Na frente da minha casa há uma árvore. Pelo porte e elegância, ela está aqui há muito tempo; tempo suficiente para contar a história de três famílias, além da minha.
Essa nossa árvore, viu romances, primaveras, viu crianças crescendo enquanto brincavam à sua sombra, viu gerações trocando de automóveis, bicicletas passeando pelas ruas, viu esposas se tornando mães e mães se tornando avós, viu domingos em família, saídas de viagem, meninada chegando da escola, viu pipas pintando o céu, debutantes saindo arrumadas para o baile de 15 anos, passaradas indo e voltando, viu cabelos embranquecendo, bebês nascendo e todos os abraços de chegada e despedida que podemos esquecer de calcular na vida.
Testemunha silenciosa, madura ela ficou frondosa e já teve o seu tronco marcado pelas juras de amor de dois casais apaixonados. Mas, antes de amadurecer suas folhas, essa prestimosa criatura já foi mudinha que alguém plantou e cuidou pessoalmente. Ela já teve cabinho de vassoura para auxiliar sua infância e quando deu suas primeiras sombras deve ter sido festejada por alguma alma boa que esperava exatamente isso, antes de um verão chegar.
Nossa árvore não tem flores, mas é de uma beleza descomunal. É só olhar para cima para perder o fôlego ante a sua descarada natureza selvagem. Sua copa gigantesca abraça toda a fachada da nossa casa, convidando pássaros de toda espécie a se aninhar por entre seus galhos, cantando trovas ininteligíveis de amor pela liberdade. Cantos que entram pelas janelas, despertando nossas memórias para as promessas de um paraíso perfeito, a todos possível desde que percebam a aura da simplicidade da natureza.
Não há balanço pendurado nos troncos, mas isso não seria má idéia, pois é fácil perceber o quanto essa árvore quer dar de si para que os finais de tarde das nossas crianças sejam mais amenos e felizes.
Olho para essa antiga amiga verde e me recordo de outras árvores que, tais como ela, sombrearam minha infância, adolescência e juventude, sempre emoldurando humildemente as histórias inesquecivelmente cotidianas de minha vida. Árvores em que subi para brincar de esconderijo, árvores que cobriam nossos piqueniques, que prendiam redes domingueiras, árvores que davam frutos e propiciavam aventuras, às vezes mal sucedidas com tombos e curativos. Em cada cenário em que me recordo presente, as benditas são personagens vivos e se eu me esforçar um pouco mais, consigo até me recordar da umidade do perfume vegetal de cada rua em que vivi.
Graças a Deus e a alma nobre do meu pai que foi um agrônomo apaixonado pela natureza, eu sinto meus olhos encherem de água quando penso na indiferença com que certas pessoas tratam as árvores vizinhas a seus lares, lojas, ruas e praças. Para muita gente, basta um pequeno desconforto para declarar a morte dessa heroína natural que é responsável pelo tremendo gesto de limpar o ar que respiramos, manter o nosso clima ameno, nos abrigar do sol e ajudar a proporcionar ambiente favorável a vinda das tão necessárias chuvas.
Muitos pensam: é apenas uma árvore... há outras, há tantas.. que uma a mais, uma a menos, não fará a menor diferença. E vendo a coisa por esse ângulo parcial, imaginam que ao cortá-las estarão se livrando de algum problema banal que os deixam de mau humor todos os dias. São poucos os que compreendem o amigável preço que pagamos para contar com as bênçãos de uma árvore grande, frondosa e antiga que, apesar de tantas benesses em prol da nossa vida, cobra uma pequena percentagem em folhinhas escondidas nas calhas, raízes levantando pedras e calçadas, troncos incomodando telhas e canos, galhos cobrindo letreiros ou fachadas dos imóveis.
Vez em quando, a vida nos proporciona notícias tão alegres quanto à descoberta de algum tesouro no fundo do quintal. Descobri um desses “tesouros verdes” quando soube da possibilidade que qualquer cidadão bauruense tem de requerer a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, o “tombamento” ou a “imunidade de corte” para quantas árvores quiser. Se alguma boa alma, preocupada com o destino de uma silenciosa árvore pedir ao Poder Público, ela nunca mais poderá ser cortada. E a motoserra silencia por essas bandas.
Enquanto alguns pedem autorização para cortar, também podemos pedir a nossa Prefeitura que “não corte” as árvores. Através de um requerimento simples, descrito pelo artigo 26 da lei que disciplina a arborização no município (Lei 4368 - 10/2/1999), qualquer munícipe pode, literalmente, “adotar” e salvar uma ou quantas árvores quiser. Segundo consta do mecanismo de adoção e tombamento, a pessoa pode, até mesmo “batizar” a árvore, denominando-a com seu próprio nome ou homenageando alguém em especial com esse gesto.
É claro que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente vai estudar as suas razões para pedir a imunidade de uma árvore e só depois dará o veredicto. Mas o que importa, de verdade, é que sejam quais forem essas suas razões, elas são tão nobres quanto a doação de frutos, flores, sombras e ar puro que as nossas queridas árvores nos dão sem nada nos pedir em troca.
A autora, Luciana Gonçalves, é profissional de telecomunicações e ambientalista