto recebe Olgária Matos com a palestra “A Pressa Quando a Vida se Alonga” e, no dia 26, Ribeiro encerra o módulo com o tema “Qual o Lugar da Juventude Numa Sociedade de Vida Longa?”. Os encontros do “Café Filosófico”, que começaram em Bauru no mês de abril e seguem até novembro, são realizados sempre às sextas, às 19h, com entrada gratuita e por ordem de chegada.
• Serviço
“Café Filosófico” com Renato Janine Ribeiro, amanhã às 19h, no auditório da CPFL Paulista de Bauru (rua Wenceslau Braz, 8-8, Vila Pacífico), aberto a partir das 18h. A entrada é gratuita e por ordem de chegada. Mais informações no site www.cpflcultura.com.br ou pelo telefone (19) 3756-8000.