Tratar casos de depressão e outros transtornos mentais por meio da arte é a proposta do psicólogo e psicoteraputa Dorival Vieira, 49 anos. Ele acredita que a leitura dos quadros e a conscientização das pessoas que sofrem de algumas doenças se torna muito mais fácil com a arteterapia.
“Medicamento sozinho não cura ninguém”, afirma Dorival, que trabalha há cerca de 30 anos com pessoas portadoras de transtornos mentais. Na entrevista a seguir, ele explica os mecanismos da depressão e como ela afeta de forma negativa a vida das pessoas, além de alertar que ninguém está ileso à doença, seja bem ou pouco esclarecido intelectualmente.
Jornal da Cidade - O que é depressão?
Dorival Vieira - A depressão de forma mais objetiva aparece como uma disfunção bioquímica, mas o histórico dela pode estar vinculado a alguma situação que o indivíduo passou. Pode ser, por exemplo, uma grande perda na família, na vida em si. Perda de coisas que desencadeiam a não-possibilidade dos projetos do futuro. À medida que ela não tem projeto de futuro, cria certa ansiedade que propicia um caminho para o processo depressivo. Há, também, a colaboração do fator bioquímico no sentido de deixar a pessoa para baixo, se sentindo desestimulada na questão da existência em si. Ela não vê perspectiva e não tem mais estímulo para continuar enfrentando o seu dia-a-dia.
JC - É o fator bioquímico que gera a tristeza?
Dorival – Nem sempre. Começa pela perda. À medida que uma pessoa perde inesperadamente um vínculo que dá segurança, seja uma pessoa ou um emprego, se estabelece um sentimento de culpa e, conseqüentemente, ela pode desenvolver o processo depressivo. Porque a depressão tem um caráter também de ansiedade profunda. Porque a ansiedade é o que eu vou fazer agora, é uma projeção também para o amanhã. À medida que eu não sei o que vou fazer ao amanhecer, eu vou alimentando esse período depressivo meu. E é difícil sair quando não se encontra respostas.
JC - A base da depressão é a ansiedade?
Dorival - Eu avalio que sim. À medida que o indivíduo sofre um tipo de ruptura, é óbvio que ele perde um pouco dos projetos de futuro. Há um rompimento de possibilidades de convivência, seja de coisas ou de pessoas. Isso gera a ansiedade, que pode estar por trás de tudo. No entanto, existe um fator psicossocial, que afeta a fragilidade da estrutura destas pessoas também. Muitas delas têm a estrutura de personalidade e de psique um pouco fragilizada. Então, qualquer rompimento, distanciamento ou afastamento pode causar depressão. É importante lembrar que existe uma acomodação normal do ser humano em acreditar que as pessoas são permanentes, no entanto, há uma impermanência de ser.
JC - De onde vem esta fragilidade?
Dorival - Pode vir da infância. Um exemplo simples é o da criança que o tempo todo foi mimada, superprotegida, paparicada e sempre os outros fizeram por ela; ela nunca teve a chance de ter a experiência de realizar e descobrir as coisas, de avançar em busca delas. O que acontece? Quando há uma perda, ou seja, quando um elo se quebra, por ela não ter estrutura de resolver os problemas da vida dela porque não a ofereceram estas condições, o indivíduo pode, sim, desencadear um processo depressivo. É importante lembrar que toda a fragilidade da estrutura compromete uma pessoa.
JC - E no caso de pessoas que até contam com a estrutura mais forte, porém o acúmulo de acontecimentos ocasiona a depressão?
Dorival - Ninguém está livre do processo depressivo. Devemos nos questionar até que ponto podemos achar que esta estrutura esteja acontecendo ou aconteceu, de fato, na vida de uma pessoa. Às vezes não, mas todos nós estamos sujeitos a passar por um processo nesse sentido.
JC - A depressão pode atingir qualquer pessoa?
Dorival - Depende da evolução do quadro. É óbvio que em algum momento da vida ela vai entrar num período desse. Mas ela pode, através de um bom processo terapêutico, retomar a vida normal. Como, também, isso pode não acontecer e a depressão se tornar crônica. Quase todo mundo vai passar por uma situação parecida, independente da idade ou da classe social. O terapeuta, para aceitar casos, tem de pensar muito porque vai fazer parte da existência do indivíduo a partir do diagnóstico por um bom tempo ou, talvez, a vida toda.
JC - Como se deve lidar com um depressivo?
Dorival - Com muito cuidado. A questão de como trabalhar com essa pessoas é muito forte, pois, por não encontrar respostas ou caminhos que possam ajudá-la a sair desse processo, ela pode cometer alguma atitude impensada, inclusive, tentar o suicídio.
JC - O número de depressivos aumentou?
