Aos 14 anos Samuel Ferro narrou seu primeiro jogo de futebol. Aos 18, o jornalista, natural de Pederneiras, saiu do Interior para apostar em uma carreira na capital paulista. Lá, trocou o rádio pela TV e ficou conhecido por meio do programa “Desafio ao Galo”, exibido pela TV Record, que transmitia o torneio de futebol de várzea paulistano nas manhãs de domingo. Hoje, aos 58 anos, dos quais mais de 40 dedicados ao jornalismo, Ferro conta sua trajetória, histórias engraçadas que marcaram o início da carreira e fala da sua ligação afetiva com a região de Bauru.
No dia-a-dia, transformou-se em um personagem marcante do cotidiano bauruense ao ancorar o telejornal Enfoque 31, da TV Preve, e particularmente nesta época eleitoral, os debates entre os candidatos a prefeito e vice.
“Mesmo depois de tantos anos em São Paulo, minha vontade sempre foi um dia voltar para o Interior para fazer o que eu gosto no lugar do qual gosto”, conta o diretor executivo da TV Preve. Como âncora dos debates entre os candidatos de Bauru e região promovidos pela TV, o jornalista também não deixa de falar sobre política, da sua eterna relação com o futebol e do polêmico rebaixamento do Noroeste, seu time do coração, ao lado do São Paulo.
Longe do jornalismo, é ao sítio onde mora, localizado em Agudos, e à família que Ferro dedica sua atenção. “É em casa que eu relaxo, cuido dos meus animais e brinco com meus netos”, conta. Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Quando começou sua história no jornalismo?
Samuel Ferro - Eu comecei em Pederneiras, minha cidade natal, de uma forma bem engraçada. Em 1964, aos 14 anos, eu fui convidado para fazer um teste na rádio Cultura de Pederneiras e quando eu cheguei lá o dono da rádio falou que eu não iria fazer um teste e sim já transmitir um jogo de futebol. Eu já transmitia para eu mesmo lá em casa e não foi complicada essa experiência. Claro que não tinha ritmo, aquela destreza e, no final do jogo, depois que todos foram embora, eu fui até o pipoqueiro do estádio e perguntei se ele havia ouvido a transmissão do jogo. “Ouvi sim, mas não sei quem estava narrando não, tinha um gago transmitindo”, ele me respondeu (risos).
Jornal da Cidade - O senhor lembra de mais algum outro fato engraçado do início da carreira?
Ferro - Ah... O jornalismo tem muitos fatos pitorescos. Uma ocasião fui transmitir o jogo de Pederneiras em José Bonifácio e naquela época nós usávamos telefone daqueles de manivela. Pedia-se a linha, eles conectavam e você entrava transmitindo. Então lá de Bonifácio liguei para rádio de Pederneiras, o cara me falou que o som estava ótimo e que era só eu contar um, dois, três e começar a narrar o jogo. E assim eu fiz e transmiti o jogo inteiro. À noite eu voltei de viagem e perguntei para o guarda da rádio como havia sido a transmissão. E ele: “Que transmissão?”. Acho que fui o único narrador que transmitiu o jogo inteiro para ele mesmo (risos).
JC - O senhor ficou em Pederneiras até quando?
Ferro - Fiquei em Pederneiras até 1968 e de lá eu fui trabalhar em uma rádio em Guarulhos. Depois eu conheci um locutor esportivo, diretor de esportes da rádio Marconi de São Paulo, o Raul Tabajara, que me convidou para ser narrador de esportes.
JC - E como aconteceu sua passagem do rádio para a televisão?
Ferro - Um dia, o Raul, depois de ficar sete anos fora da televisão, assumiu outra vez a diretoria de esportes da Record e gostaria que eu fosse trabalhar com ele. Eu, em um primeiro momento, não queria porque estava fazendo faculdade de jornalismo e de direito, havia deixado minha noiva no Interior e não queria ficar viajando daqui para São Paulo. Mas depois ele acabou me convencendo e eu comecei a fazer o “Desafio ao Galo”, que transmitia o torneio de futebol de várzea paulistano nas manhãs de domingo e, por convite dele, acabei ficando na Record por 27 anos.
JC - Como era o programa?
Ferro - Era muito legal. Primeiro porque, na época, a televisão não fazia muito futebol. E esse “Desafio ao Galo” mostrava um torneio que era feito apenas com equipes de várzea. Lá se revelaram muitos jogadores de futebol como o Cafu, o Casa Grande, e muitos outros. E eu comecei como repórter, fiquei esses anos todos e quando eu deixei a Record, eu era o diretor do programa.
JC - Como se deu seu retorno para o Interior?
Ferro - Eu já estava cansado de São Paulo e queria voltar para o Interior. E quando eu voltei, no começo ainda viaja todos os finais de semana para a Capital para fazer o “Desafio ao Galo”.
JC - Foi aí que nasceu a TV Preve?
Ferro - Sim. Eu conheci um pessoal que tinha montado uma TV educativa em Mogi Mirim (SP) e nós fomos conversando e eles me ensinaram como haviam feito, os procedimentos... Circunstancialmente, eu acabei também conhecendo o Duda do Preve Objetivo, comentei com ele essa possibilidade e ele me deu carta branca para ir atrás. Felizmente deu certo e nós montamos a TV. E eu só saí da Record, no final de 1995, 15 dias antes de entrar no ar, em caráter experimental, a TV Preve.
JC - O futebol sempre esteve muito presente em toda essa trajetória?
