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Responsabilidade moral


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O que os Estados Unidos estão tentando com a aprovação deste programa de 850 bilhões de dólares (votado na quarta-feira - 1/10 - no Senado, em Washington) é tornar menos violenta a crise nos mercados financeiros que se espalhou pelo mundo a partir da grande patifaria em que se envolveu o seu sistema bancário.

Como acontece no Brasil, o Congresso normalmente aperfeiçoa as propostas do Executivo e foi isso que fizeram os senadores americanos com o pacote do Secretário do Tesouro Paulson e de Bernanke, presidente do Banco Central - o FED. Não só ampliaram os recursos para a limpeza dos papéis “podres” (o projeto original era para US$ 700 bilhões) como incluíram um substancial aumento de 100 mil para 250 mil dólares nos depósitos garantidos dos correntistas dos bancos, concederam algumas vantagens fiscais para pequenos negócios (obviamente também para a indústria automobilística) e reforçaram as garantias aos adquirentes de ações. Mais significativo ainda foi o reforço dos controles sobre as atividades do sistema financeiro.

Não posso falar do pacote completo pois escrevo na quinta-feira e a votação final é prevista para esta sexta, 03.10, mas acredito que a Câmara dos Representantes não adiará mais a decisão. Não há como contestar a validade deste programa de socorro, porque não surgiu nada melhor e ele passou a ser a única alternativa para se reiniciar um processo de restauração da confiança, sem o que o mercado financeiro não destrava. E todos sabem que sem os mecanismos de crédito, paralisa a economia real. Os americanos foram colocados diante da situação de pagar um custo altíssimo pela salvação do sistema financeiro mas convencidos de que o custo de não fazê-lo é infinitamente maior, em termos de crescimento do PIB, dos seus empregos e do bem estar geral. Não há também que estanhar a resistência inicial dos parlamentares, que apenas não desejaram atuar como simples coadjuvantes passivos diante da confusão criada pela imoralidade que tomou conta do sistema financeiro diante da falta de fiscalização dos bancos centrais e dos organismos de regulação.

O que se trata agora é restabelecer a confiança e fiscalizar a moralidade dos agentes para que o sistema volte a engrenar e atender às finalidades para as quais ele existe, que é financiar o setor produtivo da economia. O mecanismo de coordenação que é o mercado repousa sobre um ingrediente catalítico que é a confiança entre os homens e esta por sua vez repousa na certeza de um comportamento apoiado em normas morais reciprocamente aceitáveis.

Após a aceitação do programa de socorro, resta uma intensa atividade na questão do aperfeiçoamento dos controles. O que me parece é que uma das conseqüências desta crise financeira será o reencontro não só entre o pensamento econômico e a realidade do mundo como dos próprios métodos de condução das políticas monetárias ao redor do mundo.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

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