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Entrevista da semana: Neli Del Nery Prado: ‘As pessoas se esquecem do espiritual’

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 9 min

Fundadora da Feiramor, uma das feiras mais tradicionais da cidade cuja renda é destinada a projetos sociais, Neli Del Nery Prado, 63 anos, é daquelas pessoas que contagiam quem está por perto. De semblante sereno e esbanjando alegria, ela recebeu a reportagem do Jornal da Cidade para falar de coisas boas e ruins. Mais boas do que ruins.

Depois de 17 anos seguidos no pátio da escola estadual Christino Cabral, a feira muda de endereço na sua 21ª edição. Vai para o Recinto Mello Moraes. Mas mantém a data de sempre, ou seja, o segundo fim de semana de novembro. Sem a concorrência da Expo Bauru, os organizadores esperam público recorde para este ano. Essa é uma boa notícia.

A ruim, segundo Neli, é que as pessoas estão se deixando levar pelo materialismo e não dão mais a devida importância à vida espiritual. Felizmente, uma parte da sociedade ainda resiste.

Durante a entrevista, ela falou sobre esses e outros assuntos. Confira.

Jornal da Cidade - Quando se fala em Neli Del Nery Prado, logo o nome é associado à Feiramor e a trabalhos de caridade. Quando foi que começou essa relação?

Neli Del Nery Prado - Começou com o estudo da doutrina. Passei a freqüentar a Casa Espírita aos 12 anos. O estudo foi despertando em mim o interesse em ajudar o próximo, atendendo ao chamado do Cristo para amar o próximo como a ti mesmo. Com o passar dos anos, a nossa ação foi sempre voltada à filantropia, que é algo que a doutrina nos recomenda fazer porque é o exercício do amor. Quando você faz um trabalho filantrópico, a maioria das pessoas imagina que ela está ajudando o outro. Eu digo sempre que, na verdade, estamos ajudando a nós mesmos. Porque você está trabalhando o amor que existe dentro de você, em benefício de alguém. Qualquer ação que você faz em benefício do outro, você está ajudando a si mesmo.

JC - De que forma?

Neli - O benefício é o bem-estar, consciência tranqüila, é o atendimento ao chamado do Cristo. Quando Ele esteve aqui, solicitou que nós amássemos. E nós não sabemos amar, ou melhor, não amamos de maneira plena como deveríamos. Então, o amor nós desenvolvemos, nós ampliamos. O dia em que nós, seres humanos, oferecermos nosso amor, indistintamente, a todas as criaturas, aí nós estaremos atendendo ao chamado de Cristo. Enquanto isso não acontece, estamos com o amor egoísta.

JC - E isso está longe de acontecer?

Neli - Muito. Muito longe. Por isso, toda vez que uma pessoa procura uma casa espírita visando atingir uma felicidade maior, melhorar seu íntimo porque sente que está faltando algo dentro dela, sempre orientamos que ela faça algum trabalho voluntário dedicado a alguém. A orientação tem como finalidade oferecer ajuda a quem está precisando, mas principalmente para que a pessoa deixe o egoísmo, a vaidade e outros sentimentos negativos e passe a ter sentimentos nobres, de valorização da vida.

JC - A filantropia ajuda nessa transformação?

Neli - Ajuda. Muitas pessoas acham que já fez a sua parte quando colaborou com alguma instituição filantróprica. Isso é muito mecânico. Você dá o que está sobrando e não o amor, o carinho, a atenção. E não é fácil fazer isso. É complicado.

JC - Ainda mais em uma sociedade como a nossa, em que não sabemos até que ponto a pessoa que bate à porta, pedindo ajuda, realmente precisa de ajuda...

Neli - Na maioria das vezes, ficamos desconfiados. Não sabemos se a pessoa está falando a verdade. Às vezes, imaginamos estar ajudando alguém quando, na verdade, estamos colaborando para que ele continue naquela situação. Por isso, é muito complicado exercer o amor da forma como Cristo nos pediu. Então, nós temos de fazer aquilo que a consciência manda.

JC - A senhora acredita que o exercício desse amor está mais difícil hoje em dia porque as pessoas estão mais individualistas?

Neli - Acredito. Mas muitas pessoas ainda estão preocupadas com o próximo. Eu não sei se é o chamado da mídia para a valorização de nós mesmos, mas as pessoas estão mais materialistas e egoístas. Nós vemos constantemente que, para ter sucesso, é preciso fazer isso ou aquilo. Isso é muito material. O apelo está muito forte. As pessoas estão se esquecendo do espiritual. Mas, felizmente, percebemos no trabalho que fazemos que muitas pessoas ainda estão preocupadas com o espiritual. Chega um ponto que só o material não satisfaz, as pessoas precisam também do espiritual.

JC - Apesar do amor, a senhora se decepciona com as pessoas?

Neli - Não, porque é preciso entender o outro. Não adianta exigir da pessoa mais do que ela pode oferecer. A partir do momento que você entende o outro, você passa a amá-lo incondicionalmente. É o estágio evolutivo dele que faz com que ele aja daquela maneira.

JC - Falando em estágio evolutivo, como esse amor que a senhora sente pelo próximo evoluiu para a realização da Feiramor?

