Eumir Deodato baixou em Pernambuco, onde tocou pela primeira vez, depois de passar por Riga, na Latvia (“Um paisinho entre Estônia e Lituânia, onde estão as mulheres mais bonitas do mundo. Eu confirmei isso. Achei umas feias, mas comprei passagem de avião para elas”) e por Baku, no Azerbaijão (onde descobriu o túmulo de famoso personagem de sua música, Zaratustra, ou Zoroastro). Depois de muito tempo apenas como um mago dos estúdios, aos 65 anos voltou com tudo à carreira de instrumentista, e seu show é superfunky, ultra-suingado, cheio de groove.
“Resolvi, de uns 5, 6 anos para cá, aceitar convites para tocar. Geralmente, o maior trabalho que eu tinha era ir ao banco depositar os meus cheques”, ele diz. Segundo Eumir, o sucesso de arranjos como o das músicas “Celebration” e “Too hot”, do Kool and the Gang, ainda rende um bocado.
Mas o germe do performer venceu, e ele está de novo no palco. O responsável por dar um empurrão no Eumir tecladista foi Charlie Carlini, diretor das casas Blue Note de Nova York e de outros países do planeta. “Ele implorou para que eu tocasse na Blue Note de Bolonha”, conta o músico. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Pergunta - Uma vez, Miles Davis se apoderou de umas composições do Hermeto Pascoal, como “Igrejinha”, e só foi dar o crédito na Justiça. Isso aconteceu muito nos Estados Unidos?
Eumir Deodato - Muito. Eu evitei um problema desse. Foi com a música do Toninho Horta, “Beijo Partido”, que foi gravada pelo Earth, Wind & Fire num disco para o qual eu fiz arranjos. Deram outro título no disco (“Brazilian rhyme”), e eles não queriam dizer que a música era do Toninho Horta. Não era a música toda, era só a harmonia que eles usaram, e eles me disseram: “Mas ninguém sabe que é dele.” E eu respondi: “Ninguém sabe, mas eu sei. O Maurice White me falou.” Eles não queriam. E como esse disco vendeu milhões e milhões... Era o “All’n All” (1999), aquele que tem a pirâmide egípcia na capa. No fim deram (o crédito), mas deram errado. Tinha uma música do Milton Nascimento no disco (“Ponta de Areia”), então deram que era também do Milton. Deu mais confusão ainda.
Pergunta - Então essas parcerias têm dois lados?
Deodato - Lógico que tem. O Stan Getz era um cara conhecido, meio apagadinho, e subiu no cavalo da bossa nova e começou a galopar. E deu certo. Aí, começou a trabalhar com a Astrud, com o João. E o Stan Getz começou logo a dar em cima da Astrud, era um malucão, não é?
Pergunta - Mas eles tiveram um caso?
Deodato - Não sei se pode chamar de caso. O que entendi é que ele tentou forçar alguma coisa com ela.
Pergunta - Mas de qualquer modo eles se separaram, dizem que por conta disso.
Deodato - Eu sei lá.
Pergunta - Tem notícias da Astrud?
Deodato - Sei que ela está vivendo na Filadélfia com o filho, Anthony, que teve com o outro marido, o Mick Lasorsa. Foi o segundo marido da Astrud, do qual ela também se separou. Astrud sempre teve muito problema para cantar, ficava muito nervosa. Trabalhei muito com ela, foi uma das pessoas que mais me ajudaram nos Estados Unidos. Os outros foram Luiz Bonfá e Tom Jobim, meus três melhores amigos lá.
Pergunta - E o Moacir Santos? O senhor teve contato com ele?
Deodato - Cheguei a vê-lo quando ele ainda estava em Nova York. Quando foi para Los Angeles, nunca mais tive contato. Não sei se estabeleceu. Tem muita gente que nasceu nos Estados Unidos e nunca se estabeleceu. Eu achei que ele devia ter ficado em Nova York, eu o aconselhei. Mas tem muita gente que, quando dá aquele ventinho de novembro, todos vão para a Califórnia. Para ir ao churrasco do Sérgio Mendes. Porque a vida na Califórnia é assim, não é? Você acorda às 3 horas da tarde, vai na piscininha, toma um banhozinho. É fácil, toda casa tem. Sai, seca, senta ao telefone, mas aí já passou das 5 horas, não tem mais ninguém no escritório. Então, vai tentar descobrir onde é que é a feijoada hoje. Muita gente foi assim. Tiveram de voltar, porque o dinheiro acaba. A não ser que seja gente rica. Hábitos de trabalho e filosofia de vida. É isso que pode fazer vingar um músico nos Estados Unidos. Apareceu uma oportunidade de eu sair do Brasil e eu saí.
Pergunta - Quem tem vindo aqui é Dom Salvador. A vida dele não foi muito fácil nos Estados Unidos, foi?
Deodato - Ele toca num clube, acho que perto da Ponte do Brooklyn. Um grande músico. E simpaticíssimo. Conheci ele aqui. Fazia coisas com Luís Fernando Freire. Até outro dia estava com ele numa festa, ele me apresentou a filha, a esposa. A questão não é só tocar bem ou não. Tem de ser muito disciplinado, muito organizado. O pessoal está competindo. Quando você não é organizado, tem 20 caras ali. Lá a sobrevivência é muito difícil É um campo agora muito machucado, por causa da queda da indústria musical. Não é que esteja ruim: acabou. Ninguém entendeu ainda. Para reexistir, vai ter de começar do zero e de outra maneira. Estive ontem com o chefão da EMI e a gente estava discutindo processos de como reativar a coisa. Continuamos a conversar. A partir do MySpace, como eu te disse. Tenho vários amigos na EMI. Conversamos sobre possibilidades, o que pode ser feito. Existe ainda a palavra disco? Tem o mesmo significado que antes? Não. Ninguém faz mais, grava direto no computador e põe na Internet. Tem muita gente que vem me trazer um disco. “Posso te dar o meu disco?” Eu pego, o que fazer?
