Tribuna do Leitor

Bocas grampeadas


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Fisgar criminosos pela boca - literalmente - está sendo utilizado como único recurso da polícia contra os corruptos. Surgiu então um alvoroço geral tanto no cenário político quanto fora dele, que expõe o medo de viver sob o controle de ignotos ouvidos que sabe-se lá possuem autorização para tal. Apesar de sua eficiência, os grampos podem ser utilizados a favor dos grampeados, partindo do princípio de que palavras certas no certo local incriminam terceiros e despistam a polícia, o que fragiliza o tão difundido método. Além disso, os produtos das arapongas - que nem sempre estão nas mãos de pessoas da lei - podem gerar uma rede ainda maior de corrupção, tal qual uma teia complexa de ameaças sujeiras e chantagens. A difusão das escutas transformaria a vida em uma encenação teatral: tal qual atores, nossas palavras seriam previamente estruturadas e com cautela proferidas, para evitar más interpretações pelos espectadores, que, atentos, teriam seus ouvidos apurados ao menor ruído de qualquer palavra. Teríamos nossa vida escancarada para todos e nos encheríamos de paranóias e complexos. Como admiráveis gados novos, viveríamos uma vida artificial e padronizada. Sem uma estrutura planejada e legislação específica, o ato de “grampear” transforma o indivíduo em alguém que não fala o que quer, para não ser ouvido por quem não quer. E aí, até quem deve vai temer.

Carolina Dionísio - estudante - RG 46.759.823-X

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