Tribuna do Leitor

Ferrovia & Saudade


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Recebemos, com profundo pesar, a notícia intitulada “Mozarta,Telegrafista Centenária, Partiu para a Eternidade”, (edição 148 do Sorocabano), em que o autor, Dirceu de Campos, inclusive faz brilhante relato da extraordinária vida da sra. Mozarta da Silva Castro, no tocante às suas atividades ferroviárias na região da gloriosa Sorocabana, realizadas do ano de 1922 a 1953. Bastante lúcida, pouco antes de completar 104 anos quando a conhecemos, ao se referir sobre seu árduo e profícuo trabalho ferroviário mencionou, com certo orgulho e indisfarçável emoção, tratar-se “...de época de intensa circulação da nostálgica locomotiva a vapor, com boa parte de licenciamento de tráfego ainda executado por via telegráfica...” Segundo o professor Dirceu, dona Mozarta partiu para a eternidade em 24 de março de 2008: exatamente no Dia do Telegrafista!

O tempo passou, chegam as festas juninas (as que dona Mozarca tanto adorava) ; o primeiro São João sem a presença física da admirável “guerreira”. Havia no ar densa nostalgia; balões bojudos e multicores subiam ao céu, indecisos, e afogavam-se nas brumas; foguetes riscavam o ar procurando ninguém sabia o que; desenhando caminhos: ninguém sabia para quem; busca-pés corriam pelo chão atrás talvez de perdidos sonhos; lábios escarlates desfolhavam sorrisos; olhares tinham brilho de astros e umidade de prantos.

Evolavam-se afetuosas lembranças; dos arcanos da mente os pensares cativos se escapavam; dos corações as paixões fugiam, e andavam às soltas pela noite silente subvertendo as sombras. E ao apagar-se a fogueira ressurgiram-se, das cinzas do passado, a “nostálgica locomotiva de tração a vapor”, com aquela fumaça branca: envolvendo a noite num acentuado cheiro de saudade.

Wanderley Brosco

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