Um grupo de mototaxistas cercou o plantão da Polícia Civil, localizado na Praça Dom Pedro II, por volta das 22h de anteontem cobrando que um suspeito de ter roubado e esfaqueado um colega deles no último sábado, detido pela Polícia Militar (PM), fosse autuado em flagrante. Com os ânimos exaltados, eles ameaçaram linchar o rapaz caso ele fosse liberado, no primeiro momento de tensão durante a greve dos policiais civis de Bauru que hoje chega ao 10.º dia.
O suspeito, que até então estava na viatura da PM, entrou correndo no plantão em busca de segurança numa ocorrência com versões conflitantes. Uma delas aponta desentendimento de procedimentos entre as polícias Civil e Militar (leia mais no texto abaixo). Com a ameaça de os mototaxistas invadirem o plantão para fazer justiça com as próprias mãos, a Polícia Civil precisou efetuar disparo antimotim. Ninguém se feriu, mas os manifestantes só deixaram o plantão ontem cedo, após fazer buzinaço na avenida Rodrigues Alves.
Acelerando as motos e buzinando, eles seguiram pela avenida, parando de semáforo em semáforo e impedindo a passagem dos veículos. A manifestação causou transtornos para quem passava na região por volta das 9h30. Acompanhados pela PM, alguns teriam sido multados por empinar suas motos. Logo após o protesto eles retornaram à delegacia, onde permaneceram, esperando a definição do caso.
Logo pela manhã, policiais da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) foram acionados para apurar se o suspeito, Fernando Silvério Alves, 31 anos, realmente era o autor do roubo e tentativa de homicídio do mototaxista Héverton Caetano da Silva no sábado à noite, como afirmavam os colegas da vítima. “Numa força-tarefa, fizemos diligências para que as vítimas o reconhecessem”, conta o delegado Carlos Mariotto, que estava de plantão ontem.
O mototaxista ferido, que teve alta médica ontem, acabou não reconhecendo Alves como seu agressor – os policiais apresentaram a ele fotos de Alves e de outros rapazes fichados. Porém, durante as diligências, os policiais civis localizaram o frentista Rafael Rodrigues de Souza, que reconheceu Alves como o rapaz que lhe roubou R$ 200,00 no último dia 7 à noite, quando ele caminhava pelo Centro. “Diante do reconhecimento, solicitamos a prisão temporária do rapaz, que foi concedida. Agora, com ele preso, será apurado se participou de outros roubos”, completa Mariotto.
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Versões conflitantes
Um detalhe da ocorrência em que os mototaxistas cobravam da Polícia Civil a prisão de Fernando Silvério Alves, 31 anos, chamou a atenção pelas versões conflitantes. Após o rapaz ter se refugiado no plantão policial com medo de ser linchado pelos manifestantes, um policial civil relatou no boletim de ocorrência 14.471, ao qual o JC teve conhecimento, que ele fora deixado no local pela Polícia Militar, em meio à multidão.
O policial civil relatou que a equipe da PM que deteve Alves, ao chegar no plantão policial e saber que teria de esperar o registro de outras três ocorrências para apresentá-lo ao delegado, deixou o rapaz e foi embora, num desentendimento de procedimentos entre as duas instituições. Por conta da greve dos policiais civis, policiais militares chegam a esperar até nove horas para registrar flagrantes.
A PM nega. Segundo o major Nélson Garcia Filho, comandante interino do 4.º Batalhão, Alves saiu correndo da viatura e entrou no plantão policial porque se sentiu ameaçado ao perceber que os mototaxistas cercavam o veículo. Ele não soube informar se os policiais que apresentavam a ocorrência permaneceram no plantão após Alves ter entrado no prédio.
Porém, afirmou que o fato será averiguado porque os policiais precisam apresentar a ocorrência ao delegado. Já o mototaxista Ricardo Alexandre, um dos que participaram do movimento, tem outra versão. Ele disse que Alves se refugiou no plantão policial após ser liberado pelo próprio delegado, que teria explicado que não poderia mantê-lo preso por não ser flagrante.
Já a Polícia Civil, no boletim de ocorrência registrado no final da tarde de ontem, afirma que a equipe da PM que deteve Alves foi orientada a esperar o registro das três ocorrências de flagrante, com três presos, que chegaram ao plantão policial anteriormente. O delegado Carlos Mariotto afirmou que não tem conhecimento de como Alves saiu da viatura.