Política

Para Caio, Lula é ausente em Bauru

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 10 min

O candidato a prefeito pelo PSDB, Caio Coube, permanece apostando que a melhor estratégia para enfrentar os ataques políticos de adversários nesta fase final de campanha rumo ao primeiro turno das eleições é esclarecer pontos de suas propostas e eliminar margem de dúvidas sobre críticas levantadas por terceiros, mas não sem antes confrontar a falta de investimentos maciços do governo Lula em Bauru.

É a primeira crítica mais direta do tucano na campanha aos partidos que compõem a aliança de seu principal adversário, o PT e o PMDB. Mas Caio também alfineta o partido de Rodrigo Agostinho, lembrando que os tucanos no Estado é quem concluíram os esqueletos de hospitais herdados dos governos peemedebistas.

Sobre terceirizações, ele pontua que definiu a necessidade de transferir o serviço de merenda escolar para a iniciativa privada, mas não pensa em mudar a gestão do Departamento de Água e Esgoto (DAE) e também não cogita discutir transferir a autarquia para a Sabesp.

Na continuidade da série de entrevistas individuais realizadas pelo JC com os candidatos a prefeito, o empresário discute questões movediças, como a possibilidade de dar outra destinação a uma parte da área do aeroporto central e não hesita em fazer correções em metas e propostas, como o fez, nesta reportagem, quando abordado sobre a ambiciosa pretensão inicial de realizar 1 milhão de metros quadrados de asfalto por ano, embora o atual governo tenha conseguido atingir apenas 600 mil m2 de pavimentação de 2005 até agora.

Leia os principais pontos da entrevista:

Jornal da Cidade - Os temas terceirização e privatização estão sendo discutidos contra sua candidatura por adversários. O que pode ser realizado por terceiros na prefeitura?

Caio Coube - Este tema tem um forte componente político e emocional. Na realidade, aqueles que se declaram totalmente contra as privatizações às vezes são surpreendidos por notícias como a da semana passada de que o governo federal, do PT, vai privatizar os principais aeroportos do Brasil. Isso precisa ser dito para que os partidos ligados à base do governo federal não tenham o discurso que somente o PSDB caminha para questões ligadas à privatização. O Estado tem de se concentrar em suas atividades essenciais, que são serviços públicos como saúde, educação e promoção social. No caso do plano federal, quando o Estado se envolve na área do chamado Estado-empresário, que faz investimentos em infra-estrutura e atua no setor de telefonia, como ocorreu no passado, o resultado final não foi bom. Até porque o Estado carece de capacidade de investimentos em áreas como esta. Daí a revolução que aconteceu nos serviços de telefonia no Brasil após a terceirização.

JC - E no município?

Caio - No plano municipal eu já manifestei, inclusive em entrevista na TV Câmara, convicção de que devemos nos ater nas atividades fim. Na área de educação, o compromisso do Poder local é com a educação de qualidade, com conteúdo pedagógico, instalações boas, valorização do profissional, capacitação e vejo muito criticamente essa capacidade de comprar, armazenas e produzir alimentos. Acho que é um desvio de foco, de atribuição e, portanto, esta é uma área em que eu pretendo fazer mudanças. E isso vai ao encontro da própria visão e recomendação do atual prefeito. Agora dizer que o PSDB vai trazer a Sabesp é absurdo. Não farei nada diferente na gestão do DAE, que é a jóia da coroa municipal. Funciona bem, não tem dívidas e tem razoável capacidade de investimento e que encaminhou a solução para o tratamento de esgoto através do Clemente, que é meu vice.

JC - Qual a viabilidade de parte do aeroporto central ser aproveitado para outras finalidades?