Ferro - Sempre gostei muito. Comecei minha atividade no rádio fazendo futebol e depois, em São Paulo, predominantemente foi com ele que trabalhei.
JC - E o senhor torce para qual time?
Ferro - Sou são-paulino. Mas, por ter nascido aqui na região, eu nasci noroestino e sou apaixonado pelo Noroeste. Lembro quando o time estava em uma fase difícil na Série B, em um dos últimos lugares da tabela de classificação. Ele foi jogar em Paraguaçu Paulista, precisando de um empate para não cair de divisão e eu fui transmitir o jogo lá pela televisão. Começou o jogo e o Noroeste fez 1 a 0. Daqui a pouco, 2 a 0. A torcida do Paraguaçu começou até a se levantar e ir embora. Mas aí o time sofreu um pênalti e fez 2 a 1 e, logo depois, empatou. Aos 40 e tantos minutos do segundo tempo, o time de Paraguaçu vai lá e faz o terceiro. Eu estava na transmissão e na hora que acabou o jogo eu comecei a chorar de tristeza e fui motivo até de muita brincadeira. Mas eu fiquei muito sentido com o que tinha acontecido.
JC - E como você se sente agora com o Noroeste rebaixado para a Série C?
Ferro - Agora eu não quero mais nem transmitir. Eu já estava descontente porque eu fui fazer um jogo em Ituiutaba e o time perdeu por 4 a 1. Aí eu desisti de fazer transmissão fora. Eu já não tenho mais saco nem idade para ficar viajando e passando raiva com o time. Aos poucos acredito que eu vá deixando as transmissões para, exatamente, não passar mais raiva e esses dissabores que o futebol proporciona.
JC - E como está o trabalho com os debates entre os candidatos de Bauru e região?
Ferro - Além de âncora, eu estou cuidando de todo o aspecto operacional, então isso tem tomado bastante tempo. Logo no seu segundo ano de existência, a TV Preve fez seu primeiro debate e continuou fazendo ao longo desses anos todos os debates de Bauru. Com o passar do tempo, de retransmissora a TV passou a geradora e isso permitiu com que nós entrássemos em outras cidades. E com isso temos aumentado o número de municípios participantes dos debates e a audiência.
JC - Como o senhor avalia o papel dos debates para as eleições?
Ferro - Hoje, as proibições da própria legislação eleitoral têm feito com que o eleitor não esteja muito a par de tudo que acontece. Com a vida muito corrida, a televisão é uma saída para que a população possa conhecer melhor os candidatos. E o mais importante é mostrar as propostas que os candidatos apresentam, o plano de governo de cada um.
JC - Com tanto trabalho dá tempo para se dedicar a outras atividades?
Ferro - No fim-de-semana eu me dedico inteiramente à minha família. Eu não abro mão de ficar com eles e com meus netos. Tanto que eu não saio, apenas profissionalmente. Eu sou convidado para muitas atividades sociais, mas sempre arrumo uma desculpa e não vou. Acabo sempre priorizando a minha casa, a minha família e meus netos, principalmente. Até deixei o Rotary, do qual fui presidente, para curtir a família e poder descansar das minhas atividades profissionais, que são muitas. Nem ir viajar, assim, ir por ir, não vou mais.
JC – Não gosta de viajar?
Ferro - Hoje não mais. Até porque eu já viajei demais, já conheço de 60 a 70 países. Quando eu estava em São Paulo, paralelamente à TV e ao rádio, eu era assessor da Confederação Macabi, que é uma confederação formada basicamente de clubes judeus brasileiros. Eu fiquei 12 anos com eles e, nesse período, eu tive a oportunidade de viajar muitas vezes, para diversos lugares como Israel, México, Canadá, vários países da Europa e da América Latina, fazendo a coberturas das Macabíadas Mundiais (competição esportiva judaica), realizada a exemplo das olimpíadas. Hoje, meu único destino fora do Brasil é os Estados Unidos porque tenho uma filha que mora lá há 10 anos. Então quando eu tiro férias eu vou para lá para ver minha filha e meus netos.
JC - E o que gosta de fazer no tempo livre?
Ferro - Eu gosto de pescar, de ler e de cuidar dos meus animais que eu tenho no sítio em Agudos, onde moro.É lá que eu me divirto tudo o que tenho direito. Lá é que eu faço minha higiene mental, relaxo, coloco minha cabeça em dia dos meus afazeres. E quando eu não estou mexendo com as coisas do sítio, eu fico brincando e cuidando dos meus netos. Como avô eu diria que sou um paizão!
JC - Pelo jeito a sua ligação com os hábitos do Interior são bem fortes?
Ferro - Eu sempre tive hábitos bem interioranos. Vivi em Pederneiras até os 18 anos e acabei criando raízes. Casei com uma mulher de Pederneiras que morava em Agudos, por isso minha ligação com a cidade. E, mesmo depois de tantos anos em São Paulo, minha vontade sempre foi de um dia voltar para o Interior. Isso aconteceu e dei sorte de ter conhecido o pessoal do grupo Preve e aliar fazer o que eu gosto com o lugar do qual gosto.
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Perfil
Nome: Samuel Godinho Ferro
Idade: 58 anos
Local de nascimento: Pederneiras (SP)
Esposa: Fátima Ferro
Filhos: Flávia, Raquel e Samuel
Hobby: Pescar e ficar com os netos
Livro de cabeceira: Bíblia
Filme preferido: “Matar ou Morrer”
Estilo musical predileto: Música erudita
Time: São Paulo
Para quem dá nota 10: Meus pais
Para quem dá nota 0: Para os políticos corruptos