Articulistas

Avanço do crime organizado


| Tempo de leitura: 3 min

Ele ocupa uma cela no coração da Ilha das Cobras, dentro do comando geral do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro, enquanto ela amarga uma solitária de seis metros quadrados em Catanduvas, interior do Paraná, onde não há contato físico nem com carcereiros. Mesmo assim, Edson da Silva Mota, o Mota da Coopasa, e Carmem Guinâncio Guimarães, a Carminha Jerominho, não saíram das ruas. Candidatos a vereador de São Gonçalo e Rio de Janeiro, respectivamente, eles comandam das prisões campanhas que mobilizam dezenas de aliados e cabos eleitorais, na busca do voto dos eleitores, e desafiam as autoridades ao se apresentar como mártires e vítimas de perseguições políticas.

Apontado como chefão da máfia de transportes alternativos em São Gonçalo e vizinhanças, o vereador e sargento reformado da Marinha Edson da Silva Mota (PSL) está preso em regime fechado desde 13 de agosto, acusado de ordenar o assassinato do presidente da cooperativa Santa Isabel, Luiz Cláudio Moreira, em 2006.

De uma cela do presídio, o candidato mobiliza a estrutura do transporte alternativo no município para se reeleger. São cerca de mil motoristas de Kombis e vans autônomos, que exploram linhas municipais e intermunicipais na cidade, responsáveis por distribuir propaganda do parlamentar em pelo menos 30 pontos onde a categoria atua. Acusada de chefiar um esquema de coação a eleitores em Campo Grande, imposto pela milícia, Carminha Jerominho (PT doB) está no presídio federal de segurança máxima de Catanduvas. Mesmo submetida a Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), deu um jeito de demonstrar ousadia. Recentemente, em frente ao prédio onde trabalha uma das autoridades responsáveis por sua prisão, seus cabos eleitorais distribuíam um “recado” da candidata: “Primeiro prenderam o meu pai, o vereador Jerominho. E, em seguida, o meu tio, o deputado Natalino, acusados de combater o tráfico. Agora, me prenderam para que eu não possa prosseguir fazendo campanha(...)”. Ela finaliza o aviso: “conto com seu voto, pois, mesmo presa, continuo candidata”.

A informação de Cássio Bruno e Chico Otavio, repórteres do jornal O Globo, é espantosa. Mas se você, caro leitor, imagina que sua capacidade de indignação já ultrapassou todos os limites, pode tirar o cavalo da chuva. O Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou o recurso da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) pela impugnação da candidatura dos fichas-sujas. Pela decisão, ninguém pode ser impedido de disputar eleições enquanto o processo a que responde não tiver sido julgado em última instância. Resumo da ópera: os bandidos podem disputar as eleições e, caso eleitos (o que certamente ocorrerá), receberão o manto protetor da imunidade. Como você, caro leitor, respeito o Poder Judiciário. Trata-se de um dos pilares da democracia. Mas decisão do STF, embora involuntariamente, contribuirá, e muito, para o avanço do crime organizado. Cria-se, na prática, um abismo entre legalidade moralidade. Como já escrevi neste espaço opinativo, esperar o trânsito em julgado pode transformar candidaturas em simples estratégias de obtenção de foro privilegiado. Abre uma avenida para a impunidade e frustra a maioria trabalhadora e honrada do nosso país. Impõe-se, urgentemente, a mudança na legislação. Com uma primeira condenação judicial, o farol amarelo já justificaria a impugnação da candidatura. É o mínimo que se espera do Congresso. O combate ao crime organizado exige, por óbvio, urgentes ações repressivas e preventivas. Mas reclama, sobretudo, uma profunda reavaliação das atitudes e comportamentos éticos que norteiam a vida pública nacional. A falência da verdade é a principal causa da decadência de qualquer sociedade. E, em contrapartida, reerguer uma sociedade é reerguê-la primeiro eticamente, fazendo reinar nela o que há de mais essencial: o primado da verdade. A imprensa, no cumprimento de sua missão de informar, não frustrará a expectativa de milhões de brasileiros. A conseqüência do crime deve ser a punição cabal e completa. Só assim, o cruel cinismo do crime organizado será derrubado.

O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia E-mail: difranco@iics.org.br

Comentários

Comentários