Política

Os 40 anos do congresso da UNE que esfacelou o movimento estudantil

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

1968. O ano que não terminou. O ano em que a juventude foi às ruas para se fazer ouvida. O ano que revolucionou o mundo. Mas um ano que também foi marcado pelo retrocesso. Como diria Lenin, “um passo em frente, dois passos atrás”.

Justamente no ano em que a juventude brasileira conseguiu atingir seu mais elevado grau de organização e passou a ameaçar o regime militar, o movimento estudantil sofreu seu maior golpe - tão violento que acabou nocauteado ou pior que isso, esfacelado.

Há exatas quatro décadas, as principais lideranças estudantis do País se reuniram em uma fazenda no município paulista de Ibiúna (região de Sorocaba) para o 30.º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), então ilegal. Além de afrontar a ditadura, o encontro serviria para definir os rumos que a entidade assumiria.

Três correntes rivais se digladiavam pelo poder na entidade: o grupo liderado pelo hoje ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT), chamado Dissidência; o de Jean-Marc van der Weid, apoiado pelo então presidente da UNE, Luiz Travassos, da Ação Popular (AP); e o de Marcos Medeiros, do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, o PCBR.

A nova direção da entidade não chegou a ser escolhida. Eram 7h30 de um sábado, feriado da Padroeira do Brasil. Depois de dias seguidos de chuva, o sol ensaiava aparecer, apesar de uma garoa fina que ainda insistia em cair.

O bauruense Milton Dota, que à época tinha 28 anos, “saboreava” uma barra de chocolate (se é que o termo pode ser considerado apropriado, já que ele e seus companheiros quase não tinham o que comer), enquanto aguardava o início das plenárias do congresso. “O tempo estava bom, os trabalhos estavam para começar e dava a impressão de que o grupo do Zé Dirceu ia ganhar a eleição para a diretoria”, conta ele, hoje com 68 anos de idade.

Ia, mas não ganhou. De repente, Dota ouviu gritos e tiros que cortavam o ar. Em pouco tempo, ele e as demais lideranças estudantis - cerca de 700 pessoas, ao todo - viram-se cercados por um grupo de aproximadamente 200 soldados fortemente armados. “Pensaram que ali havia um foco de guerrilha”, conta o bauruense.

Os estudantes foram detidos e obrigados a caminhar à pé por vários quilômetros, até chegarem à cidade. Depois, foram colocados em ônibus e despachados para o Presídio Tiradentes, na Capital. “Aquilo era pior que uma possilga”, afirma Dota, um dos cinco bauruenses que estiveram presentes ao congresso (ele é o único que continuou morando na cidade).

Aqueles que possam ter enxergado uma ponta de soberba no comentário do hoje advogado e ex-vereador (cargo que ocupou durante quase uma década, no período da redemocratização do País) talvez não façam idéia daquilo que ele teve de passar durante o Congresso de Ibiúna.

“A fazenda onde ocorreu o evento era bonita, tinha até uma cachoeira. Só que a infra-estrutura era precária demais. Não havia banheiro e a gente quase não tinha o que comer. Para dormir, eu e alguns colegas tivemos que improvisar uma cama no chiqueiro dos porcos”, relata Dota.

O chiqueiro, garante ele, era infinitamente mais asseado que o Presídio Tiradentes. “Não tinha nem comparação. Tivemos de ficar amontoados feito animais por quase dois dias naquele lugar (a cela)”, afirma. Dota e os companheiros ainda seriam transferidos para outros lugares, antes de serem finalmente libertados graças a um habeas corpus obtido às pressas, em 12 de dezembro, um dia antes do Ato Institucional Número Cinco (AI-5) entrar em vigor.

Foi sorte. Alguns dos estudantes presos no Congresso de Ibiúna (José Dirceu e Vladimir Palmeira entre eles) não conseguiram obter o habeas corpus a tempo e acabaram tendo de permanecer na cadeia por vários meses, até serem por fim trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Ellbrick, seqüestrado, em 1969, pela Aliança Libertadora Nacional (ALN) e pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8).

Dirceu acabou se exilando no México e em Cuba, e só retornaria ao Brasil em 1971, na clandestinidade. A essa altura, o movimento estudantil já se encontrava completamente esfacelado. Ou melhor, em estado de letargia. No final da década de 70, entidades e grupos ligados à juventude ressurgiriam com força e assumiriam um papel de destaque na redemocratização do País.

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