O pacote de US$ 700 bilhões proposto ao Congresso dos Estados Unidos pelo Departamento do Tesouro e Banco Central é um início de solução para o tumulto que domina os mercados financeiros. Da sua aprovação vai depender a retomada da confiança, que é a condição primeira para que o sistema volte a funcionar. Porque esta não é uma crise econômica, é uma crise de mercado em que o elemento fundamental é a confiança mútua entre as pessoas. Quando ela é quebrada, o mercado deixa de funcionar, perde suas funções vitais.
A paralisia do mercado tem conseqüências na economia real com a queda dos investimentos, redução do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e eliminação de empregos. É isso que justifica a dramática interferência do governo americano: depois de tentar apagar os focos de incêndio localizados sem conseguir dominar a fogueira, decidiu enfrentar a crise da única forma que ela pode ser enfrentada, devolvendo a confiança ao mercado. O socorro tem um custo altíssimo, mas o governo sabe que se permitir que o processo se alastre na área financeira, terá em breve uma crise de proporções gigantescas na economia real.
Restabelecer a confiança é, então, condição necessária, embora não suficiente, para que o mercado volte a funcionar adequadamente. A questão é saber como conseguir retirar do circuito a montanha de títulos que não têm liquidez, aqueles papéis que não tenham colaterais sólidos. Esta operação não pode ser restrita aos Estados Unidos, ela deverá atender pelo menos a Eurolândia, o Canadá e o Japão, e tem que ser feita em prazo relativamente curto. É preciso limpar o mercado desses papéis para que se restabeleça a confiança e os agentes voltem a operar em ambiente menos conturbado em todo o mundo.
Os governos desses países estão diante do problema de convencer os seus contribuintes que os custos do programa são menores do que se deixassem acontecer uma recessão no setor real, porque o estrago levaria anos para ser corrigido: produziria uma redução do bem-estar da população e a tragédia do desemprego. Daí, não sendo a solução ideal, é a melhor possível.
Há ainda vários complicadores nessa passagem pelo Congresso dos Estados Unidos. Os legisladores desejam influir para minimizar os prejuízos dos mutuários, uma questão política da maior relevância nesta antevéspera de eleição presidencial. Uma discussão muito acesa é em torno da punição dos operadores de mercado que claramente traíram a confiança dos aplicadores. Outra grande questão é saber como estabelecer as condições de reprecificação dos ativos que terão que ser adquiridos pela agência a ser criada neste processo. Hoje os papéis valem zero, mas com o tempo, na medida em que o mercado voltar a funcionar, podem recuperar uma parte de seu valor e atrair o interesse dos agentes financeiros e dos bancos quando forem ofertados pela agência.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br