Neli - Nós percebemos que havia em Bauru diversos centros espíritas fazendo bazares beneficentes em diversos pontos da cidade. Inclusive uma irmã minha (Glória) fazia na casa dela um bazar voltado para enxovais de bebê. Numa conversa com ela, achamos que daria para ajuntar todos esses bazares em um único evento. Passamos isso para as instituições e todas acharam uma boa idéia. Em 1988, organizamos a primeira feira. Ela foi feita no Sesc. Tinha umas 15 barracas. As três primeiras edições foram lá. A população compareceu. Outras instituições quiseram participar e o Sesc ficou pequeno.

JC - O evento foi sempre anual?

Neli - Sempre anual. Sempre no segundo fim de semana de novembro. Do Sesc, nós fomos para a escola estadual Christino Cabral. A Secretaria de Educação nos cedeu o pátio da escola e realizamos a feira lá durante 17 anos. A nossa feira sempre coincidiu com a Expo Bauru. Nos 20 anos, foi sempre no mesmo dia. Neste ano, como a Expo mudou de data (ela foi antecipada para agosto), então, houve uma manifestação dos amigos sugerindo que falássemos com a Arco para transferir a feira para o Recinto Mello Moraes. Pela primeira vez, a Feiramor deste ano será lá.

JC - E hoje, qual é o tamanho da feira?

Neli - Hoje, temos 51 grupos trabalhando na feira. É importante ressaltar que todos os grupos trabalham voluntariamente. Os produtos expostos são feitos durante o ano todo e a renda obtida com a venda deles é toda revertida para os projetos sociais. Não é rateio. Cada grupo fica com o dinheiro que arrecadou. Desde a primeira edição foi assim. E nunca deu problema.

JC - Levando a feira para o Recinto, vocês terão mais gasto e trabalho com a montagem da estrutura?

Neli - Sim. Porque o Recinto é um local apropriado para a exposição de animais. Vamos ter de adaptar o espaço para atender o público. Teremos de alugar tendas, adaptar toda a fiação elétrica e isso tem um custo. Por isso, estou de chapéu na mão pedindo ajuda financeira a empresas e amigos. Estamos disponibilizando espaços para colocar banners com propaganda das empresas que colaborarem. Nós entendemos que o custo com a estrutura da feira não pode ser tirado das instituições senão não vai sobrar nada. Elas trabalham o ano inteiro e, no fim, ficam sem nada.

JC - Por ser mais longe, a senhora acha que o Recinto pode atrapalhar a presença do público?

Neli - Não. Não acho. Porque da escola Christino Cabral até o Recinto são apenas três quilômetros. Além disso, nosso público está acostumado a ir à feira. Nós temos um público fiel. Acredito, inclusive, que o público será maior.

JC - Por quê?

Neli - Porque não teremos a concorrência da Expo e porque o Recinto é um lugar maravilhoso, dá para passar o dia lá. Eu tenho dito que as pessoas terão a oportunidade de fazer um piquenique sem precisar levar o lanche porque nós temos para oferecer.

JC - Qual foi a média de público nas edições anteriores?

Neli - Cerca de 10 mil pessoas, somando os dois dias.

JC - Quando a senhora se aposentou, há dez anos, teve uma transição tranqüila ou sofreu para se adaptar à nova vida?

Neli - Foi tranquilíssima. Para as mulheres é mais fácil porque elas têm jornada tripla. Além do trabalho em casa, eu tinha o trabalho junto ao movimento espírita. E ainda inventei outro. Junto com uma sobrinha, passei a fazer massas caseiras, como nhoque, canelone, rondelli, lasanha, e a vender para amigos.

JC - Além de cozinhar, o que mais a senhora gosta de fazer em casa?

Neli - Eu sou uma verdadeira dona de casa. Cuido dos netos. Lavo, passo, limpo a casa. E faço tudo com muita alegria porque a vida me deu muita coisa boa.

JC - Tem alguma coisa que te aborrece?

Neli - Tem. Quando eu percebo que as pessoas querem te passar para trás. A ganância, a desonestidade, a falcatrua, a corrupção. Quando eu vejo as pessoas caminhando para esse lado, eu fico muito triste. Elas perdem a oportunidade que a vida oferece de fazer as coisas boas.

JC - A senhora é uma pessoas ansiosa?

Neli - Eu sou, mas procuro me equilibrar.

JC - E consegue?

Neli - Às vezes (risos). Tento me equilibrar. E a melhor forma de fazer isso é procurar um lugar tranquilo, fazer uma oração, entrar em contato com as energias maiores e, novamente, entrar em sintonia. Para isso, é preciso reconhecer o limite do outro. Esperar de uma pessoa algo que ela não pode dar é sofrer. A partir do momento que você entende do que o outro é capaz, você é feliz.

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Perfil

Nome: Neli Del Nery Prado

Idade: 63 anos

Local de nascimento: Bauru

Marido: Antenor Prado Delgado

Filhos: Enio, Eric e Eder

Hobby: “Ver um bom filme”

Livro de cabeceira: “Cabeça de Turco”, de Gunter WallRaff; e o “Pentateuco Espírita”

Filme preferido: “Um Corpo Que Cai” (1958) e a “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989)

Estilo musical predileto: Música popular brasileira

Para quem dá nota 10: “Para todos aqueles que se esforçam em ser uma boa pessoa.”

Para quem dá nota 0: “Para os corruptos, gananciosos e egoístas.”

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