Articulistas

País que não honra os professores


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Seria um truísmo afirmar que o professor é uma figura importante do processo educacional. Truísmo ou não, nossas autoridades ainda não se deram conta disso. A cada dia, relega-se o professor a um plano inferior, quase pejorativo. É isso mesmo, pejorativo, desfavorável. Quem, atualmente, pretende enveredar pela espinhosa e mal paga profissão de educador? Só mesmo um desavisado ou alienado. Tomar tabefes de aluno, servir de chacota, quando não, ser até vítima de arma de fogo, tornou-se uma prática meio rotineira. Não se admite mais uma simples negativa, uma repreensão, uma palavra de contestação, porque, nesta época de permissividades, é válido desrespeitar, passar por cima de conselhos, dar de ombros para qualquer regra de civilidade.

Nem vou me atrever a relembrar as reverências, a consideração de que os professores eram alvos nos tempos mais antigos. Falar em passado para essa mocidade é cair no ridículo. Num mundo em que só o agora tem significado, evocar valores de ontem é querer ser ridicularizado.

Seria, entretanto, parcial ou facciosa se dissesse que é só o aluno, ou só os pais dos alunos, hoje em dia, que desmoralizam o professor. Esse onipotente e pretensiosamente onisciente Estado é o primeiro a desconsiderar a educação e, por conseqüência, o professor, preferindo dedicar-se a setores que geram frutos mais imediatos. Construir pontes majestosas, edifícios faraônicos, estradas, distribuir esmolas aos carentes, fazer transposição de rios, isso produz impactos diretos e faz crescer a admiração dos incautos. Já a educação, essa, só vai se refletir nas gerações vindouras. E o político não pode esperar.

Assombra-me quando leio nas revistas e jornais estudos sobre a educação e anoto dados positivos referentes aos salários do professor. Um desses articulistas, o conhecido Gustavo Ioschpe, aliás, tão endeusado pela Veja presumivelmente por fazer parte de seu corpo editorial, tem um prazer quase maquiavélico em reduzir o professor a números. Para a sua ótica estatística, americanizada, o professor não tem do que se queixar. Já cheguei a enviar uma cartinha à Veja que, por razões óbvias, não foi publicada, indagando se o professor é assim tão bem remunerado, por que Ioschpe não abandona seus números e porcentagens e vai dedicar-se ao magistério?

Num dos últimos boletins da Associação de Professores Aposentados do Magistério Público de São Paulo (Apampesp) há um artigo muito procedente da presidente desse órgão mostrando o descaso do governo paulista para com essa classe cada vez mais desprestigiada. Como se não bastassem os salários de fome de quem está na ativa, agora - observem mais este golpe! - um projeto, em análise na Comissão de Constituição e Justiça, define as regras para o novo sistema de remuneração por desempenho, visando conceder um bônus, exclusivamente para os profissionais da ativa. Caso o professor se aposente não receberá o tal bônus, que, da forma como está sendo instituído, não passa, na melhor das hipóteses, de um agradinho muito mixuruca, e, na pior das hipóteses, de uma esmola. Ressalte-se: se essa “benesse” governamental não atinge os aposentados, esse projeto deve ser revisto, reexaminado.

Convenhamos, caro leitor, um País que se preza não pode tratar seus professores com tamanho descaso, principalmente São Paulo, um Estado que alavanca o Brasil. Como se já não bastasse, Fernando Henrique, num ato sumamente infeliz e desabonador, ter chamado os aposentados de “vagabundos”, agora o governador, numa atitude igualmente constrangedora, consente em alijar os professores inativos de um programa social que pretensiosamente se diz inclusivo.

Esta exposição não é nenhum preâmbulo de monografia ou de qualquer trabalho acadêmico, por isso, não nos preocupa a exposição científica de dados sobre os direitos do aposentado e os deveres do Estado em relação ao mesmo. Basta-nos apelar tão somente ao bom senso de cada um para perceber que aquele que já cumpriu com profissionalismo e dedicação os anos necessários para merecer a aposentadoria, não pode ser ignorado pelos governantes. O aposentado “ainda” está vivo e, como cidadão, tem o direito de alimentar-se, vestir-se, cuidar da saúde, buscar por lazer. Não creio que, a exemplo de alguns regimes totalitários, estejamos pretendendo o retorno àquelas políticas de eugenia que desejavam o extermínio de certos estamentos sociais. Que bobagem! Desconsiderem esta última oração. Como pude pensar numa tolice dessas...

Que certos governantes desprestigiem a educação por não alcançar o significado dela, até dá para entender! Mas, num Estado como São Paulo, com um governador intelectual, douto, graduado, isso é, no mínimo, imperdoável!

A autora, Maria da Glória De Rosa, é colaboradora de Opinião - e-mail: mg-de-rosa@hotmail.com

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