La Paz - O fechamento de uma válvula do duto que leva gás da Bolívia ao Brasil fez cair pela metade o abastecimento do país durante toda a manhã de ontem, no terceiro incidente a afetar o transporte do combustível em dois dias. Todos os problemas aconteceram no sul boliviano, paralisado por protestos da oposição. O fluxo foi restabelecido no começo da tarde.
A interrupção ocorreu na válvula de Buena Vista, no departamento de Chuquisaca (centro-sul). A empresa Transierra, que tem participação da Petrobras e administra esse trecho do gasoduto, não identificou os responsáveis e reparou o problema no final da manhã. O local fica a 70 km de Villamontes, foco das ações contra o governo e das ameaças de cortar o fornecimento ao Brasil e à Argentina.
Às 5h, os técnicos detectaram o problema em uma das válvulas e, por segurança, interromperam o transporte de gás nesse trecho do gasoduto (de Yacuíba até Rio Grande, em Santa Cruz). A interrupção provocou a paralisação dos trabalhos no maior campo de gás operado pela Petrobras, o San Antonio, por aproximadamente cinco horas, quando o Brasil recebeu cerca de metade do gás esperado.
Estado de Sítio
Ao lado de seu ministro da Fazenda, Luis Alberto Arce, o embaixador da Bolívia no Brasil, Rene Dorfler, afirmou hoje que o presidente Evo Morales estuda a instalação de estado de sítio no país para controlar os protestos. “A Constituição política estabelece essa possibilidade, o governo está avaliando a situação e vai decidir se for necessário’’, afirmou Dorfler.
Mortos sobem para 8
Ao menos oito pessoas morreram e mais de 30 foram feridas, muitas a tiros, em um enfrentamento armado entre camponeses pró-Morales e manifestantes opositores em Tres Barracas, próximo a Porvenir, no departamento autonomista de Pando (norte), às 5h de hoje -horário de Brasília. Os detalhes do episódio ainda são nebulosos e o governo não descartou que o número de vítimas aumente.
Foi o dia mais sangrento até agora da dramática crise política do país. O vice-ministro de Coordenação de Movimentos Sociais, Sacha Llorenti, disse que foi um “massacre perpetrado contra os camponeses’’ por milícias a mando do governador de Pando, o opositor Leopoldo Fernández. Para o governador, a situação “escapa ao controle das autoridades’’.
Resistência armada
A Venezuela apoiará grupos de resistência armada na Bolívia caso adversários do presidente Evo Morales dêem um golpe de Estado, disse ontem, o presidente venezuelano Hugo Chávez, que assegurou que iniciaria qualquer tipo de operação para restituir ao poder aliados que sejam derrubados.
“Se matarem Evo, acreditem os golpistas que estariam me dando luz verde para apoiar qualquer movimento armado na Bolívia. Eu não teria nenhum problema”, disse Chávez em um ato transmitido pela televisão. Chávez acusa os Estados Unidos e movimentos locais de oposição em países aliados como Bolívia e Equador de orquestrar uma “ofensiva imperialista continental” para destruir suas políticas socialistas.
____________________
Brasil não vai aceitar golpe
Brasília - O secretário especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou ontem, em entrevista coletiva, que o Brasil não vai aceitar golpe de Estado na Bolívia.
“Nós não toleraremos uma ruptura do ordenamento constitucional boliviano”, disse Garcia, que integrará a missão brasileira ao país vizinho.
Indagado se a declaração significava apoio de tropas brasileiras ao governo boliviano, Garcia respondeu: “Significa que o Brasil não reconhecerá nenhum intento de governo que queira substituir o governo constitucional da Bolívia.”
“Isso é terrorismo, não tem terrorismo bom ou mal, terrorismo de esquerda ou de direita”, acrescentou Garcia, referindo-se aos protestos da oposição, que chegaram a afetar o fornecimento de gás boliviano ao Brasil e à Argentina.
Segundo Garcia, Morales confidenciou a Lula que está bem pessimista com o nível das conversações com a oposição. Garcia afirmou que Lula telefonou também para os presidentes Cristina Kirchner, da Argentina, e Hugo Chávez, da Venezuela, para tratar da crise boliviana.
O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) disse ontem que o tratado firmado entre Brasil e Bolívia prevê o pagamento de uma “multa pesada” ao Brasil caso o gás deixe de ser fornecido. Ele disse, porém, que essa questão não será tratada agora.