Bairros

‘Não estudo e nenhum amigo meu’

Da Redação
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Em Bauru, não é difícil encontrar crianças e adolescentes malabares, flanelinhas ou coletores de recicláveis nas principais vias. Não há dados de quantos trabalham na cidade, mas no Brasil são cerca de 2,5 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 15 anos, segundo estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad). Nas ruas, não é difícil localizar menores fora da escola, nos semáforos, à espera de gorjeta.

Geralmente em grupos, a maioria dessas crianças e adolescentes está na rua por opção. Além disso, usa o dinheiro em benefício próprio. “Não estudo e não quero ficar preso com a assistente social. Venho para a rua porque não tenho nada para fazer em casa”, contou um adolescente de 16 anos, o mais velho do grupo de 12 meninos que diariamente faz malabares com limão nos semáforos do Centro de Bauru.

Moradores da Vila Santa Filomena, os meninos que têm entre 10 e 16 anos reclamam de falta de opção de lazer. “Ao invés de ficar em casa parado, venho com meus amigos para a rua. Não sei fazer malabares, mas também ganho gorjeta”, revelou o adolescente de 13 anos. “Também não estudo, mas quero voltar. O problema é que nenhum amigo meu vai para a escola, aí perco a vontade”, acrescentou.

Apesar de estar no semáforo à espera de gorjeta, nenhum menino do grupo disse contribuir com a renda familiar. “Todo mundo aqui usa o dinheiro pra comprar comida pra nóis, compra roupa, o que tem vontade”, conta o adolescente de 16 anos, revelando a pouca afinidade com a língua portuguesa.

Apesar da existência de crianças na rua, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) argumenta que atende cerca de 2 mil delas por meio de projetos como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PET) e Nenhuma Criança na Rua. De acordo com a diretora do Departamento de Proteção Social Especial, Maria Cristina de Souza, de janeiro a agosto deste ano, 38 crianças que estavam na rua e 38 reincidentes foram integrados aos projetos sociais do Sebes.

“Atuamos também por meio do busca ativa, em que educadores buscam crianças e adolescentes nas ruas”, afirma Maria Cristina. “Neste caso, abordamos as crianças, fazemos um contato com seus familiares e tentamos inserí-las em nossos projetos”, acrescenta.

Segundo a diretora, a maior dificuldade é atrair para os projetos crianças que tenham vivencia de rua. “Elas gostam da liberdade, do fato de não fazerem nada. É difícil conseguir envolvê-las nas nossas iniciativas. Essa dificuldade também acontece com crianças e adolescentes envolvidos com drogas”, finaliza Maria Cristina.

No Brasil, apesar do trabalho ser proibido para menores de 14 anos e de 14 anos até 16 anos permitido apenas como aprendiz, a mão-de-obra infantil é responsável pela contribuição de um terço a até 100% da renda de 36% das famílias brasileiras, de acordo com o estudo do Ipea.

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