Você sofre um grave acidente e, de repente, vê do alto o próprio corpo recebendo socorro. Depois caminha em direção a um túnel colorido, que o leva em direção a entidades luminosas e a entes queridos que já faleceram. O relato pode parecer aterrorizante para uns e um grande absurdo para outros tantos.
Investigada há décadas, a experiência de quase-morte (EQM) instiga a curiosidade de cientistas, religiosos e pessoas comuns porque ainda não pode ser explicada. Mas um estudo envolvendo 25 hospitais da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, iniciado recentemente, pretende ser o maior já realizado a respeito do assunto.
Os especialistas irão examinar 1,5 mil casos de quase-morte em pacientes com parada cardiorrespiratória e verificar se essas pessoas podem se ver fora do próprio corpo. O estudo, intitulado “Aware” (sigla inglesa para “consciência durante ressuscitação”), está previsto para durar três anos e será coordenado pela Universidade de Southampton, na Grã-Bretanha.
Para realizar os testes, os pesquisadores irão instalar prateleiras especiais em áreas de atendimento de emergência de hospitais. Elas deverão conter fotografias estrategicamente posicionadas, que só podem ser vistas por quem estiver a uma altura próxima ao teto. A intenção dos médicos é descobrir se os sobreviventes se lembrarão das imagens.
Para Málu Balona, professora e pesquisadora do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC), sediado em Foz do Iguaçu (PR), se o estudo conseguir demonstrar que a consciência pode se manifestar depois que o cérebro “desliga”, é sinal de que ela sobrevive à morte biológica. Com isso, poderemos estar mais próximos de saber o que todos nós experimentaremos momentos antes da nossa morte.
“Esse fenômeno não é uma experiência meramente cerebral, uma vez que o perfil de pessoas que passam pela EQM é extremamente variado: há relatos de crianças, idosos, religiosos, agnósticos e até ateus que viveram esse momento”, aponta Balona.
Também denominada de “near-death experience” (NDE), a EQM é mais registrada entre pacientes terminais, sobreviventes de paradas cardiorespiratórias e em pessoas que sofreram algum acidente crítico com risco de morte, como choques anafiláticos, afogamentos, traumatismos e intoxicações.
Na maior parte dos casos, pacientes que apresentaram morte clínica e voltaram a viver relataram a mesma situação: a consciência é projetada para fora do corpo físico, muitas vezes o paciente pode flutuar e observar a si mesmo no local do acidente ou em um hospital.
Balona explica que a experiência fora do corpo (EFC) é uma das manifestações da EQM e pode ocorrer até mesmo durante o sono. “Essas experiências naturais, que chamamos de benignas, são as mais estudadas até hoje. Com esse novo estudo, esperamos obter mais respostas para o fenômeno das EQMs como um todo”, salienta.
De acordo com a pesquisadora, entre outras manifestações características das EQMs está a recapitulação de fatos importantes para o paciente, como se ele assistisse a um filme da própria vida, e também encontros com parentes e amigos que já faleceram. “Alguns dizem encontrar seres de luz, com quem conversam para decidir se devem voltar à vida ou não”, complementa.
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História
A experiência de quase-morte (EQM), ou near-death experience (NDE), é natural e está presente desde o início dos tempos, em todas as civilizações, aponta a professora e pesquisadora Málu Balona, do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC).
“Na Grécia, por exemplo, o fenômeno é relatado à população, no Egito é retratado nos livros e contos. O fato de a alma ou da consciência deixar o corpo é tão antigo quanto nossa presença do mundo”, diz ela, que em 1996 lançou o livro “O significado das EQMs”.
Apesar disso, ressalta Balona, as primeiras publicações sobre o tema começaram na década de 70. Em 1975, o psiquiatra americano Raymon Mood Jr. ouviu relatos de 150 pacientes que apresentavam todos os sintomas de morte clínica e, por algum motivo, voltaram a viver.
A maioria deles contou que viu a consciência se desprender do corpo físico e flutuar sobre a matéria. Os testes foram reunidos no livro “Life after life” (“Vida após a morte”), obra que inspirou outros estudos sobre a EQM.
Anos depois, a médica Elizabeth Kubler-Ross, radicada nos Estados Unidos, tornou-se especialista em EQM e fundou uma instituição com o seu nome, que atende doentes terminais e seus familiares.