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Política à mesa


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Um dos observadores mais atentos da cultura brasileira, Câmara Cascudo ensinava que provar o sal da casa alheia é aliar-se a seus interesses desde o tempo dos nossos primeiros antepassados. A camaradagem à mesa é ritual político anterior ao voto em todo o planeta. A antropóloga Karina Kushnir, autora de “Como se fazem eleições no Brasil” (Relume Dumará, 2002) mostra como no Brasil comer com os eleitores tem mais força do que qualquer discurso político. “Comer junto” na política não deve ser confundido como um método direto de obtenção de votos. “É mais que isso. Trata-se de um conjunto de procedimentos que tece a rede de influência do candidato”, esclarece a pesquisadora que acompanhou esses rituais políticos durante dez anos.

Ainda outro dia ouvi no Café do Raduan a queixa de um candidato que já não agüenta mais tomar café em caneca de alumínio amassada e comer bolo de fubá. Mal sabe ele que dividir o prato é símbolo universal que cria vínculos entre pares e díspares. Dante narra no “Purgatório” que, em Florença, o assassino que tomasse sopa e vinho sobre o túmulo do morto não podia ser vítima de vingança da família do assassinado, tamanha a carga dessa ligação simbólica.

Quando político, Alcides Franciscato virou mito com suas visitas de casa em casa. Na mais longínqua periferia todos os esperavam com aquela certeza do “ele virá”. Um dia o morador de um barraco ofereceu-lhe bunda de içá com farofa, como se fosse a maior iguaria do mundo. Chico Dalmédico, assessor de todas as horas, adiantou-se e pegou a louça desbeiçada dizendo que era o seu “prato preferido”. Comeu tudo e repetiu até esvaziar a travessa. Tamanho apetite mais os rasgados elogios à arte do cozinheiro deixou o dono da casa orgulhoso. Mais tarde Chico, longe dali, explicou aos companheiros entre engulhos, como encontrara coragem para enfrentar o grude. “Se eu não comesse ia sobrar pro doutor”. ”Doutor” era o tratamento que ele , respeitosamente, reservava a Franciscato. Foi a mais comovente demonstração de fidelidade política de que tive notícia.

A estratégia de conquistar eleitores de Arlindo Figueiredo consistia em levar a própria comida aos bate-papos nos bairros. Como bom lusitano mandava comprar sardinhas. A churrasqueira portátil e as raquetes de assar na brasa garantiam a festa. Maior sucesso. Terminada a campanha à Prefeitura o assessor de Arlindo teve que vender o carro como sucata porque não havia quem tirasse o cheiro de peixe impregnado nos bancos e na forração.

Na campanha presidencial de 1994, Fernando Henrique lançou-se em uma romaria eleitoral pelo Nordeste e, sem saber, comeu a famosa buchada de bode – preparo feito com sangue, fígado e tripas envolucradas no estômago do caprino. Disseram a FHC que era um prato francês, “tripés à la mode de Caen”. Devorada com aparente apetite em Petrolina (Pernambuco), entrou para o folclore político nacional com visto de permanência mais extenso que passeios de jegue e outras estripulias com o eleitorado local.

Quando se trata de uma eleição onde decide o povo que tem tevê, mas não tem geladeira, e ainda assim oferece a comida que serve aos filhos para receber seu candidato, a solução é, em poucas palavras: comam, candidatos, em público, com o público e com gosto. O inverso também pode ocorrer, na ficção e na realidade, quando os poderosos é que oferecem banquetes aos humildes. Muito antes de a primeira urna aportar em solo nacional, as celebrações do poder já tinham caráter de espetáculo. O baile da Ilha Fiscal, de 1889, é possivelmente o mais almodovariano deles.

A última festa do império consumiu 500 perus, 18 pavões, 64 faisões, 800 quilos de camarões, 1.300 frangos, 12 mil sorvetes, 10 mil litros de cerveja e 258 caixas de champagne e vinho. No dia seguinte foram encontrados no palácio na Baía de Guanabara 16 chapéus, 17 ligas, 13 lenços de seda, 9 de linho, 15 de cambaia e 8 corpetes. Seis dias depois, caía o império.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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