Alguns documentos consultados definem o carcará como ave de rapina, que se alimenta de pequenos roedores, de outras aves menores e filhotes. Mas vamos deixar, por enquanto, o carcará de lado. Falaremos dele mais tarde.
Comecei a pescar nos rios do Pantanal do Mato Grosso do Sul a cerca de trinta e poucos anos. Se é verdade que tempo é dinheiro, só não comecei antes por absoluta falta de tempo.
Nas primeiras viagens tudo era uma maravilha; o meio ambiente ainda quase não estava degradado, a pesca era farta. Muito raramente se capturava um pintado ou cachara fora de medida.
Numa das idas a Porto Esperança, há uns cinco anos, mais uma vez comprovamos que a coisa está mudando. Composição desse grupo: Franchin, Zorzi, Cássio, Toninho (que Deus o tenha), Osmani, Vilson e eu.
A coisa começou a ficar ruim quando, após tanto “trampo” descarregando em Porto Morrinho, carregando os barcos até a borda – grande parte da carga era cerveja, claro – e descendo o rio, chegamos ao rancho: a energia elétrica estava cortada. O Toninho, que nos havia oferecido o rancho, esbravejou, gritou que já havia pago a conta, elogiou as mães dos funcionários da companhia de energia elétrica de Corumbá e, por fim, fez uma gambiarra e religou a energia.
Arrumamos um piloteiro tão bom, compadre do Toninho, que não sabia conectar a mangueira do tanque ao motor. Perguntou onde estava a chave para esse fim. Chamado a atenção a respeito, ainda fez pinta de entendido, que tinha 30 anos de experiência e que trabalhara muitas vezes com motores conectados dessa forma. De quebra, quando fomos pegar umas iscas no leiteiro, próximo à ponte da linha férrea, o mesmo piloteiro quebrou a pá de plástico do remo, quando com ela forçou para tirar o barco do barranco. Vimos que estávamos no mato sem cachorro, ou melhor, no rio sem piloteiro.
Não levamos pão, já que, segundo o Toninho, uma de suas muitas especialidades era fazer pães. Seus pães só tiveram uma serventia: como não havia nos barcos os conhecidos paus de matar peixes, usamos os pães para esse fim, tão macios estavam. Era uma só na cabeça e o peixe já era.
Num dos dias decidimos descer mais, passar o dia todo no rio. Levamos almoço composto de arroz, feijão, carne e farinha. Lá pela uma da tarde almoçamos na sombra de algumas árvores próximas a uma casa abandonada na boca do rio Nabileque. O que sobrou das marmitas, colocamos sobre algumas tábuas e um sem número de cardeais e pássaros pretos acudiram ao banquete. Aqui entram os carcarás.
O movimento atraiu dois deles que patrulhavam as margens à procura de alguma carcaça e, sem a menor cerimônia, escorraçaram a miuçalha e atacaram com voracidade o resto do almoço. Como não havia sobrado carne, o arroz e o feijão, nossos visitantes se ocuparam então da farinha. A cada duas bicadas, um rápido vôo até o rio, alguns goles de água, mais bicadas na farinha, outro vôo e mais água, até que não sobrou nas tábuas o mais mínimo vestígio de comida, nem um só grânulo de farinha. Sugiro aos autores de dicionários e enciclopédias que alterem seus conceitos sobre os hábitos alimentares dessa ave.
Jovercy Bergamaschi, o Berga, é pescador e contador de histórias.