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Cidade excomungada?


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Com o fito de ligar a rua Batista de Carvalho com a rua Araújo Leite e também embelezar a praça municipal (atual Rui Barbosa), que era um “areião”, a Câmara decidiu demolir a capela ali existente, atrapalhando o projeto pretendido. Um novo templo católico seria construído acompanhando o alinhamento da calçada daquela rua.

O coronel Manoel Bento da Cruz, presidente da Câmara, capitaneava essa medida e havia forte resistência do Bispado de Botucatu. Dom Lúcio Antunes, mesmo com a justa indenização que a Câmara oferecia, opunha-se à demolição. Mas a administração municipal acabou derrubando-a em 13 de agosto de 1913, preservando o que de sagrado havia dentro dela, depositando esses bens num lugar seguro.

Essa violência contrariou dom Lúcio, que teria excomungado a cidade. O que efetivamente aconteceu foi a emissão de um édito, dias após a demolição, onde dom Lúcio recomendou reparação devida à capela derrubada. Determinou também que a Catedral, igrejas paroquiais, irmandades, confrarias, colégios e comunidades religiosas celebrassem, na primeira quinzena de setembro, tríduo de desagravo a Jesus Sacramentado. Foi também lançado um interdito para que os padres não exercessem atividades do Sagrado Ministério na paróquia de Bauru.

Em 30 de julho de 1914, as partes litigantes conciliaram-se, a Câmara pagou uma indenização de 15 contos de réis à Fábrica Paroquial. Minimizando os efeitos da demolição não consentida, em 24 de dezembro de 1916 foi celebrada a primeira missa na nova Igreja Matriz do Divino.

Controvertido nos seus atos, Bento da Cruz passou a sofrer hostilidade do grupo comandado por Gustavo Maciel. Em 1914, João Augusto Pereira da Silva elegeu-se presidente da Câmara e Bento da Cruz foi escolhido como prefeito. Apesar do esforço oposicionista, alternando-se no Legislativo, nos cargos de presidente e prefeito, Silva e Cruz foram novamente eleitos. Antes, em 16 de dezembro de 1914, Bento da Cruz propôs na Câmara uma indicação contra Gustavo Maciel, que fizera uma publicação no “Estado de São Paulo”, na qual “afirmava que existiam bandalheiras, desvios de dinheiro da municipalidade ... e que Eduardo V. Lorena fez eguaes conclusões pelo mesmo facto.” Para incrementar mais a crise, Cruz, ao deixar o cargo de prefeito, não apresentou à Câmara o relatório de sua gestão, como era obrigado.

No ano legislativo seguinte, os vereadores Maciel, José de Oliveira Guedes e o médico Luís Vicente Figueira de Mello faltavam propositadamente para que não houvesse quórum na Câmara. Depois da ordinária, duas sessões extraordinárias foram posteriormente convocadas e novamente nada aconteceu. Exasperado com o posicionamento dos três opositores, Bento da Cruz convocou o suplente Augusto de Bastos Pereira, promoveu as eleições da nova mesa, do prefeito, vice, sub-prefeitos de distritos e comissões técnicas, e o plenário aprovou as contas do prefeito Pereira da Silva, mesmo apresentando discutível déficit.

Sempre criticado por seus opositores, Bento da Cruz comandou ainda, em 1915, a eleição de senadores estaduais e de três juizes de paz locais, compondo as mesas eleitorais, das quais uma ele próprio foi presidente. Em 15 de março desse ano, Pereira da Silva apresentou o relatório de sua gestão e renunciou. 10 dias após. Cruz renunciou em seguida e retornou a Pennapolis. Abria-se o caminho para o domínio de Gustavo Maciel, para mim o segundo coronel mandonista da política bauruense. Continuarei com o assunto.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é colaborador de Opinião

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