Política

Rosa ataca e evita falar sobre Izzo Filho

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

A última entrevista individual da série com os candidatos a prefeito traz como personagem Rosa Izzo (PDT), que entrou na disputa eleitoral em 2008 porque o marido, o ex-prefeito Antonio Izzo Filho, não reúne condições jurídicas para tal, está inelegível e com os direitos políticos suspensos por sentenças por improbidade administrativa e crime. Rosa adota discurso ácido na periferia, mas conteúdo sereno na televisão. Entretanto, a candidata, que adota postura crítica em relação às deficiências da atual administração, reage quando é convidada a discutir os erros da gestão Izzo Filho, cujos reflexos atingem, em boa parte, a incapacidade atual da prefeitura.

No campo da discussão política, o desafio da candidata nesta fase da campanha é superar o peemedebista Rodrigo Agostinho nas pesquisas de intenção de voto, com quem disputa o espaço pela polarização com o tucano Caio Coube, este último seu principal alvo nas reuniões diretas realizadas com moradores.

Na entrevista ao JC, a candidata reage quando chamada a discutir os problemas da gestão de Izzo, mas também não deixa de comentar temas espinhosos como a mais recente condenação da Justiça Federal, em primeira instância, que determina a devolução de cerca de R$ 5 milhões contra Izzo Filho por superfaturamento e desvio de finalidade na aplicação de verbas federais do programa Lotes Urbanizados (caso Coesa), uma obra que gerou dívidas e não foi concluída até hoje.

Leia na entrevista as impressões de Rosa Izzo, que busca votos na periferia e, ao mesmo tempo, tenta reverter os índices de rejeição em outras camadas sociais contra a vinculação de sua candidatura ao ex-prefeito.

Jornal da Cidade – Vamos começar por estratégia de campanha. A senhora preferiu a campanha de fora pra dentro da cidade, a partir da ponta da periferia?

Rosa Izzo – Não, a gente está andando nos bairros porque a gente acha que é onde realmente o Poder Público precisa trabalhar, onde está bem abandonado. Tenho consciência que nossa campanha abrange mais os bairros e foi por lá que a gente começou.

JC – Seu discurso na periferia tem questões intrigantes no embate político, fazendo referência ao bairro que não tem iluminação, nem asfalto, com a iluminação nova na zona Sul, na Getúlio?

Rosa – Não. A periferia é formada por aqueles que mais precisam. Mas isso não quer dizer que a gente vai abandonar a outra área. O Barbosa (Antonio Carlos) diz o seguinte: você não fazer tudo bem. Mas você não manter aquilo que tem, isso daí é demais. Então, a gente vai manter, nós temos planos para a Getúlio, continuação da Getúlio, a rua das Festas até chegar na Unesp. Mas vamos aplicar nos bairros primeiro, onde mais precisa e está abandonado, onde tem pessoas que não se sentem pertencentes à cidade de Bauru.

JC – É uma estratégia interessante chegar no eleitorado que não tem asfalto e criticar quem tem luz nova na Getúlio, como a senhora faz em reuniões nos bairros, como no Núcleo Joaquim Guilherme. Mas isso não gera um perigoso confronto entre riscos e pobres em seu discurso?

Rosa – Não, não, eu acho que não. Acho que a gente não faz essa comparação para ter este atrito. É verdade, é o que está acontecendo. O jardim Ivone não tem um bico de luz, certo. Isso não é justo. Por que não pôs pelo menos alguns bicos de luz no Jardim Ivone, ao invés de iluminar mais outra parte. Não sou contra colocar luz ali (na Getúlio), mas não é justo. Tudo bem, quer colocar luz na Getúlio, tudo bem, gosto, ando pela Getúlio, meus filhos quando moravam aqui iam passear na Getúlio.

JC – Na conversa com os eleitores mais humildes, onde estão também os mais despolitizados, a senhora trata de problemas que o ex-prefeito tem com a Justiça, e diz “bloquearam minha casa, bloquearam todos os nossos bens”. Sem explicar, isso não pode gerar confronto com o Judiciário, o Ministério Público, uma questão movediça que também ocorreu com o Izzo?