Caio - Sou a favor do aeroporto central. Além do aeromodelismo e dos cursos em si, esse equipamento pode ter uso para avião comercial no futuro. O Ozires Silva está certo nisso, a cidade contar com duas alternativas, o aeroporto Bauru-Arealva para terminal de cargas inclusive. Mas existe a discussão de que parte da área onde está o aeroporto central, mais próxima da avenida Getúlio Vargas, poderia ser de propriedade municipal ou gerar um acordo e entendimento para o setor público. Caso isso se concretize, o aeroclube continua funcionando e essa parte pode ter dois destinos. Ou a criação de uma área de lazer ampliada, um bosque ou parque, ou uma utilização nos moldes atuais de alienação (venda) de terrenos públicos com o objetivo de capitalizar o fundo municipal de infra-estrutura. Isso permitiria ampliar os investimentos principalmente na área de pavimentação para as regiões carentes da cidade.

JC - No rol de críticas de campanha, o que você diz sobre afirmações de adversários de que, sendo empresário e em sendo prefeito, não teria interesse em atuar para atrair empresas e ampliar a concorrência com setores da indústria com os quais têm ligação?

Caio - Esse discurso é um prato requentado. Até mesmo porque isso já foi utilizado em outras eleições. É uma artimanha política para criar essa falsa idéia de que alguém, no caso um político com origem no setor empresarial, não venha a se empenhar para que aconteça a atração de empresas, emprego e indústria. Isso é totalmente inconcebível, até porque isso é uma das nossas prioridades, junto com educação, saúde, promoção social e infra-estrutura. Ao contrário, o prefeito tem de se envolver com a divulgação da cidade para sensibilizar segmentos industriais para atrair investimentos. Vou atuar muito nessa área.

JC - Você apresentou na Assenag proposta de ocupar galpões da ferrovia como Centro Administrativo. Por que os galpões são boa alternativa e o que você pensa a respeito da prefeitura comprar a sede do Sesi para a educação?

Caio - Os galpões são uma boa alternativa por várias razões. A primeira é porque é possível, dada a dimensão física dos galpões, promover uma centralização de todas as secretarias nesse local, criar um Centro Administrativo Municipal, acabando com toda a fragmentação hoje. Você pega unidades como as secretarias de Educação e Saúde, têm uma unidade aqui, outra acolá, um departamento lá. Não só elimina a despesa de aluguel, mas também gera a integração administrativa e entre as secretarias. A gente olha de fora e há uma secretarialização do poder local. Ou seja, cada secretaria representa-se isoladamente e com dificuldade muito grande de agir como parte de um todo, a prefeitura. A gente defende até projetos habitacionais na área do parque ferroviário, para que o servidor possa ter oportunidade de ficar no futuro perto do emprego, com ocupação de vazios urbanos. É um projeto, um sonho, mas é preciso pensar nisso.

JC - O que fazer com o setor I dos Lotes Urbanizados, onde cerca de 909 terrenos poderiam ser parcialmente ocupados, mas com custo de pelo menos R$ 3,5 milhões na recuperação, custo que encarece projetos habitacionais e levou a CDHU a desistir da doação da área realizada pela prefeitura?

Caio - Tem duas alternativas. Uma delas, insistir, tentar viabilizar a recuperação dos lotes para fins habitacionais, muito embora com esse agravante do custo de recuperação de um setor. Neste caso podemos pensar em um enquadramento para um perfil habitacional em um padrão um pouco mais elevado do que os programas de baixa renda, a princípio. Ver o estudo de viabilidade econômica disso. E outra alternativa é ocupar a área dos lotes para mini-distritos industriais. Em Rio Preto já existem 17 mini-distritos, com terrenos de 200 a 1.000 metros quadrados, com destinação específica para finalidade de abrigar atividades econômicas de menor porte.

JC - Uma questão comum aos candidatos: avalie os governos estadual e federal?