Dorival - Sim. Hoje as pessoas estão muito mais sujeitas a entrar num quadro de depressão do que antigamente. Esse índice aumentou de tal forma que é complicado para o setor de saúde pública, do mesmo modo que o de outros transtornos também. Mas o importante é que o depressivo tenha consciência de seu problema, pois é o primeiro passo para reverter e voltar para a vida normal. No entanto, até esta consciência depende da estrutura. A fragilidade imposta, talvez, pela família vai dificultar, e muito. A pessoa pode não só ir para um quadro como esse, mas desencadear outros quadros também.
JC – Quais são eles?
Dorival – Da depressão para um caso próximo de uma esquizofrenia é um passo. Não é nada complicado. Ela pode desencadear também um quadro de paranóia, entre muitos outros. A depressão leva de forma inconsciente ao processo mais acentuado de danificação.
JC - Quais são os sintomas da esquizofrenia?
Dorival - A linha entre a normalidade e a anormalidade é muito tênue. É aí que se desenvolve a esquizofrenia e há um afastamento do convívio, a perda de senso com a realidade, pensamentos distorcidos, delírio, alucinações e outras coisas que o indivíduo começa a vivenciar.
JC - Como se diagnostica um quadro depressivo?
Dorival – Por meio do acompanhamento do paciente durante um tempo e a observação de como ele está se comportando. Se trancar, evitar contato com as coisas, aparentar tristeza, não ter hábitos normais, não ter vontade para fazer coisas, se esquivar do vínculo com a própria família ou com a sociedade e cada vez mais se fechar em si mesmo são sintomas que aparecem no depressivo.
JC - A depressão pode variar de intensidade nas pessoas?
Dorival - Pode, com certeza. Depende muito da estrutura pessoal. Às vezes, uma pessoa com depressão pode entrar num processo terapêutico bem adequado e sair de forma consciente e continuar a vida dela. Porém, a gente vai encontrar muitas pessoas que não conseguem, que vão conviver com este transtorno para o resto da vida.
JC - Qual é o papel dos remédios no tratamento da depressão?
Dorival - Ele supre a deficiência bioquímica do depressivo e propicia um certo alívio, mas também existem alguns danos. Daí ser necessário fazer um diagnóstico correto e avaliar que tipo de terapia será aplicada.
JC – Como avalia o tratamento com medicamentos?
Dorival - Medicamento é bom? Sim, é bom. Mas outros processos terapêuticos também são importantes. Um bom exemplo é o tratamento por meio das artes, de modo geral. É um caminho saudável até. É muito mais fácil fazer a leitura de um depressivo assim, principalmente, pela pintura. Isso pode ser aplicado não só em casos de depressão, mas também de outros casos, como, por exemplo, a esquizofrenia e o transtorno obsessivo compulsivo. Medicamento sozinho não cura ninguém.
JC - Como o tratamento por meio das artes funciona?
Dorival – No caso da pintura, a pessoa pode se expressar e trabalhar com a estrutura pessoal; com a psique; posso entender um pouco do que está acontecendo. No caso da esquizofrenia, quando a pessoa está bem, ela faz desenhos com definições. Isso é muito concreto. Quando ela não está muito bem, há uma resistência em fazer qualquer coisa e o que ela vai reproduzir o caos – ela vai rabiscar tudo, ou fazer confusão de coisas. Aí percebemos que tem algo errado. O tratamento por meio da arte pode ser aplicado a todos os tran stornos, porque a psique humana não é uma função orgânica, você consegue com muito mais facilidade chegar ao inconsciente pessoal, ao inconsciente coletivo. Você consegue encontrar respostas através de um jogo de palavras, enfim de várias formas. Acho muito mais eficiente do que só medicamento. Eu posso conscientizar a pessoa que ela tem um problema; que está sendo resistente, negativa.
JC - Como funciona a psique humana?
Dorival - Simbolicamente ela é um círculo. Imagine um círculo. Uma bolinha pequenina lá dentro é o ego, que significa eu, mas não significa si mesmo, pois si mesmo é totalidade do ser humano. Aí no campo maior acontecem todos os fenômenos da psique - os sonhos, o processo de individuação e outras coisas mais. E falta muito para a gente descobrir o que tem ali. A psique humana ainda é um grande mistério.
JC – Além da pintura, outras artes podem ser utilizadas na terapia?
Dorival - Todas, de um modo geral. A pintura, como eu já disse, a literatura, a poesia, a dramatização, a dança e a música são alguns exemplos.
JC - Com estes tratamentos é possível voltar à vida anterior?
Dorival - Especificamente no caso da esquizofrenia não, não há retorno. Já no caso da depressão sim.
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Curso
O psicólogo Dorival Vieira está ministrando o curso de capacitação “Psique e Artes – Brincando e Brincadeiras”, sobre brincadeiras e movimentos para o desenvolvimento e a saúde das pessoas. As aulas são destinadas a profissionais da área da saúde (psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas), educação, arte-educadores, pais e comunidade em geral.
O conteúdo programático do curso inclui os módulos “A psique e a arte”, “Brincando e brincadeiras” e “A trajetória do ser (individuação)”. Informações e inscrições pelo telefone (14) 3879-6739 ou pelo e-mail escritorio@visaobauru.com.br.