Política

Gazzetta ataca a vinculação do voto

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

Nem José Serra (PSDB), nem Lula (PT), nem asfalto de graça. Para o candidato a prefeito Clodoaldo Gazzetta (PV) é necessário desmitificar na eleição municipal deste ano a idéia de que Bauru só se beneficiará de recursos de fora se os candidatos vinculados ao governo federal ou estadual vencerem as eleições deste ano. Concorrente que mais cresceu nas intenções de voto no espaço de um mês de campanha nas ruas, entre agosto e setembro, Gazzetta critica a apropriação de vínculo com os governos de ocasião como a única fórmula para garantir recursos para a cidade e também ataca a proposta populista de realização de asfalto de graça.

E é exatamente na desmitificação desses e de outros componentes eleitorais que Gazzetta credita suas chances de ir para o segundo turno. Para o ex-secretário municipal do Meio Ambiente, “não é este ou aquele candidato que tem as portas abertas com o governo federal ou estadual, mas a cidade. Quem for prefeito terá de inserir Bauru nos programas disponíveis, porque as dívidas irresponsáveis do passado e a falta de ação da prefeitura são quem distanciaram a cidade dos programas”, comenta.

O quinto candidato na série de entrevistas individuais do JC critica o que pode ser chamado de eleição do voto-vinculado, a idéia de que a cidade só seria beneficiada se o candidato do partido do governador ou do presidente vencer, em uma crítica direta ao tucano Caio Coube e ao peemedebista Rodrigo Agostinho. Leia a entrevista:

Jornal da Cidade - Há menos de 30 dias da eleição, sua candidatura aparece bem atrás da de Rodrigo e de Rosa. As chances reais do senhor ir para o segundo turno não são muito pequenas a esta altura?

Gazzetta - A nossa possibilidade de ir para o segundo turno, a essa altura da eleição, é real. Tenho sentido que a campanha tem crescido a cada dia nos bairros, nas feiras e no contato direto com o eleitor. A empatia das pessoas, principalmente no momento em que começam a definir o voto, demonstra a clara e nítida possibilidade do PV, pela primeira vez na história de Bauru, disputar o segundo turno.

JC - As últimas pesquisas não representam essa tendência...

Gazzetta - As pesquisas apontam o início da campanha. Agora as pessoas passaram a conhecer um pouco mais as propostas dos candidatos e compará-las. Nós crescemos 100% da primeira pesquisa para a segunda. A tendência é esse crescimento aparecer nas próximas pesquisas. Gostaria de ressaltar que avançamos muito em termos de legislação eleitoral, com as restrições estabelecida pela Justiça. Só acho que o tempo de TV deveria ser revisto, não ao ponto de termos tempos iguais, mas que prevaleça nos Estados um tempo maior para quem é realidade naquele local.

JC - Nos programas de TV vocês citam a gestão do PV em cidades como Pederneiras e Bocaina. Não se trata de realidades diferentes em comparação com Bauru, município que hoje tem baixa capacidade de investimento?

Gazzetta - Não acredito nisso. A proposta de fazer comparação é mostrar a forma de gestão e não a capacidade do município de realizar obra. Em Pederneiras, por exemplo, a prefeita foi atrás de recursos para construir um centro de saúde destinado à mulher e isso é um modelo de gestão. Não podemos dizer que Bauru, por ser uma cidade maior, não poderia ter o mesmo tipo de obra. Não foi feito aqui, porque não teve ação efetiva do Poder Público.

JC - O PV dependerá do voto de legenda para conseguir atingir o coeficiente eleitoral mínimo para garantir uma cadeira à Câmara?

Gazzetta - Sim. Estamos apostando no voto de legenda, que deve ser muito grande nesta eleição. Também apostamos na capacidade de nossos candidatos a vereador. O PV deve fazer entre duas e três cadeiras pelo que sentimos nas ruas e pela campanha que os candidatos estão fazendo. Diferentemente de outros partidos, os candidatos do PV fazem campanha não só para eles, mas também para o grupo. Embora estejam pela primeira vez na disputa, já têm história de luta nas associações de moradores ou em trabalho voluntário. Em todos os lugares aonde vou as pessoas pedem mudança. Pelo que estou sentindo, a Câmara Municipal vai ser renovada por completo. Defendo mudança na cidade, com novos ares e modificar o estigma da política provinciana que Bauru sempre teve, com brigas políticas, prefeito brigar com o vice, de prefeito ir para a cadeia.

