O radicalismo talvez tenha sido a grande marca do 30.º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Um clima de sectarismo dominou o evento desde o momento de sua organização. “Havia duas correntes antagônicas: uma delas defendia que fizéssemos o encontro em um grande centro urbano ou em um convento; a outra sustentava que a reunião deveria ocorrer em um local isolado”, explica o ex-vereador Milton Dota, que participou do congresso.
As razões para essa discordância eram de ordem teórica. Os que acreditavam que o congresso deveria ser realizado em um grande centro urbano eram ligados à Ação Popular (AP). “Éramos adeptos da ‘luta de todo o povo’. Pensávamos que seria preciso agitar as massas para que elas fizessem a revolução”, explica Dota, que apoiava as idéias da AP.
O outro grupo, ligado a José Dirceu, tinha uma visão mais vanguardista da luta. “Eles acreditavam na Teoria do Foco, de ‘Che’ Guevara, segundo a qual seria preciso estabelecer uma unidade guerrilheira em um lugar afastado a fim de conquistar aos poucos o território e o apoio dos camponeses e, mais tarde dos trabalhadores urbanos”, diz Dota.
A visão dos partidários de Dirceu prevaleceu e o congresso acabou indo para Ibiúna. “Esse foi o grande erro. Acabaram levando todas as principais lideranças do movimento para a boca do leão”, avalia Antônio Pedroso Júnior, o “Chinelo”.
O local escolhido para receber o evento era um sítio que contava com infra-estrutura para lá de precária. Não havia banheiro, nem lugar para os estudantes dormirem. Para piorar, Ibiúna foi atingida por fortes chuvas, e o congresso acabou se convertendo em um verdadeiro lamaçal. Além do mais, não havia mantimentos suficientes para os estudantes.
Isso, inclusive, deu origem a uma versão um tanto mitificada (mas confirmada por Dota) a respeito da forma como a polícia teria chegado ao paradeiro dos estudantes. Segundo consta, o delegado de Ibiúna teria ido até uma padaria comprar pão e foi informado de que todos os mantimentos haviam sido levados por uns “barbudinhos”.
A cena se repetiria em outro estabelecimento, gerando desconfiança no delegado. Se a versão é de fato a verdadeira, ninguém poderá confirmar. Em todo caso, Dota acredita que as chances do congresso ter sido desmantelado seriam menores, caso o encontro tivesse ocorrido em outro local. “Os militares ficariam com receio de agir, pois não saberiam a repercussão que a nossa prisão iria causar junto às pessoas”, pensa ele.
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‘Eu quero esse aqui!’
Milton Dota e seus colegas presos foram encaminhados do Presídio Tiradentes a um lugar na Capital que ele não foi capaz de identificar. Ali, foram fichados e indiciados. “Havia um investigador chamado Celso Telles, que era de Bauru. Ele chegou para mim e disse: ‘Fica tranqüilo que vou dar um jeito de te tirar daqui’”, conta.
Dota acabou levado a uma sala, onde permaneceu aguardando uma solução para seu caso. “Por ali, passavam autoridades e vi um oficial da Aeronáutica apontar para uma foto do Jean-Marc van der Weid - candidato à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE) - e dizer: ‘Eu quero esse aqui’”, diz.
Jean-Marc foi mais astuto que os militares e, com ajuda dos companheiros de cela, conseguiu se disfarçar a tempo. Em vez de ser mandado para o Rio de Janeiro, onde, talvez, poderia vir a ser executado, ele acabou sendo levado para o Paraná. No caminho, o líder estudantil fugiu e entrou para a clandestinidade.
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A rebelião
Depois de prestar depoimento ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Milton Dota e outros 11 companheiros de movimento estudantil foram levados para o Presídio do Carandiru, na zona norte da Capital, onde permaneceu por 38 dias. “Éramos muito respeitados pelos presos. Eles reconheciam a importância de nossa luta”, afirma.
Durante o período em que esteve no presídio, ele e os colegas estudantes quase deram início a uma rebelião, ainda que de maneira não intencional. “A ‘bóia’ dos presos costumava vir naqueles tambores usados de óleo diesel. Certo dia, havia peixe no cardápio e um dos estudantes, que era médico, percebeu que a comida não estava em boas condições de consumo. Além de não comer, avisamos o pessoal da cela vizinha. Em pouco tempo, todo o presídio estava em polvorosa por causa da notícia”, conta Dota.
Embora tenha despertado a ira o diretor do presídio, o evento acabou noticiado pela imprensa. Os estudantes receberam a visita do senador do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) Mário Martins, que prestou solidariedade a eles.
Mais tarde, os estudantes seriam transferidos para Jundiaí, até serem soltos em 12 de dezembro daquele ano, às vésperas do dia em que o Ato Institucional Número Cinco (AI-5) entrou em vigor.