Pesca & Lazer

História de pescador: Honestidade: A pescaria mais importante da minha vida


| Tempo de leitura: 3 min

Eu tinha 11 anos e, a cada oportunidade que surgia, ia pescar no cais, junto ao chalé da família, numa ilha no meio de um lago que se situava na fazenda do tio João Ferreira, na cidade de Rio Claro, Estado de São Paulo.

A temporada de pesca só começaria no dia seguinte, mas eu e o meu pai saímos no fim da tarde para pegar peixes, dourado e pacu, cuja pesca era liberada.

Amarrei uma isca e comecei a praticar arremessos, provocando ondulações coloridas na água. Logo as ondulações se tornaram prateadas por causa do efeito da lua nascendo sobre o lago.

Quando o caniço vergou, soube que havia algo enorme do outro lado da linha. O meu pai olhava com admiração enquanto eu habilmente arrastava o peixe ao longo do cais.

Finalmente, com muito cuidado, levantei o peixe exausto da água. Era o maior que eu já tinha visto, mas era um dos peixes cuja pesca só era permitida na temporada.

Meu pai e eu olhamos para o peixe, tão bonito, as guelras para trás e para frente sob a luz da lua. Meu pai acendeu um fósforo e olhou o relógio. Eram dez da noite, faltavam duas horas para a abertura da temporada. O meu saudoso pai olhou para o peixe, depois para mim.

- Você tem de devolvê-lo, filho - ele disse.

- Mas, papai! - reclamei.

- Vai aparecer outros peixes – disse meu pai.

- Não tão grande como este – choraminguei.

Eu olhei à volta do lago. Não havia outros pescadores ou barcos visíveis ao luar. Olhei novamente para meu pai. Mesmo sem ninguém por perto, eu sabia, pela clareza da voz dele, que a decisão não era negociável.

Devagar tirei o anzol da boca do enorme peixe e o devolvi à água escura. A criatura movimentou rapidamente seu corpo poderoso e desapareceu. Eu fiquei desconfiado que jamais veria um peixe tão grande como aquele. Isso aconteceu há 62 anos.

Hoje, sou jornalista e aposentado do Serviço Público Federal. O chalé do meu tio Ferreira ainda está lá, na ilha no meio do lago, e quando posso levo meus filhos e filhas para pescar no mesmo cais.

Eu estava certo. Nunca mais consegui pescar um peixe tão maravilhoso como o daquela noite, há tanto tempo. Mas eu sempre vejo o mesmo peixe – repetidamente – todas as vezes que me deparo com uma questão de ética.

Porque, como meu pai me ensinou, a ética é simplesmente uma questão de certo e errado. Apenas a prática da ética é que é difícil. Agimos corretamente quando ninguém está olhando? Nós nos recusamos a passar por cima de regras para conseguir entregar o projeto a tempo? Ou nos recusamos a negociar ações com base em informações que sabemos que não devíamos ter?

Fizemos isso porque nos ensinaram a devolver o peixe para a água quando éramos jovens. Porque tivemos a felicidade de ter aprendido a verdade. A decisão de fazer a coisa certa está vívida em nossas lembranças. É uma história que contaremos com orgulho a filhos e netos.

Não é uma história sobre como tivemos a oportunidade de derrotar o sistema e a aproveitamos, mas sobre como fizemos a coisa certa e ficamos fortalecidos para sempre.

João Álvares, da Associação Paulista de Imprensa, é pescador e contador de histórias.

Comentários

Comentários