Dois apaixonados, Edu e Laura, decidem se casar. Na convivência, a dois descobrem que o relacionamento de amor possui vários desafios e a ele pertencem também as crises. Em uma destas, Edu, sem que ninguém esperasse, morre. Inconformado com a interrupção de sua existência, decidido a se despedir de Laura de qualquer forma e querendo saber qual era o segredo que ela iria lhe contar pouco antes de morrer, Edu passa a buscar um meio de se comunicar com ela. Porém, o único ser que poderia ajudá-lo era um fantasma, uma assombração que habita o sótão de sua casa.
“Fica Comigo Esta Noite” de João Falcão é uma divertida brincadeira sobre o amor e a separação definitiva que a morte pode trazer a um casal. Sendo uma comédia leve o filme nos permite refletir sobre a individualidade que deve existir na vida a dois e a convivência que nunca deverá se tornar simbiose.
Um verdadeiro relacionamento amoroso nunca é a fusão de duas metades, mas sempre a aproximação de dois inteiros. Aquela antiga expressão “encontrei a tampa da minha panela” não representa de forma alguma o que é um relacionamento de amor entre duas pessoas. Os amantes precisam sempre ter a consciência de que são pessoas diferentes. Não existem pessoas iguais. Um verdadeiro relacionamento amoroso nunca deve ser um relacionamento de submissão, de anulação da personalidade. Pelo contrário, o relacionamento amoroso deve ser um enriquecimento de nosso horizonte existencial. Para isso, é necessário que os amantes possam ser eles mesmos, de viverem na autenticidade.
Quando duas pessoas se amam e desejam caminhar juntas devem simultaneamente permitir que o outro seja ele mesmo. Justamente amar significa deixar que o outro seja livre, que a outra pessoa possa verdadeiramente “respirar”. O desafio assumido pelos amantes é aprender a viver e amadurecer com a (através da) diferença do outro. Na verdade, amar não é ir em busca de sua própria vida, mas descobrir-se realmente vivo na alegria de ver o outro viver.
Este encontro verdadeiro de aprendizagem mútua pressupõe que os amantes sejam fiéis. É necessário compreender, porém, que fidelidade não significa simplesmente “não trair o outro”. A traição está na superficialidade do ser fiel. E quando ela acontece normalmente é porque os amantes já deixaram de ser fiéis há muito tempo. Fidelidade significa ser transparente diante do outro, deixar com que o outro verdadeiramente me conheça. Se isso acontece no relacionamento evita-se um dos piores venenos de uma relação humana: a desconfiança. Quando os amantes se deixam conhecer adquirem a real sensação de estarem pisando em solo firme.
Em contrapartida, se existe fidelidade, inevitavelmente existirá o conflito. Por ser um relacionamento amoroso uma aproximação de dois inteiros, de duas pessoas diferentes, ele é em sua essência um relacionamento conflitivo. O conflito pertence à relação humana e principalmente à relação a dois. O casal que diz nunca ter vivenciado uma briga, uma discussão, um conflito, não está falando a verdade, ou pior, alguém está, na relação, representando um papel, vestindo uma máscara ou sendo submisso.
Se o casal se propõe a viver na autenticidade e na franqueza, o conflito é inevitável, pois as diferenças fatalmente aparecem. O conflito, apesar de doloroso, é saudável. Em primeiro lugar, porque o momento conflitivo revela a autenticidade dos amantes. Em segundo lugar, porque a crise de relacionamento é uma possibilidade de amadurecimento. Para isso é necessário que a crise de relacionamento seja controlada pela razão. Em outras palavras, o conflito não pode ser dominado pelas emoções que nos cegam e principalmente que nos fazem criar “fantasmas”.
A crise vivenciada com o afastamento necessário das emoções nos leva a um conhecimento de nós mesmos e do outro. Muitas vezes é preciso que, no momento da crise, os dois se afastem para poderem pensar sobre o relacionamento. Mas fundamental mesmo é que os dois possam racionalmente dialogar sobre a relação. Não existe relacionamento humano que possa ser construído sem um diálogo. O casal deve aprender a falar e também a ouvir. Neste exercício do diálogo, o senso crítico precisa imperar levando ambos à discussão somente sobre os aspectos que realmente são importantes para o relacionamento. Por exemplo, é desnecessário expressar o que eu penso sobre a família do outro, afinal o outro possui um relacionamento afetivo com as pessoas de sua família.
O vivenciar da crise permite saber até aonde podemos ir e qual o limite do outro, para que, assim, a dignidade de nenhum dos parceiros seja perdida. O conflito, apesar de desagradável, é o momento de reconhecer o erro, de compreender o ponto de vista do outro, de aprender algo novo. “No amor ocorre o paradoxo de dois seres se tornarem um, mas continuarem a ser dois” (Erich Fromm).