Um amigo que mora em Vitória, no Espírito Santo, mandou-me uma advertência do velho Eça de Queiroz (1845-1900) que, sinceramente, não consegui localizar na sua obra. O escritor português teria dito que “os políticos e as fraldas devem ser mudadas freqüentemente e pela mesma razão”. Discordo, porque existem as exceções menos malcheirosas. A democracia representativa, que apesar dos defeitos ainda é o melhor sistema para eleger os dirigentes, não garante a eleição dos melhores, mas sim dos que mais convencem os eleitores. A televisão é uma arma perigosa, bem usada por quem fala com a firme convicção que a ignorância lhe confere.
Para o bem ou para o mal, poucos candidatos sabem utilizar esse poderoso meio de comunicação. Chegam a contratar bons profissionais, mas na hora de se expor falta espontaneidade e originalidade no discurso. Segundo o conhecido produtor Doc Comparato, o programa de propaganda eleitoral do TSE pode ser sintetizado por três Ps: Pobre, Poluído e Pulverizado. As mensagens fragmentárias e sem conteúdo ficam longe do crível e do exeqüível. Os debates entre os candidatos são tão engessados que perderam a aura dos bons tempos em que pautavam as conversas nos cafés do centro. Já não se faz mais um Brizola chamando Maluf de “Filhote da ditadura!” E este retrucando com “Desequilibrado! Passou 20 anos no exílio e não aprendeu”. Falta a pontaria certeira do Boris Casoy perguntando a Fernando Henrique Cardoso se ele “acredita em Deus”. Foi o que bastou para FHC perder a eleição para Jânio Quadros, lembra? Os candidatos, hoje, diante das câmeras, primam pela desinformação, mais preocupados em causar dificuldades ao adversário com manjadas perguntas requentadas.
Mentir, desviar o sentido ou mudar de assunto, trapacear seriam faltas graves do ponto de vista de uma moral pessoal. Mas, seriam menos danosas, se fossem, como Nietzsche chamava, “mentiras de vida” e promovessem avanços de justiça social. O populismo como ferramenta eleitoral é a excrescência que funciona. O Bolsa Família é a maior máquina de propaganda de todos os tempos. O governo Lula tem 80% de aprovação. Vai mostrar esse poder nas eleições de hoje, dia em que começa a disputa presidencial rumo a 2010. Os políticos locais são os mais importantes cabos eleitorais. Deles dependem a eleição do presidente, dos deputados e senadores que formarão a base de sustentação do poder.
Os candidatos a vereador, coitados, submetem-se ao ridículo dos poucos segundos que são reservados a cada um para dizer chavão do tipo “Você me conhece!” (mas como, se nunca fomos apresentados?), mais o nome, número, partido e o eterno repetir: “Com fulano para prefeito”.
Espera-se que 130.604.430 eleitores brasileiros compareçam às urnas hoje para eleger 5.563 prefeitos e 51 mil vereadores. Desculpe-me a obsessão pelos números. Imagino como deve ter sido a propaganda eleitoral por este vasto país dos Zé da Cueca, Maria do Rachão, João Cagado e outros candidatos de nomes exóticos. As restrições impostas pela Justiça Eleitoral livraram as cidades do caos visual. Protegeram postes e muros, infelizmente substituídos pelos seres humanos, carregadores de bandeiras e cartazes. O povo sente falta dos showmícios. Espetáculo de graça e quase na porta de casa. As camisetas e os bonés que eram úteis no trabalho lá na obra estão proibidos. Nada pode ser dado em função de amealhar o voto. Somente conversa.
Sabemos que a democracia está longe de ser perfeita. Hitler foi eleito pelo povo alemão. Nós já elegemos Collor. Temos que encarar o risco voto de frente. E em eleição municipal o perigo cresce porque reflete no nosso dia a dia. Quem escolhe ou decide deve saber que o seu ato envolve uma parcela de responsabilidade no coletivo. Conseqüente e tranqüilo (ainda vou ter saudades dos meus tremas), vote nos melhores.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC