Cultura

Artigo: Por onde andará o Bentinho que inspirou o romance?


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“Ninguém sabe o que sou quando rumino.” Machado de Assis - Crônica de 21/01/1889.

Trombar com Machado de Assis, num dos alegres bares da Praça da Matriz de Paraty, durante a Festa Literária Internacional (Flip), seria mágico e inspirador, vocês não acham?

Foi esta a sensação que tive quando fui surpreendido por um professor de português, negro, com idade entre 28 e 34 anos, muito interessado por letras e livros, chamado Bentinho. Ele bebia cerveja, solitário, numa mesa ao lado da minha. Eu e uma amiga conversávamos sobre a programação e os convidados que tinham participado da festa naquele dia. Não demorou muito para nosso vizinho se aproximar e compartilhar conosco sua opinião sobre a Flip que, naquele ano, homenageava a obra de Guimarães Rosa.

Ele fez uma rápida pergunta e já se apresentou como Bentinho, professor de língua portuguesa. Claro que naquele mesmo instante a cena me remeteu à obra e à figura do Bruxo do Cosme Velho. Bentinho, afro-descendente, professor de português, e ainda apaixonado por literatura? Só não era nada casmurro. Muito pelo contrário. Nos dez, quinze minutos que se passaram, tenho que reconhecer que fiquei muito emocionado com a presença de Bentinho. Mesmo sem ser um bajulador do poder, sem ter ares aristocráticos, sem o crespo e ralo cavanhaque, e sem usar os machadianos “pince-nez”, vi no meu companheiro de bar a imagem de Machado de Assis.

E ali pude experimentar o relato de Brás Cubas, célebre personagem do nosso autor maior: “pendurou-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te”.

E a idéia festeira não parou por aí. Arrastou-me com ela para o meu trapézio mental. Enquanto minha amiga e Bentinho conversavam animados, eu só pensava e me deixava levar a bailar com minha idéia pelos salões da minha imaginação. E se tudo não passar de loucura da minha cabeça? E aí, vieram-me as palavras de Mário Quintana quando proclamou: “a imaginação é a memória que enlouqueceu”.

Enfim, voltei à realidade quando Bentinho começou a se despedir. Disse que lamentava muito não poder ficar até o fim da Flip. Que naquela mesma noite iria para a rodoviária de Paraty pegar um ônibus para Angra dos Reis e, chegando lá, logo que o dia clareasse, pegaria um barco para dar aula de português numa escola de uma das ilhas do litoral fluminense.

Nunca mais soube nada desse Bentinho. Nem do seu nome completo tomei conhecimento naquela noite. Despedimos-nos. Lembro apenas de vê-lo desaparecendo entre a multidão de leitores que se aglomerava em frente ao bar da Praça da Matriz. Ele partiu e a idéia ficou. Aquela idéia fixa. “Era fixa a minha idéia, fixa mesmo... Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica... Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa...” As palavras de Brás Cubas no capítulo 4 talvez ajudem vocês a entenderem o martírio que esse encontro mágico com o Bentinho das ilhas de Angra dos Reis, num botequim de Paraty, representou para mim nos últimos quatro anos.

Fiquei a semana inteira em Paraty e, todos os dias, o desejo de transportar aquele Bentinho real para a ficção esteve ao meu lado. Mas ele seria personagem de qual romance? Que história eu poderia contar? A idéia continua fazendo festa na minha cabeça, mas nada de me ajudar a decifrá-la.

Caminhava pelas ruas da Paraty até duas, três da madrugada. Queria tirar um livro de onde menos se pudesse imaginar. Como afirmou Kafka: “que ele seja um machado para o mar congelado dentro de mim”. Havia uma camada grossa de solidão no chão. Cada passo, um espaço a não ser preenchido. Eu andava sem encostar meus pés nas pedras pé-de-moleque que calçam as ruas paratyenses. Vislumbrava um anzol afiado balançando num mar de ponta-cabeça pendurado na vara de pescar do Diabo. Meu livro nasceu pelos pés.

De hora em hora, Paraty alimentava minha fome de escritor. Depois de me dar um neo-Bentinho, fez da casa velha onde nasceu Júlia Mann, mãe de Thomas Mann, o meu hipopótamo.

“Vi chegar um hipopótamo que me arrebatou. Deixei-me ir calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.”

E assim como o animal de Brás Cubas, esse casarão me levou para uma viagem alucinante. Entrei em bosques da minha imaginação que nem eu mesmo sabia que existiam

O imóvel do século 19, construído com pedras e óleo de baleia, continua em pé até hoje ao lado da marina de Paraty.

Fui conhecê-lo no dia seguinte em que conheci Bentinho no bar. Estava praticamente vazio. Logo que entrei na sala, um simpático anfitrião veio me receber, calmo e silencioso. Era um belo gato esverdeado. Na época, único habitante daquela casa velha. Imagine se ele não virou meu personagem. Virou o gato Esmeraldo.

Dentro do casarão lembrei-me de Bentinho. E aí a idéia do romance começou a ganhar forma. Machado de Assis de um lado. Thomas Mann do outro. O mar como cenário. O mar do velho Rio de Janeiro. O mar de Veneza. O mar que quebra na imaginação dos romancistas. Ousei me lançar nesse mar para escrever meu mais recente livro “Mestiços da Casa Velha”. Ancorado em minha admiração de simples leitor desses gênios, aventurei-me a trabalhar na arqueologia da intertextualidade. A promover diálogos e muitas vezes duelos entre os mundos subjetivos dos dois. Machado X Mann. Os gigantes mestiços da Literatura Universal.

Desde que nos conhecemos, há quatro anos, nunca mais soube qualquer informação sobre o Bentinho que plantou essa idéia na minha mente. Ele não sabe que fez isso, obviamente, e nem imagina que acabou virando personagem do meu romance. Que inspirou cenas como essa:

“Muito antes de Bentinho despertar, alguém já o observava de longe. Sentada numa cadeira embaixo de um incompetente guarda-sol, dona Lili zelava pelo sono do pupilo, disfarçada na pele da misteriosa louca muda que andava sem rumo, a perambular pelas ruas de Paraty fantasiada de personagens da literatura infantil.

Mas desta vez ela estava travestida de um velho senhor mulato esbranquiçado com ares aristocráticos, que usava ‘pince-nez’, um crespo e ralo cavanhaque, e trajava um vetusto fato da Academia. Era quase o dia da despedida. E ver Bentinho tão perto sem poder abraçá-lo era-lhe muito doloroso para ela. Mas a senhora francesa preferia que as coisas fossem assim. Pelo menos, poupava Bentinho do sofrimento que tanto lhe apertava o peito... Ficou ali, despedindo-se do protegido em silêncio, vendo-o dormir na praia, depois acordar, tomar banho de mar, voltar à areia, deixar–se secar ao sol, jogar bola com os meninos e, finalmente, caminhar em direção à casa de mãe Laura... Bentinho nem percebeu a presença da velha admiradora. Embaixo do disfarce masculino, dona Lili permaneceu sentada sob o sol quente até o pupilo desaparecer dos seus olhos, que já ostentavam uma melancólica ressaca. E enquanto a tinta negra escorria pelo rosto do falso, franzino e debilitado mestiço, dona Lili adormeceu.”

O autor, Lucius de Mello é jornalista e escritor

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