Rosa – Não, não. Eu não tenho nada contra o Judiciário, mas o povo tem que saber a verdade, o povo tem que saber o que está acontecendo. Se diz por aí que tem muito, não, não tem. Tudo o que nós temos é declarado em Imposto de Renda e está tudo bloqueado, tudo.

JC – Mas a senhora está preocupada então que as pessoas tratem da questão do patrimônio?

Rosa – Não, não. É para saber a verdade, o que nós estamos passando. Eu não quero jogar nada contra ninguém não, eu tenho uma filha advogada, que tem intenção de fazer concurso para magistratura e nós sempre apoiamos ela para fazer isso. Até admiro a classe e não quero jogar ninguém contra ninguém não.

JC – No confronto político entre as candidaturas se expõem as diferenças entre si. No caso da senhora, ao ser alvo, o eleitor é advertido em relação aos problemas da gestão Izzo, tanto do ponto de vista de improbidade quanto do ponto de vista das questões criminais. Como pretende trabalhar com isso?

Rosa – Não, é esperado e a gente esperava isso que aconteceu ontem (sentença caso Coesa), a gente esperava isso. Mas a camada que a gente está indo, ela não vê isso daí. O Izzo fez muito por esta população, tratou esta população com respeito e valorizou essa população. É isso que eles vêem. Pode falar o que quiser, o Izzo foi preso, foi absolvido neste caso de ontem (Coesa – Lotes Urbanizados), ele foi absolvido totalmente. Então, a população não vê isso daí. Vê mesmo como uma perseguição.

JC – Mas a má gestão pública não é natural que seja discutida na campanha?

Rosa – Mas que má gestão pública?

JC – A senhora representa o grupo do ex-prefeito, que teve processos e condenações cíveis, criminais e por improbidade administrativa, superfaturamento, corrupção, por desvio de recursos.

Rosa – Desvio de recurso por quê?

JC – Por erros da gestão.

Rosa – Não. Ele pegou, ele ficou com o dinheiro, ou ele fez obras para a população? Ou ele foi absolvido a primeira vez em São Paulo, que estava tudo certo e ele foi condenado aqui em Bauru novamente, com o mesmo processo. Ai ele foi absolvido de novo, então ele foi absolvido duas vezes no mesmo processo.

JC – Qual é este caso?

Rosa – No caso em que ele foi preso, do acesso (Mary Dota), deste caso que saiu hoje (matéria JC sobre caso Coesa).

JC – No caso Coesa tem um processo criminal e um cível. No cível, a Justiça Federal o condenou a devolver R$ 5 milhões aqui.

Rosa – Então, mas se não existe crime, porque existe o cível? É a mesma coisa que você matar alguém e você ser acusado de matar alguém e você não fez, a pessoa está viva e você vai ter de pagar indenização para a família. É a mesma coisa.

JC – A questão judicial vai ser retratada pelos adversários na campanha, já está sendo?

Rosa – Tudo bem, vai ser usado, a gente sabia disso tudo, a gente sabia que isso ia sair e pra ser usado na campanha. A gente sabia disso.

JC – A senhora acha que a sentença da Justiça Federal contra o Izzo foi proposital?

Rosa – Não sei. Não, não sei, se foi proposital ou não, mas a gente sabia que iria acontecer isso.

JC – A eleição é o momento de discussão dos problemas da cidade e, mesmo separando a questão judicial, esta de responsabilidade do Judiciário, é um prato utilizado pelos adversários, assim como a senhora produz críticas aos outros?

Rosa – Tudo bem. A única coisa que eu vou falar para você e para os outros é que o Izzo não é candidato, quem sou candidata sou eu.

JC – Mas a senhora do ponto de vista político se apropria das realizações do Izzo e não quer ver discutidos os erros da gestão do marido na campanha?

Rosa – Olha, eu não vou esquentar a cabeça com isso. A população que a gente abrange, onde o Izzo fez benfeitoria, não se preocupa com isso. Eles têm o sentimento deles, eles sabem o que eles pensam.

JC - Uma das razões do passivo do Poder Público de hoje é produto de dívidas geradas nas gestões Izzo, Tidei e Nilson Costa, por falta de pagamentos de precatórios, empréstimos, acordos, previdência. Como a senhora vê as dívidas em relação à pouca capacidade de realização atual?