Pergunta - Como o senhor vê essa nova situação tecnológica?
Deodato - Em Milão, toquei com um conjunto de sete músicos. Depois do show, vi que não só um, mas muitos pais vinham com o disco, e os filhos vinham com o CD. Aí eu olhava e perguntava: “Mas isso é meu?” Quase tudo é pirata. O menino dizia: “Meu pai me mostrou sua música e eu comprei esse. Eu adoro sua música.” O que me mostrou várias coisas. Por exemplo: que não precisa ficar fazendo disco. Muito pelo contrário. Eu não consigo imaginar como é que vou tocar um show sem essas minhas músicas (“Assim falava Zaratustra”, “One note samba”, “Wave”, “Dindi”, “Whistlebump”, “Super strut”, “Do it again”). Você faz um disco novo, e a maioria não o conhece, nem vai conhecer, porque não tem distribuição musical, a indústria do disco está morta. Outra vez. Há 20 anos eu já falava isso. E agora morreu de vez. Até encontrar outro caminho. As gravadoras sempre me pedem para fazer um disco, mas eu acho besteira fazer disco. Então meus discos são todos piratas, ou cópias, ou relançamentos ou compilações. A maioria, compilações piratas. No Brasil mesmo tem várias. Felizmente estou conseguindo reorganizar tudo isso. Tomei as rédeas, por exemplo, dos discos dos Catedráticos, conjunto que tive nos anos 60, um conjunto de estúdio. E eu acabei de licenciar. Por pouco que seja, já é alguma coisa. Aconteceu com uma companhia que se chama Atração. Refizeram todas as capas, ficou bonito. Isso aí pelo menos eu agora tenho controle.
Pergunta - O que pensa da comercialização de música pela Internet?
Deodato - Outro dia fui no iTunes e fiquei pasmo, tinha páginas com minhas músicas. Coisa que nem sei o que é. Aí vou escutar e ah! Eles botaram coisas que nem são minhas como artista, são de outros, eu fiz apenas a produção, ou botei arranjos, ou toquei. O problema dessas lojas virtuais é que quem ganha dinheiro são as companhias de cartões de crédito, os que estão vendendo. Não é o artista. Mas na Internet tem coisas muito interessantes. O MySpace, por exemplo. Lancei minha página outro dia e já tenho lá 100 mil visitas. Amigos à beça. E eu me comunico. Não sei simplesmente botar no automático. As pessoas gostam disso. Tem gente aqui em Olinda que vai ao concerto, ao workshop. Como é que essa gente ia saber de mim? Eles sabem pelo MySpace.
Pergunta - Isso afeta o seu trabalho como produtor? Como arranjador?
Deodato - Que trabalho como produtor? Não tem mais trabalho. Só se eu estiver enganando alguém. “Ô, eu faço arranjo para o seu disco!” Só se eu estiver mentindo. Selo não existe mais, só se for selo postal. Só o selo de lamber (risos). Mas tem gente que é safa, né? Aqui mesmo, o Menescal é um deles. Começou esse selo dele há anos e anos e foi acumulando um acervo. Isso aí vale muito dinheiro. A gente esqueceu um país que ainda faz isso seriamente que é o Japão. Eles gostam de colecionar, de comprar. Esses acervos assim, tipo o que o Menescal fez com o Albatroz, isso aí vale muito dinheiro. Mas ele é muito safo, sempre foi. Enquanto todo mundo fica pensando que ele está andando de barquinho, está lá no escritório dando telefonemas.
Pergunta - Qual é sua opinião sobre a comemoração dos 50 anos da bossa nova?
Deodato - A bossa nova é só um gancho. Não sei se é 51, ou 49 e meio, ou 53 anos. A partir de quando existiu bossa nova? Do disco de João Gilberto? Começa ali? Johnny Alf era bossa nova? Porque ele já fazia coisas, não?
Pergunta - Quais foram seus projetos mais recentes como arranjador?
Deodato - Quase tive um projeto com discos de Chet Baker. O Bruce Lundvall, cabeça da Blue Note, me mandou uma pilha de discos de Chet Baker, eu selecionei os que tinham possibilidades de eu fazer arranjos de cordas, um grupo de cordas pequeno. Porque naquela época que ele gravou não havia muita preocupação com afinação, com precisão de tempo. É um projeto difícil, eu teria de fazer os arranjos de acordo com a afinação daquele momento. Tinha muita coisa gravada ao vivo. Seria muito especial, mas aí, depois de tudo aprovado, tinha de ter a assinatura da viúva, que não aprovou. Não quer mexer no acervo de maneira nenhuma. Isso foi há um ano e meio.
Pergunta - O senhor acha que a batida da bossa teve influência direta de gente como Chet Baker?
Deodato - Ah, isso aí tem muita gente. Posso dizer, até mesmo, de onde vêm aqueles acordes que o João Gilberto faz. Do Barney Kessel, um disco que mais marcou aqui no Brasil, no tempo em que a Musidisc começou a lançar disco estrangeiro foi o disco do Barney Kessel com a Julie London. Se você escutar, vai saber exatamente de onde veio. Ih, olha aqui! Ninguém sabe disso. Mas eu escutava os dois. Barney Kessel fazendo os acordes, aquele tipo de harmonização, e a partir daí teve muita gente que foi nessa, e às vezes nem sabem de onde vem.
* O repórter viajou a convite da Petrobras e da organização da Mostra Internacional de Música de Olinda (Mimo).