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Muito além do jardim


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O repórter perguntou ao presidente Lula sobre a crise econômica mundial. “Perguntem ao Bush, porque a crise é dele e não minha”. Pronto, foi o que bastou para o ex-metalúrgico inspirar a manchete dos mais importantes jornais do mundo (Crisis? Ask Bush). Em Nova York, no seu discurso na ONU, Lula decretou o fim do neoliberalismo, ou seja, da capacidade auto-reguladora do mercado, o que lhe valeu destaque no Financial Times, The Economist, NY Times e outras bíblias do pensamento econômico. “O mundo precisa de novos mecanismos de controle financeiro e de prevenção de crises” – sentenciou. Mais uma vez Europa, França e Bahia curvaram-se diante do estadista capaz de dar lições nesses “palpiteiros” que passaram a vida toda dizendo o que o Brasil deveria fazer e esqueceram-se de cuidar das próprias mazelas.

Lembra o personagem do filme “Muito além do jardim” (1979), vivido por Peter Sellers. O enredo é uma parábola sobre os mistérios da condição humana. Trata-se da história de um jardineiro que passa a vida inteira cuidando da residência de um homem rico, em Washington. Um dia o patrão morre e ele é despedido. Vê-se no olho da rua com uma roupa do finado e um guarda-chuva. Conhece um magnata que quase o atropela e o confunde com um cavalheiro, por causa do traje elegante. O jardineiro só sabe falar de jardim e de alguma coisa que viu na televisão. Tudo o que diz é interpretado por significados ocultos, onde não há nenhum. Ele nem sabe o que é metáfora. “Outono, inverno. Depois primavera, verão”. O jardineiro está falando, é claro, do jardim, quando é apresentado ao presidente norte-americano. O Bush da época acredita que está diante de um oráculo com uma metáfora de esperança para a nação.

O filme é uma crítica corrosiva ao confuso discurso da cultura anglo-saxônica que adora fazer comparações, alusões e metáforas. Por isso não me surpreendi com as repercussões da fala do nosso presidente na imprensa norte-americana e britânica. Tem muita semelhança com o vaticínio de Ágaton, poeta grego citado por Aristóteles na Poética - “É muito provável que o improvável aconteça”. Lula esquece que o Brasil não é uma ilha de prosperidade. A nossa dívida pública chega a 1 trilhão e 300 bilhões de reais. Os 200 bilhões de dólares de reservas cambiais vão num sopro numa crise de liquidez. Basta os bancos credores decidirem acabar com a brincadeira da eterna rolagem.

O capitalismo substituiu as práticas feudais e mercantilistas decadentes no século 18, em meio ao grande otimismo presente nas obras fundadoras da ciência econômica, principalmente em “A riqueza das nações”, de Adam Smith, escrita em 1776. Teoria e prática pareciam caminhar de mãos dadas, até que o crash de 1929 colocou em xeque a validade da lei da oferta e da procura como exclusivo regulador do equilíbrio e da prosperidade. Em 1936, em sua revolucionária “Teoria geral do emprego, do juro e da moeda”, John Maynard Keynes se encarregou de incluir novos ingredientes ao pensamento econômico. Muito parecidos com os de Lula. O governo precisa proteger a economia de distorções e quedas capazes de desorganizá-la e de inviabilizá-la. À época já não se acreditava mais na possibilidade auto-reguladora do mercado, e muito menos na sua capacidade de acabar com a pobreza.

O problema todo é gerado pela ambição humana, que o Estado é incapaz de conter. Especialistas das mesas operadoras de crédito e executivos de bancos estão dispostos a quaisquer riscos para ganhar os bônus milionários pela quantidade de negócios. No Brasil também não é diferente: crédito fácil, empréstimos consignados, cheques especiais a 166,4% de juros ao ano, vendas a prazos absurdos de 90 meses para compra do carro. O resultado é a corrida ao consumo provocado pelas facilidades de crédito. De repente vem o tsunami da inadimplência. As taxas interbancárias sobem tanto no mundo que sequer os próprios bancos querem emprestar para eles mesmos. Já tivemos no Brasil o exemplo do BNH. Ninguém conseguia pagar os juros somados às correções das prestações. Hoje esses créditos podres do subprime tupiniquim estão todos numa conta especial do Tesouro. O governo Bush quer fazer o mesmo, isto é, pendurar na conta da viúva.

Lula poderia usar, com mais propriedade, a frase de outro petista histórico, o saudoso Carlito Maia que dizia na crise de 1997: “Eles que são bancos que se entendam”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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