JC - O Plano Diretor aprovado pela Câmara foi avaliado por arquitetos e outros estudiosos como demasiadamente benevolente com os construtores, dificultando inclusive aplicação de mecanismos como o coeficiente de aproveitamento na verticalização. Como o senhor vê as críticas ao que foi aprovado, inclusive com o voto do PV?

Gazzetta - Acompanhei pelos bastidores a elaboração do novo Plano Diretor. Fui uma das pessoas que defendia que sua votação ocorresse na próxima gestão. Houve ampla discussão com a sociedade e depois a Câmara chamou para si e desfigurou estratégias do plano. Acho que tivemos de correr algum risco em relação à questão ambiental, como APAs e uso urbanístico da cidade. Para mim, é interessante a discussão entre desenvolvimento e meio ambiente. Recentemente vi que um candidato defende a venda da área do aeroporto para que aquela área possa ser ocupada para urbanização. O aeroclube faz parte da história da cidade e deve ser preservada como patrimônio. Se formos pensar assim, a Praça Rui Barbosa também é muito valorizada. Vamos acabar com o Parque Ibirapuera, em São Paulo, porque é necessário ter mais prédios e casas. E a questão da qualidade de vida? A população bauruense clama por áreas de lazer. As pessoas querem um lugar para passear aos finais de semana.

JC - Nessa linha de desenvolvimento, como acabar com os vazios urbanos existentes em Bauru?

Gazzetta - Temos os fundos de vale, que são áreas mais abandonadas. Hoje não deveriam ser usadas para ocupação imobiliária. Podem ser uma interligação da cidade do ponto de vista urbanístico, de transporte e de área de lazer. Há outras áreas não usadas para habitação e ficam no “stand by” para suposta especulação imobiliária. Hoje, pagamos pelo desenvolvimento que foi feito nas décadas de 60 e 70 em que o proprietário fazia o loteamento, vendia os terrenos e jogava para a prefeitura a execução da infra-estrutura. Hoje pagamos por isso. Temos mais de 3.500 ruas para serem asfaltadas por conta desse desenvolvimento desenfreado para beneficiar pequenos grupos, que, por incrível que pareça, são os mesmos que querem hoje um desenvolvimento urbano excessivo para ganhar dinheiro em detrimento da qualidade de vida das pessoas.

JC - O senhor vem defendendo a realização de licitações eletrônicas, os pregões, para buscar economia nas compras, mas essa ferramenta já é utilizada há anos pela prefeitura...

Gazzetta - O que existe hoje na prefeita é em pequena escala, mas não é feito para obras, por exemplo. O Ministério Público e os tribunais já assinalaram que para obras também é possível fazer pregão eletrônico. A prefeitura tem de ter todo o processo de licitação nessa modalidade. Com o pregão, acredito que a economia vai girar entre 20% e 25% do orçamento.

JC - De que forma o modelo de fundação que o senhor defende para contratar médicos e serviços para a saúde vai contornar a diferença que fica entre o quadro de servidores atuais, com salários inferiores aos de mercado, e o que viria com a fundação?

Gazzetta - A fundação permite que haja muito mais pessoas trabalhando a questão da saúde do que tem hoje, sem que sejam feitas contratações. Haverá uma rede muito maior de hospitais, clínicas, médicos particulares que terão acesso à fundação para prestar serviços à comunidade. A fundação possibilita que você tenha mais agentes de saúde atuando na cidade. A prefeitura tem demanda, por exemplo, de 900 horas para clínico geral. Se através da fundação conveniar alguma clínica particular ou médicos da cidade, é possível atender a essa demanda sem a contratação de mais profissionais. Quanto aos funcionários da prefeitura, eles seriam cedidos para a fundação. A contratação é feita de acordo com carga horária específica. Em relação a recursos, é possível realizar convênios com as clínicas em Bauru e determinar a quantidade de exames e cirurgias necessários. Outra possibilidade é elaborar projetos e solicitar dinheiro do governo federal. O Ministério da Saúde divulgou em janeiro deste ano os Núcleos de Apoio aos Programas Saúde da Família. Trata-se da contratação de várias especialidades que, junto com o PSF, melhoram o atendimento das pessoas. O governo repassa para esse programa R$ 20 mil por mês. Se dobrarmos o número de PSF na cidade, poderíamos ter dois núcleos.

JC - O senhor diz, no plano de governo, que nos primeiros seis meses criará comissão para reposicionar a Cohab. A companhia não tem perspectiva a curto prazo de construir moradias. O que fará a respeito?

