Polícia

Em mês de greve dos policiais civis, crimes esclarecidos caem 92%

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Como resultado de uma greve que se arrasta há 23 dias consecutivos, o número de casos esclarecidos pela Polícia Civil de Bauru e região caiu 91,98% entre julho e setembro. O dado preocupante foi divulgado ontem pelo movimento grevista, que afirma que a ‘operação padrão’ nada mais é do que uma resposta ao governo do Estado, com quem a categoria não avança nas negociações por reajuste salarial e reestruturação da carreira.

De acordo com o relatório enviado ao JC, nos 19 municípios abrangidos pela Delegacia Seccional de Bauru, apenas 17 casos investigados chegaram a uma solução em setembro, contra 212 no mês de julho (veja quadro ao lado). Em Bauru, somente 6 casos foram esclarecidos no mês passado, sendo 4 no 2º Distrito Policial (DP) e 2 no 3º DP.

Ao todo, são 364 policiais civis trabalhando na cidade. Foram eles os responsáveis por elaborar 976 boletins de ocorrência (BOs) em setembro. Na região, o número de registros diminuiu 64, 82%: de 4.281 em julho, para 1.506 em setembro.

Como o JC tem publicado, os munícipes têm enfrentado dificuldades para registrar ocorrências no plantão da Polícia Civil. Isso porque, embora as delegacias continuem abrindo normalmente, somente são registrados casos graves, flagrantes e feita a remoção de cadáveres. Enquanto o impasse com o governo perdurar, serviços como investigação e encaminhamento de inquérito estão suspensos.

As entidades ligadas aos investigadores, agentes, escrivães e delegados da Polícia Civil reconhecem que a greve está trazendo transtornos à população, mas afirmam que está é a única maneira de abrir as feridas e expor o sucateamento da categoria.

A Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP), por sua vez, sustenta que a greve não está atrapalhando o trabalho da polícia, já que militares foram incumbidos de registrar os BOs recusados pelas delegacias. Para Márcio Cunha, delegado regional do Sindicato dos Investigadores de Polícia do Estado de São Paulo (Sipesp), essa determinação, feita pela SSP, foi equivocada na medida em que não contempla o andamento das ocorrências, que dependem, sobretudo, de investigação dos policiais civis. “As investigações estão paralisadas, os procedimentos de polícia judiciária só estão sendo tomados em caso de réu preso, as pessoas estão enfrentando filas enormes na Ciretran”, exemplifica.

A queda brusca no número de casos esclarecidos, segundo ele, também é reflexo deste contexto. “Não tem como dizer que não está havendo prejuízo. O governo está tentando minimizar os efeitos da paralisação, mas basta ir nas delegacias para ver o que está acontecendo”, pontua. Em visita ao Plantão Policial as 19h de ontem, a reportagem constatou que apenas dois boletins de ocorrência haviam sido lavrados. Naquele momento, a unidade estava esvaziada: não havia nenhum reclamante. Apenas alguns investigadores transitavam de uma sala a outra.

O delegado sindical do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, Edson Cardia, argumenta que os policiais civis foram obrigados a adotar medidas drásticas.“Nós evitamos ao máximo que a greve acontecesse. Quem nos colocou nessa situação foi a intransigência do governo em negociar”, frisa. No entanto, ele destaca que, no próximo domingo, os policiais atenderão todos os casos de crimes eleitorais. “Em respeito à democracia, daremos respaldo a todas as requisições da Justiça Eleitoral”, diz.

No relatório divulgado pelo comando de greve, ontem, constam as atividades desenvolvidas em Bauru pelos 1º, 2º, 3º e 4º DPs e pelas quatro unidades especializadas: Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Delegacia Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), Delegacia de Polícia da Infância e Juventude (DIJU). O levantamento também inclui a produção da Polícia Civil nas cidades de Agudos, Arealva, Avaí, Balbinos, Borebi, Cabrália Paulista, Duartina, Iacanga, Lençóis Paulista, Lucianópolis, Macatuba, Paulistânia, Presidente Alves, Reginópolis e Ubirajara.

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