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Enquanto o mundo derrete


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Li muita coisa sobre o autor e a obra, no centenário de morte de Machado de Assis. Só lamentei que ele não tivesse escrito em língua inglesa. Provavelmente sua obra seria ainda muito mais reconhecida mundialmente. O escritor brasileiro não está muito abaixo de Flaubert, Henry James, Tchekcov e outros dos seus contemporâneos. Bentinho chegou a ser chamado de “Otelo brasileiro” pelas semelhanças com o personagem da trama de Sheakespeare. Estariam Otelo, Desdêmona e Iago muito próximos de Bentinho, Capitu e Escobar. Acho uma bobagem. Bentinho é passivo. Não tem a fúria do mouro.

É incrível como Machado de Assis pôde sobreviver num país escravocrata e preconceituoso do século 19. Preto, pobre, gago, epilético e órfão, somente freqüentou o primário em uma escola pública no Morro do Livramento, onde nasceu, no Rio de Janeiro. Mais admirável ainda é ser considerado o maior escritor latino-americano do seu tempo e tanta gente escrever sobre ele, cem anos depois da sua morte. Naquela época doenças nervosas, como a epilepsia, eram consideradas castigos que os descendentes pagavam por pecados cometidos contra seus ancestrais. Ser estéril seria outro castigo, mas tudo indica que foi opção dele e de Carolina não terem filhos. Carolina era uma portuguesa mandada ao Brasil por castigo dos pais.Casou-se com um negro por pirraça. Talvez não quisessem transmitir a herdeiros o legado da “miséria humana”, como diz a frase final de Brás Cubas. Mas o amor surgiu, mudou a existência de ambos até o dia em que o esposo se postou ao “pé do leito derradeiro” para suas homenagens à Carolina morta, com um dos mais belos sonetos da língua portuguesa.

Machado de Assis conseguiu vencer, com o seu talento, a intolerância da época. No governo Floriano Peixoto, em abril de 1984, o jornalista Diocleciano Martir publicou uma lista de “maus patrícios e hipócritas monarquistas, pagos fartamente pelos cofres da nação para dizerem mal de si próprios e cavarem a ruína da Pátria”. O escritor estava na lista. Era uma calúnia, uma infâmia, como são todas as calúnias.

Um dos melhores ensaístas de Machado de Assis, Daniel Piza, diz que o escritor jamais se valeu da pobreza como álibi - nem para si nem para qualquer de seus personagens. Basta reparar, por exemplo, como a origem pobre da personagem-título, “Helena”, não a redime dos pecados da ambição e do arrivismo - querer vencer na vida a qualquer custo. Machado não move a pena, uma linha que seja, para lhe atenuar as faltas: a morte de Helena no fim do romance é a única reparação cabível. O imperativo moral se repete em “A mão e a luva’, na vaidade cobiçosa da moça Guiomar - e também, de resto, em inúmeros de seus contos. Nenhuma limitação de raça ou classe social serviu a Machado de pretexto para o afastar de seus planos, legítimos, de vencer na vida e construir uma obra digna da imortalidade que afinal atingiu. O fracasso parece jamais ter entrado nas cogitações deste obstinado, de férrea disciplina. Alguns dos seus crítico dizem que ele é um ficcionista do mundo burguês, da aldeia carioca e de seus dramas íntimos. O melhor seria Guimarães Rosa, seu antípoda. Enquanto um olha a sociedade de seu tempo e lugar o outro é o épico que vê o sertão como metáfora da condição humana, o mito dos homens sertanejos. E daí? Em “Esaú e Jacó”, Maria Regina oscila de um pretendente para outro, imaginando como ideal “um terceiro homem, que ela não conhecia”, e que seria a soma de ambos. Em “Grande sertão: veredas” Riobaldo tem duas mulheres, Otacília (moça de família,virginal) e Nhorinhá (sedutora, diabólica), e seu fantasma, uma terceira, Diadorim, espécie de síntese das duas, mas uma síntese ao mesmo tempo atraente e atemorizadora. Diadorim socialmente é um homem, Reinaldo. Diadorim se divide entre o amor por Riobaldo e o dever de vingar o pai. As ambivalências sexuais também aparecem em “Dom Casmurro”. Capitu oscila entre Bentinho (e o que ele significa como ascensão social) e Escobar (que exerce atração física). O próprio Bentinho oscila entre ambos, porque ele também sente uma atração reprimida por Escobar. Rosa ou Machado? Ambos estão além dos adjetivos, que são efêmeros. Tornaram-se substantivos. Estes permanecem.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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