Rosa – Então, a gente está vendo mesmo por ai a gestão Izzo, gestão Nilson e a gestão Tidei. Bom, até o adversário nos protege. Como o Tidei mesmo disse estava no fim do pagamento dos Lotes Urbanizados. A questão da previdência não é do caso do Izzo, foi no governo Tidei isso, ele recolheu e não passou. Então, problema, dívida, sempre a prefeitura teve e não é agora que tem, sempre teve. Vamos levar, vamos acertar tudo isso e governar.

JC – Asfalto. A Lei Fiscal, além de outras legislações, impõem restrições ao uso dos recursos. Como fazer asfalto de graça mesmo com essas limitações?

Rosa – Vamos fazer, porque nós vamos fazer com o pessoal da prefeitura. Você fazendo com empreiteira você gasta muito mais. Eu fazendo com o pessoal da prefeitura, vou até economizar e sem cobrar da população. O valor fica bem menor. R$ 24,00 o metro quadrado a empreiteira que trabalha com o DER cobra. A gente pode fazer por R$ 8,00 o m2, um terço disso.

JC – O volume necessário de asfalto em rua de terra é adequado à capacidade que a prefeitura pode realizar de fato?

Rosa – É por isso. A gente está falando em R$ 1 milhão de metros quadrados de asfalto durante os quatro anos porque é isso que a prefeitura pode fazer. É isso que a prefeitura pode fazer, de asfalto novo. Mas isso fora recape e tapa-buraco. Porque a capacidade da prefeitura não dá para fazer mais do que isso. Daria para fazer 1.200 quarteirões. Bauru tem 3.500 quarteirões de asfalto para fazer. É um terço.

JC – Por que a senhora não tem programa específico para a mulher?

Rosa – Bauru, em tudo ela está bem caótica. A gente não pode pontuar só a mulher enquanto abandona a família. Eu como mãe, como esposa, acho o seguinte: primeiro dou prioridade à minha família. Depois que você deixou a sua família bem, no caso da Saúde por exemplo, você vê outras coisas. Poderia falar que já ia fazer um local para atender a mulher. Não, vamos atender a família primeiro. Depois nós vamos dar atenção, fazer um local para a mulher ser atendida.

JC – O que a senhora pensa sobre o Programa de Saúde da Família (PSF)?

Rosa – Aqui em Bauru são sete equipes e elas não funcionam porque elas não têm condições de trabalhar. Às vezes elas não têm condução, não têm material. Elas vão continuar funcionando, mas a gente vai descentralizar a Saúde, vamos fazer Pronto-Atendimentos (PA) com médicos ali. As pessoas vão poder ir até o Pronto-Atendimento para serem atendidas. Não ir tudo para o Pronto-Socorro Central. O médico de família seria para atender aqueles que realmente não podem ir até o PA, para atender em casa, dar mais atenção, ver as necessidades.

JC – A senhora não acredita no PSF como programa preventivo, de mapeamento, a longo prazo?

Rosa – Acredito nisso. A gente pretende realmente fazer uma junção, por exemplo, esses grupos que saem para ver a dengue, leishmaniose, ajudar na questão da saúde. Fazer um relatório das casas, quantas pessoas têm, a idade, se tem alguma pessoa doente que necessita de atenção.

JC – Há estrangulamento da demanda de especialidades na área de Saúde, sobretudo no atendimento do Estado. O que o prefeito pode fazer na regulação do sistema?

Rosa – O dinheiro da Saúde vem de três partes, o federal, estadual e municipal. Cada um tem de aplicar um tanto. Agora o que está acontecendo em Bauru é que a prefeitura está assumindo quase tudo. Invés da gente gastar 15% na Saúde, está gastando 23, 24%. Porque está acontecendo isso? O que nos informaram de gente que está dentro é que não está sendo informado os programas de saúde ao Ministério de Saúde, à Secretaria de Estado. Então o dinheiro não está vindo. Pretendo enfrentar esse problema, Bauru está atendendo toda à região em todas as áreas, tanto no remédio, no atendimento, nos exames que estão sendo feitos. E cada cidade tem uma cota para ser feita. Se a nossa cota for usada para toda a região, Bauru fica sem hospital. Vamos conversar com o Hospital Estadual.

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