Nova York - O comitê que escolheu ontem a descoberta do HIV como um feito merecedor do Prêmio Nobel de Medicina deixou de fora da lista o americano Robert Gallo, da Universidade de Maryland. A decisão deve encerrar uma antiga polêmica, já que Gallo, considerado por alguns cientistas um co-descobridor do vírus, chegou a ser acusado de se apropriar do trabalho de Luc Montagnier, um dos ganhadores da honraria.
O trabalho do americano usou uma amostra de vírus que teria sido retirada do laboratório do francês, no Instituto Pasteur, de Paris. O desvio nunca foi provado, mas um teste mostrou que o material usado por Gallo era geneticamente similar ao de Montagnier.
Da disputa acadêmica derivou um conflito entre ambos pela patente do teste de HIV, pedida por Montagnier e negada nos EUA (que a concederam a Gallo). O impasse foi resolvido por um anúncio conjunto entre o então premiê francês, Jacques Chirac, e Ronald Reagan, presidente dos EUA em 1987. Ambos os cientistas ficaram com os nomes na patente.
Ontem, o chefe do comitê de Medicina do Nobel, Jan Andersson, disse que a demora de 25 anos em dar o prêmio à descoberta do HIV se deveu em parte às dúvidas sobre primazia, já que Gallo publicou seu trabalho depois do rival. “Não nos baseamos só em publicações. Usamos outras fontes para dissecar quem fez o trabalho’’, declarou,
Montagnier, hoje presidente da Fundação Mundial para Pesquisa e Prevenção da Aids, recebeu a notícia do prêmio na Costa do Marfim, onde participa de um congresso. Disse que desejava que o prêmio tivesse ido para Gallo também. “Ele mereceu tanto quanto nós.” Gallo disse ter ficado desapontado. Depois, emitiu nota se declarando feliz pelo “amigo de longa data, Luc Montagnier’’. “Fiquei grato por ler o comentário de Montangier expressando que eu seria igualmente merecedor”.