Caio - O governo estadual está no quarto mandato do PSDB e isso já é um indicador de reconhecimento de que a população de São Paulo aprova a gestão tucana e as boas idéias como Poupatempo, Restaurante Bom Prato, Banco do Povo, Escola da Família, do tipo programa de distribuição de remédios Dose Certa, conclusão dos hospitais estaduais paralisados da gestão do PMDB, aumento das escolas técnicas e Faculdades de Tecnologia (Fatecs). Isso pra citar alguns programas e lembrando a presença forte dos investimentos estaduais em Bauru e região, ao contrário do governo federal em Bauru. O governo federal não tem investimentos na região, mas é inegável que teve a sabedoria de manter e ampliar a rede de proteção social criada na gestão do Fernando Henrique Cardoso, de forma a atacar o problema da população mais pobre no Brasil e teve também o equilíbrio de manter os pilares da administração econômica calcada no câmbio flexível, superávit primário e metas de inflação, pilares que formam o grande receituário de administração econômica no mundo todo hoje.

JC - Como você vê a reação de políticos de regiões como Botucatu, contrários à instalação de novas praças de pedágio pelo PSDB no programa de concessão de estradas que está sendo lançado?

Caio - Entendo a posição das comunidades em relação a isso e acho que o governo estadual poderia analisar um modelo de tarifas diferenciadas para minimizar os efeitos das concessões sobre os municípios. Seria aplicar uma tarifa para moradores das localidades que têm praças de pedágio entre municípios vizinhos, com uso intenso, por conta de trabalho e proximidades físicas, ou negócios, lazer. Esse usuário pagaria tarifa, nesse trecho, diferenciada, menor que o usuário tradicional que trafega por aquele trecho e vem de outras regiões, por motivos diversos. Seria uma maneira de atender às reivindicações vindas desses municípios.

JC - A prefeitura conseguiu atingir 600 mil metros quadrados de asfalto de 2005 até agora. Sua meta de 1 milhão de m2 por ano de asfalto não é muito ambiciosa, muito acima da capacidade da prefeitura?

Caio - Está. Verificando os números e anotações que foram feitas, discutindo o assunto melhor realmente verificamos que a meta tem de ser corrigida para 500 mil metros quadrados/ano para recape. A realização de 600 mil m2 pela atual administração foi muito reduzida e isso não pode permanecer. São 3.500 quadras para fazer asfalto, o que representa 3,5 milhões de metros quadrados que são de terra e mais 10 mil quadras com asfalto vencido. As deficiências são enormes, mas temos que aumentar dramaticamente isso, com duas usinas de asfalto e destinar a produção própria para recape e a produção nova por contrato no mercado.

JC - Há falta de programa de saúde da mulher no seu plano de governo. Por quê?

Caio - É novamente um ponto a ser corrigido, porque não temos a pretensão de ter um programa perfeito. Outros partidos ou coligações têm mencionado programas como Casa Abrigo e Centro da Saúde da Mulher, como o PV tem mencionado como já implantado em Pederneiras e acho que não há nenhum constrangimento de que, vença quem vencer a eleição, é um programa que merece ser implementado. Não há nenhuma dificuldade em incorporar boas idéias e boas soluções para a cidade.

JC - O que você faria com os oito pólos de Cejas, recém-instalados, à medida da redução da demanda por alfabetização de jovens e adultos?

Caio - O projeto arquitetônico é bacana e os prédios estão bem distribuídos nos bairros, geograficamente instalados. E isso é positivo e foi um avanço que aconteceu na cidade nos últimos quatro anos, como houve avanço na assistência social, com os CRAS e aumento da dotação orçamentária para o setor. Esses equipamentos de alfabetização, se a demanda cair muito, têm de ser gerenciados para outras ocupações, além dos programas em educação especial que já está em andamento. Se ocorrer ociosidade, é um equipamento que pode descentralizar cursos técnicos, em parceria com a ETEC, por exemplo, nos bairros. Há uma grande demanda da juventude, da educação de jovens para o mercado profissional, o primeiro emprego. São equipamentos que podem ser utilizados para programas culturais, pela comunidade também, de acordo com horários. O importante é que os Cejas formaram um avanço e precisam ser utilizados.

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