Internacional

Francês viajante é Nobel de Literatura

Por Eduardo Simões e Sylvia Colombo | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Contrariando as apostas que se concentravam em nomes consagrados, como o norte-americano Philip Roth, o peruano Mario Vargas Llosa ou o israelense Amós Oz, a Academia Sueca decidiu conceder o Nobel de Literatura ao francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, 68 anos. Pouco conhecido no Brasil, é um dos escritores mais traduzidos de seu país.

É, também, o 14.º autor da França a receber o prêmio, com as ressalvas de que Gao Xingjian (2000) tem origem chinesa, Albert Camus (1957), argelina, e que Jean-Paul Sartre recusou o galardão em 1964. Além de voltar as costas, mais uma vez, à lista de favoritos, a distinção a Le Clézio marca a tendência do Nobel a escolher, nos últimos anos, autores europeus.

O reconhecimento internacional do escritor francês começou em 1980, com o romance “Désert”, que ganhou prêmio da Academia Francesa. A obra descreve as agruras de uma mulher nascida no Saara tentando adaptar-se à imposição da colonização francesa no começo do século 20.

O comitê sueco declarou que Le Clézio foi escolhido por buscar a “aventura poética e o êxtase sensual, por explorar a humanidade além e abaixo da civilização reinante”.

Entre seus temas mais freqüentes estão histórias de aventuras baseadas em sua experiência em viagens por desertos (uma de suas predileções), cenários africanos e americanos. A academia também distingue sua “sensibilidade ecológica”.

Entre Nice e Novo México

Le Clézio nasceu em Nice em 1940, mas mudou-se ainda criança para a Nigéria, onde seu pai foi médico durante a Segunda Guerra Mundial. Voltou à França em 1950. No começo dos anos 70, decidiu abandonar as grandes cidades e permanecer por um período na América Central. Nos últimos anos, vive entre Nice e o Novo México, nos EUA. Casado com uma marroquina, passa parte de seu tempo viajando.

Suas obras de tom ecológico incluem “Terra Amata” (terra amada, 1967), “La Guerre” (a guerra, 1970) e “Les Géants” (os gigantes, 1973). No Brasil, foram lançados três títulos. “A Quarentena” (1997) - que teria sido inspirado nos “Sertões”, de Euclides da Cunha, segundo entrevista do autor, no ano do lançamento, a “O Estado de S.Paulo”.

Também saíram aqui “O Africano” (2007) e “O Peixe Dourado” (2001). Depois do anúncio, Le Clézio declarou que escrever “não é só estar sentado em sua mesa, é escutar o ruído do mundo”. Também disse que ler romances é uma boa forma de interrogar o mundo. “O escritor não é um filósofo, um técnico da língua, é alguém que faz perguntas, e, se há uma mensagem que quero enviar, é que é necessário fazer perguntas.”

Curiosamente, na última quinta-feira, numa entrevista a uma rádio francesa para promover seu novo livro, “Ritournelle de la Faim” (os refrãos da fome), Le Clézio falou sobre a possibilidade de ganhar o Nobel. À rádio francesa Inter, o escritor, questionado sobre a possibilidade de ser premiado, respondeu: “Com certeza, por que não? Quando você é um escritor, sempre acredita em prêmios literários”.

O prêmio, de US$ 1,4 milhão (cerca de R$ 3,4 milhão), será entregue em cerimônia em Estocolmo, capital sueca, no dia 10 de dezembro, junto com os demais (medicina, química, física e economia).

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Saiba mais

• O comitê do Prêmio Nobel justificou a premiação a Jean-Marie Gustave Le Clézio por se tratar de “um autor de novas aberturas, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade além e abaixo da civilização reinante”.

• Le Clézio é um dos escritores franceses modernos mais traduzidos no exterior. Publicou seu primeiro romance aos 23 anos, e é considerado um autor de vanguarda por causa do tratamento experimental que dá ao romance.

• Nasceu em Nice, em abril de 1940, e se formou no equivalente ao curso clássico antes de cursar estudos universitários na Grã-Bretanha e no Instituto de Estudos Literários de Nice. Em 1964, obteve o mestrado na Universidade de Aix-en-Provence.

• Chamou a atenção já em seu primeiro romance, “Le Procés-Verbal” , de 1963, que recebeu o prêmio Theophraste Renaudot. O livro já trazia um dos seus temas centrais, a passagem entre pensamentos comumente aceitos para estados extremos da mente.

• Em seguida, Le Clézio publicou outros livros que descreviam crises, como a coleção de contos “La Fièvre” (1965) e “Le Déluge” (1966), em que apontava para a perturbação e o medo predominantes nas grandes cidades ocidentais.

• As constantes viagens de Le Clézio se refletem na ambientação de seus livros, e sua consagração definitiva como romancista veio com “Désert” (1980), que lhe rendeu um prêmio da Academia Francesa. A obra contém alusões a uma cultura perdida no deserto norte-africano, contrastando com uma descrição da Europa vista pelos olhos de imigrantes indesejados.

• Entre as obras mais recentes de Le Clézio está “Ballaciner” (2007), um ensaio profundamente pessoal sobre a história do cinema e sua importância na vida do escritor, desde os projetores a manivela da infância, o culto ao cinema na adolescência do autor e suas incursões adultas sobre a arte cinematográfica desenvolvida em partes remotas do planeta.

• Um novo livro, “Ritournelle de la faim”, acaba de ser lançado.

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