Cultura

Jornalismo fez campanha pela abolição


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Em geral, a abolição da escravatura no Brasil é tida como produto de um movimento social. Mas, acima de tudo, foi resultado da ação de homens de imprensa. “Foi o primeiro grande movimento social, na história desse país,  em que a imprensa se engajou, contribuindo para acelerar o processo de mudanças”, afirma Humberto Fernandes Machado, professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.

Foram infindáveis três séculos sob os grilhões da escravatura. Consolidado no Brasil colônia, o modelo de exploração da mão-de-obra escrava começava a se constituir como um obstáculo às idéias de progresso e civilização que circulavam pelo país na década de 1880. Para romper com o paradigma atrasado e conservador que caracterizava a escravidão brasileira, articulava-se nos centros urbanos um movimento abolicionista, resultado de uma vasta mobilização popular que abarcava intelectuais, entidades antiescravistas, parlamentares e grupos sociais que não dependiam diretamente do serviço escravo.

À época, a imprensa foi utilizada como um meio eficaz para a propagação de idéias abolicionistas, sobretudo, pelo dinamismo com que as notícias circulavam entre a opinião pública. De acordo com Machado, o discurso dos jornais tinha as elites como público-alvo e buscava denunciar a violência da escravidão e o tratamento que os senhores dispensavam aos escravos. A concessão de alforrias era negada sistematicamente, enquanto focos de resistência geravam fugas e assassinatos de senhores e feitores.

“Os jornais tornaram-se verdadeiras fábricas de notícias e informações para uma sociedade que estava iniciando um processo de mudanças”, afirma Machado. Entretanto, como contraponto a esse discurso, havia também a preocupação dos abolicionistas em evitar que o movimento trouxesse convulsão social e violência. O objetivo era induzir mudanças, sem convergir para uma ruptura traumática do processo.

O Rio de Janeiro, por ser um dos principais centros urbanos da época, tornou-se um dos berços da campanha abolicionista, território de figuras importantes do movimento como José do Patrocínio e Joaquim Nabuco. Patrocínio era proprietário dos jornais Gazeta de Notícias, Gazeta da Tarde e Cidade do Rio. Os dois participaram da criação de duas grandes entidades abolicionistas daquele período, a Sociedade Brasileira contra a Escravidão e a Confederação Abolicionista do Rio de Janeiro. Elas eram responsáveis, em conjunto com outros segmentos sociais, por promover grandes eventos na cidade como leilões, festividades e espetáculos como forma de atrair mais simpatizantes ao movimento e angariar recursos destinados à alforria dos escravos.

Em 13 de maio de 1988, o governo imperial cedeu às manifestações libertárias e, por meio da assinatura da Princesa Isabel, a Lei Áurea eliminou o escravismo no Brasil. Nos anos subseqüentes, houve a necessidade de se ampliar o campo das reformas conquistadas, de maneira que fosse assegurada aos ex-escravos a devida inserção na sociedade. Segundo Machado, a preocupação acerca da construção de uma nova nação foi expressa pelos abolicionistas na imprensa. Como Joaquim Nabuco ressaltava, não bastava acabar com a escravidão, era preciso também destruir sua obra.

No campo político, Nabuco e Patrocínio defenderam a distribuição de terras para os libertos, através de uma lei agrária que permitisse ao Estado se apropriar de áreas não-produtivas para depois vendê-las em pequenos lotes aos ex-cativos; já André Rebouças pregou a necessidade de se criar uma “democracia rural” para sustentar a sobrevivência dos escravos livres.

Machado lembra que essas propostas extrapolavam os espaços dos jornais e ganhavam a pauta de discussão do Parlamento, mas não obtinham, no entanto, a aceitação necessária, por serem contrárias à posição de setores das elites que, posteriormente, aderiram ao movimento republicano. A reforma desejada pelos abolicionistas não se desenvolveu por força da ordem vigente, que preservava os interesses dos estratos superiores da sociedade, mantendo-a hierarquizada.

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