Gazzetta - A Cohab perdeu o sentido de existir. O gerenciamento de contratos pode ser feito por uma secretaria ou outra área da prefeitura. Vamos criar uma comissão e avaliar qual a melhor saída para a área de habitação. Do jeito que está a Cohab não vai ficar. A CDHU e o governo federal têm recursos para construção de casas populares. O grupo que pretendemos criar servirá para avaliar como iremos fazer o serviço da Cohab em Bauru. Em nosso plano de governo, estamos prevendo construir 8 mil moradias, através de parcerias com o Estado e com a União.

JC - Como o senhor avalia o discurso de asfalto gratuito, prometido por Rosa?

Gazzetta - Não vou avaliar a estratégia de campanha dela porque não me cabe. A população vai saber julgar nas urnas se isso é correto ou não. Vender a imagem de que tudo é de graça é tentar enganar as pessoas. Nada é de graça. Os recursos do governo federal, por exemplo, vêm do pagamento de impostos. Qualquer produto que se compre no mercado, o imposto está embutido nele. Agora, se o candidato vai colocar dinheiro do bolso para fazer a obra, vamos comemorar. Se não for fazer, então está mentindo.

JC - Qual será a ação do senhor com relação às dívidas já consolidadas pela prefeitura?

Gazzetta - O primeiro item do nosso plano de governo fala exatamente desse assunto. Não iremos modificar nada do que a atual administração definiu como padrão de pagamento. As negociações já foram feitas, cabendo ao próximo prefeito respeitá-las. O que não tivemos nos últimos governos foi respeito às dívidas já contraídas. Chegamos ao fundo do poço.

JC - Como o senhor avalia os governos estadual e federal?

Gazzetta - Temos acesso direto aos governos estadual e federal. Por isso, serão grandes parceiros da administração. Vou até fazer contraponto em relação aos que dizem que têm portas abertas com um ou outro governo. O PV não precisa disso, porque já tem o acesso. O deputado federal Tóffano (José Paulo Tóffano) vem trazendo recursos para Bauru, não diretamente para a prefeitura, por estar com restrições, mas para hospitais e para o projeto da transposição da linha férrea da avenida Comendador José da Silva Martha. Não precisamos vender imagem de ameaça à sociedade, dizendo que não haverá recursos se não nos elegermos. Em relação aos programas que estamos vendo pela televisão sobre quem privatizou ou não, na verdade todos os partidos que estão se questionando participaram desse processo. A privatização da Rede Ferroviária Federal, da CPFL e da Cesp passaram pelo governo do PSDB, mas os ministros e os secretários eram do PMDB. A incoerência política é a pior praga que existe no País. É horrível para a população, porque ela não entende e imagina que todos os políticos são iguais. No governo estadual também temos bom trânsito. Bauru já tem o deputado Pedro Tobias, que não é do meu partido, mas tem grande acesso a São Paulo. O prefeito que ganhar a eleição vai costurar parceria com o deputado.

JC - O senhor propõe criar o Programa Municipal de Alimentação Escolar, serviço que já é oferecido pela prefeitura. O que vai mudar?

Gazzetta - Nossa proposta é intensificar o programa e ter uma maior qualidade na merenda escolar. Não pretendemos privatizar o serviço. Vamos investir nos funcionários para que possam discutir os recursos que vêm do Fundeb. Também queremos avaliar o programa para analisar se está tendo bons resultados.

JC - Com que recursos e em quanto tempo o senhor planejaria construir o Centro Olímpico de Bauru, além de revitalizar, reformar e modernizar os espaços esportivos existentes?

Gazzetta - Esse recurso já está quase em Bauru. É uma parceria do governo federal junto à Universidade de São Paulo para criação do centro olímpico. O deputado Tóffano já viabilizou o projeto técnico e está em contato com o Ministério dos Esportes. Esperamos que a obra seja feita na USP.

JC - Como funcionaria o projeto da ouvidoria municipal?

Gazzetta - O objetivo é a população ter acesso direto para fazer reclamações necessárias. Além disso, elas devem ser checadas em todo o sistema da prefeitura. Quando fui secretário municipal, havia ouvidoria. Não sei porque foi extinta. O serviço que existe hoje avalia apenas os servidores públicos.

JC - Como será possível promover a redução da base de cálculo do ISS, com diminuição de potencial de receita, sem ferir os rigores da lei fiscal?

Gazzetta - O programa é destinado a pequenos serviços, como mecânico e cabeleireiro ou àqueles profissionais que contam com dois ou três funcionários. A função do Poder Público é incentivar a geração de emprego.

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