Luanda - Depois de esperar por cinco horas na fila de um posto de votação no centro de Luanda, a capital de Angola, Fernando Esteves, 50 anos, perdeu a paciência. “Esperei 18 anos para ver Angola independente, 21 para sair do Exército e 50 para ser avô. Mas não fico nem mais um minuto nesta fila”, disse o comerciante, pouco antes de voltar para casa frustrado por não participar da primeira eleição no país desde o fim da guerra civil, em 2002.
Como ele, centenas de eleitores exaustos abandonaram as filas nas seções eleitorais da região central de Luanda. A confusão fez a Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola), principal partido da oposição, pedir a anulação do pleito: “O sistema entrou em colapso, e temos de fazer algo para recuperar o processo”, disse Isaías Samakuva, presidente do partido.
“Os postos estão como enfeites, pois ou não há urnas, ou não há cédulas. Está sol, tenho sede e fome. Mulheres grávidas estão desmaiando”, contou Tatiana Baptista, 20 anos, que também voltou para a casa sem votar - o voto em Angola é facultativo.
Observadores da União Européia já haviam denunciado, pela manhã, o “caos” com que a votação transcorria.
No fim do dia, a Comissão Nacional Eleitoral anunciou que o prazo para votação será estendido - ontem, abrirão 320 seções eleitorais em Luanda, aproximadamente 10% do total, que ou não foram abertas ontem ou tiveram problemas logísticos graves.
Embora não tenham sido registrados distúrbios graves no interior do país, em Luanda, a votação teve momentos tragicômicos. Numa estação montada numa praça, sobravam cédulas e urnas, mas ninguém podia votar por causa da ausência de outro item: cabines.
A situação fugia do controle quando uma camionete estacionou na praça e dela foram retiradas placas de papelão que, montadas, deveriam resolver o problema. Quando os fiscais tinham o papelão nas mãos, e o tumulto diminuía, um novo problema surgiu: ninguém sabia como encaixar as placas.
Vinte minutos depois, seguindo as dicas da multidão, os constrangidos fiscais finalmente conseguiram erguer a cabine, e a votação pôde começar.