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Sua majestade: o eleitor


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Quando ainda muito jovem acreditava, talvez por conta da minha rigorosa formação religiosa, que todos os homens eram iguais, pelo menos no momento do nascimento. Precisei atingir a juventude para perceber que infelizmente a assistência médica diferenciada no pré-natal, a melhor assistência ao parto e os cuidados com o recém nascido fazem muita diferença e garantem para alguns uma vantagem que dificilmente será descontada ao longo da vida. Teimoso, passei a apostar no momento da morte. Afinal, lançados na terra ou nos fornos crematórios seremos reduzidos a pó enquanto nossa alma peregrina aguarda o julgamento final. Foi na sala de anatomia, dissecando um anônimo cadáver, que constatei esta falácia. Enquanto aquele indigente repousava esquartejado numa mesa fria de aço inoxidável outros, ainda vivos, erguiam mausoléus na esperança de permanecerem indeléveis na memória do povo por todo o tempo.

Ainda hoje, milhões de brasileiros gerados sem condições e planejamento, que se desnutriram no ventre de mulheres esquálidas e perderam neurônios importantes com a ausência de cuidados médicos essenciais nos primeiros preciosos minutos de sua vida extra-uterina, convivem com a miséria imposta pela enorme desigualdade social e enfrentam momentos de desespero na fila dos desempregados, pela absoluta ausência de políticas públicas voltadas para o social e de uma qualificação suficiente. Têm como único momento de plena igualdade o instante do voto. Nesta hora todos valem um. Do presidente ao mais simples servidor. Patrão e empregado, ricos e pobres, letrados ou não, de todas as cores e raças pesam igual e valem o mesmo.

Por isso serão cumulados com a atenção de todos os candidatos. Nos próximos trinta dias serão procurados, cortejados e adulados. Se atentos e bem informados, podem contribuir com sua decisão para mudanças substantivas na sua vida, na vida de seus filhos e das suas cidades. Caso contrário este momento mágico se transformará numa loteria que, infelizmente, premiará apenas alguns que, em seu nome, vão desfrutar e se locupletar dos cofres e benesses do poder público. O cidadão-eleitor, sujeito insubstituível numa eleição, não pode perder sua majestade e tornar-se o bobo da corte da nossa história.

O autor, Milton Flávio, é médico, professor da Unesp e ex-deputado estadual-PSDB

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