Bairros

Moradores não notam o ‘esvaziamento’

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 3 min

Uma espécie de termômetro que serve para apontar a estagnação, queda ou crescimento do número de domicílios e, conseqüentemente da população nas favelas de Bauru, é o depoimento de quem vive nesses locais. De acordo com os próprios moradores das favelas, diariamente chegam e saem pessoas das comunidades, mas a sensação entre eles é de que, no mínimo, as coisas estejam estagnadas.

Um romance com um bauruense trouxe Elizete da Silva Santos e a filha Andressa da Silva Santos, que residiam em Ibaiti (PR), para a favela do Jardim Europa. Em Bauru há cerca de quatro meses, ela conta que mora num barraco de madeira que pertenceu à cunhada. “Meu marido ajudou a levantar o barraco novo no fundo do terreno e como forma de pagamento ela deu a ele o barraco antigo”, conta.

Élen Aparecida Dias, moradora da Vila Zillo, conta que sempre morou com a mãe no barraco da família, mas quando ficou grávida do primeiro filho teve uma discussão com o padastro e foi morar em outro local na cidade. Recentemente, retornou para morar com a mãe e construiu ao lado um lugar para viver com os filhos.

A maior parte dos moradores visitados pela reportagem do JC somente relata histórias de famílias que chegaram recentemente as favelas ou de famílias que cresceram com a chegada de noras, genros e netos.

Há 11 anos morando no Jardim Nicéia, Maria Cristina Dias Mariano Barros diz que hoje tem a casa que sonhou. Apesar dos imóveis no local estarem construídos em terreno irregular e que pertence à iniciativa privada, a família investiu e construiu uma casa de dois andares.

“Quando a gente mudou aqui era um quarto que não tinha nem telhado, mas que as poucos fomos modificando”, conta. De acordo com a moradora, além dela, marido e dos dois filhos, a nova casa pôde receber até seu irmão, que estava sem lugar para ficar. “Tenho espaço até para receber mais gente. Se por acaso acontecer do meu filho mais velho encontrar alguém e não ter aonde começar a vida, tem espaço para ele, sim, aqui”, afirma.

Forçando a memória, a mulher afirma que viu muita gente chegar ao bairro, mas assistiu a poucos irem embora. “Hoje o número de famílias que chega para morar aqui é menor, mas poucos vão embora”, completa.

De acordo com o professor doutor José Xaides de Sampaio Alves, do Centro de Pesquisas sobre Cidades da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Faac/Unesp) de Bauru, a falta de políticas sociais, principalmente do município, impede as pessoas de saírem das favelas.

De acordo com o professor, o problema de quem mora nesses locais não está só na moradia, mas também na falta de ações zonais especiais de interesse social que foquem o trabalho, a educação e renda para que esse cidadão seja incluso novamente na sociedade, uma vez que a possibilidade de migração de quem reside numa favela é muito pequena.

“Em Bauru, nos últimos anos, foram realizadas apenas ações pontuais”, afirma. Para ele, a única medida de efeito realizada em Bauru foi o projeto de desfavelamento realizado no Núcleo Fortunato Rocha Lima, as demais ações deixaram muito a desejar no lado social.

Levantamento que ainda não está fechado, realizado pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) em parceria com alunos da Faculdade de Serviço Social de Bauru da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e que deverá ser divulgado ainda este ano, aponta uma queda brusca de aproximadamente 23% no número de barracos construídos nas favelas de Bauru.

Para Egli Muniz, secretária municipal do Bem-Estar Social, o resultado desse levantamento irá coroar o trabalho social realizado pela Sebes junto às comunidades carentes que vivem nas favelas.

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