O país que representa o maior império que a civilização já construiu está prestes a escrever um notório capítulo nos livros de história: eleger Barack Hussein Obama II para a presidência. Ele, negro, filho de muçulmano e que ainda traz no nome o fantasma de um dos maiores fiascos, para não dizer tragédia, que o uso insano do poder é capaz de provocar, é o cara! O cara, com a face do país das liberdades, da diversidade e dos sonhos que parecem emergir dentro e fora dos Estados Unidos. Se o mundo votasse, Obama já estava eleito.
Sondagem do jornal londrino Sunday Telegraph feita com britânicos, alemães, italianos, franceses e russos dá Obama na cabeça. 52%, contra apenas 15% do adversário John McCain. Na França onde, mesmo agonizante, ainda existe um certo espírito antiamericano o índice atinge 65%. Não é pouco, mas como a Europa não vota, e muito menos o resto do mundo, quem vai decidir são os próprios americanos. E é bom que eles saibam que não está em jogo apenas a figura do seu representante maior nos próximos quatro anos, mas a imagem que o país quer fincar no planeta daqui pra frente.
Não foi apenas o serviço sujo e mal concluído no Iraque que pegou mal; a economia, a qualidade de vida e a auto-estima do americano comum também foram abaladas. Sim, existem americanos comuns nos Estados Unidos. Que labutam, sofrem e sonham com a felicidade. E é esse povo, que quase não figura nos filmes e nos noticiários exportados, que está recuperando o verdadeiro ideal democrático da América.
Uma reportagem muito bem conduzida pelo jornalista Jorge Pontual, na Globo News, parece ter revelado a verdadeira revolução provocada por Obama. Num quartel general de campanha na Pensilvânia, um dos estados decisivos desta eleição, uma garota de 16 anos, que ainda não pode votar, mas gostaria mesmo com o voto facultativo, diz por que milita em favor do democrata. “Gosto de política e quero saber o que está acontecendo no meu mundo”. E vai mais longe. “O que o governo fez até agora foi para as classes mais favorecidas e (as ações) não estão focadas na população em geral”. Um olhar motivador para uma juventude aparentemente alienada. Isso é Obama!
Mas não se iludam, ganhar a presidência da nação mais poderosa da Terra não é tão fácil assim, e fazer a maioria no congresso menos ainda. Nunca é demais lembrar que os humores daquele país vão da extrema liberdade de expressão e comportamento até as mais reacionárias posturas, inclusive racistas e religiosas. Fidel Castro, uma longeva pedra no sapato dos americanos que declarou simpatia por Obama, para sorte ou azar do candidato, quando questionado sobre o regime de partido único no comunismo, retrucou: “e que alternância de poder existe entre republicanos e democratas?”.
Ideologias à parte, uma ácida definição da política americana vem da própria casa. O escritor, crítico, e polêmico, Gore Vidal afirma que há apenas um partido nos Estados Unidos, o Partido da Propriedade, o qual tem duas facções: “Os republicanos são um pouco mais estúpidos, mais rígidos e mais doutrinários. Já os democratas são mais espertos, mais charmosos e mais corruptos”.
Enfim, é essa a música que Obama terá que dançar para entrar na História. E se quiser sair bem dela, terá que aprender a rebolar ainda mais e melhor do que fez até agora.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista e colaborador de Opinião - e-mail: lvbauru@gmail.com