Em meio a jornais, revistas, livros e gibis, lá está ele: sempre a postos para oferecer dicas sobre as melhores publicações ou até mesmo um descompromissado bate-papo com os clientes. O jornaleiro, que comemora seu dia hoje, além de ser uma enciclopédia ambulante, se transforma em amigo de muitas das pessoas que possuem o hábito de freqüentar bancas.
E eles são unânimes em dizer que a maior recompensa para uma profissão que exige dedicação quase em tempo integral é mesmo o contato direto com o público. “Tem clientes que compram há muito tempo e a gente acaba acompanhando a trajetória de vida deles, assim como eles acompanham a nossa. São pessoas que começaram comprando quando eram solteiros, aí casaram e agora trazem os filhos para escolher gibi na banca. Esse vínculo é muito legal”, conta o jornaleiro Jefferson Viegas, 37 anos, há 17 anos no ramo.
Ele conta que esta relação de proximidade com a cientela é o melhor da profissão, que ao contrário do que muitos imaginam, é árdua. Os jornaleiros têm de abrir as portas quando a maioria das pessoas ainda está despertando da cama, por volta das 7h. Recebem o jornal do dia, conferem e organizam as revistas e se preparam para um dia corrido.
A intenção é oferecer notícias fresquinhas a quem gosta de estar bem informado logo pela manhã, mesmo nos domingos, feriados, véspera de Natal e Ano Novo. No entanto, os clientes do fim do dia também têm atendimento garantido, porque as bancas só vão fechar as portas por volta das 19h. Muitas permanecem funcionando até de madrugada.
Um pouco de tudo
Na profissão de jornaleiro, até mesmo os novatos conseguem espaço. Faz pouco mais de um ano que Gustavo Ioshio Tadano, 24 anos, entrou no ramo de revistarias. Ele voltou do Japão recentemente, onde trabalhou em fábricas por quatro anos.
A vontade de aprender e de se comunicar com as pessoas o ajudou na transição da língua e do país. Ele conta que, preocupado em oferecer um atendimento individualizado, aprendeu a entender um pouco de todos os assuntos: de política até as fofocas dos famosos.
“Como as publicações têm preço tabelado, é o atendimento diferenciado que faz o cliente voltar ao estabelecimento”, explica ele, revelando que lê até mesmo revistas de novela, pelas quais nunca teve muito interesse. “As mulheres sempre perguntam e a gente tem que estar atualizado para saber informá-las”, destaca.
Assim como Tadano, o experiente Orlando Pavan, 68 anos, ressalta que, para ser um bom jornaleiro, é necessário saber lidar com os freqüentadores: ao oferecer um atendimento de qualidade - e um poquinho de camaradagem - o público se torna fiel. “Tenho freguês que mora do outro lado da cidade e vem comprar aqui. Tem freguês que viaja para outros Estados do País e pede para guardar exemplares de revista. E a gente guarda”, observa.
Em sua banca, estão à venda publicações de preços bastante variados, entre R$ 0,99 e R$ 100,00. Logo que o estabelecimento abre, às 7h, um grupo de amigos costuma se reunir em frente à banca para uma conversa antes do início do expediente e uma ‘espiadela’ nas principais notícias do dia. E, segundo Pavan, até as 22h o movimento é intenso.
“Hoje existem muitos pontos alternativos que começaram a vender jornais e revistas, como supermercados, padarias e até açougues. Mas mesmo assim, ainda bem, tem gente que continua só comprando na banca”, comemora.