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Triste mensagem das urnas


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Ao término da apuração dos votos, todos buscam com voracidade o que as urnas dizem acerca dos candidatos e partidos: Quem são os vencedores? Quem são os perdedores? Que partido ou coligação conquistou o maior número de vagas? Quem foi o mais votado? E por aí vai ... Há, porém, outras informações que, infelizmente, são esquecidas pela imprensa e pelos próprios eleitores: são os números que demonstram a dinâmica do eleitorado e o triste caminho de nossa democracia, cada vez mais esmaecida pela pungente crise de consciência que se instala na sociedade.

O distanciamento do eleitorado das questões políticas aumenta de forma lenta e constante, sempre alimentado pelo enxovalho dos incessantes escândalos e pela crença generalizada na impunidade. Mas quais seriam os resultados práticos e mensuráveis desse fato? Podemos observá-los consultando os números da eleição? Claro que sim! Apesar do silêncio de todos, os números são expressivos e demonstram uma verdade matemática.

Em Bauru, quando se compara o 1º turno das eleições de 2004 com o 1º turno de 2008, vê-se, sem surpresas, o seguinte: as abstenções saltaram de 15,64% para 16,35% do eleitorado; os votos brancos, naquela oportunidade, representaram 2,32% para prefeito e 4,68% para vereador, ao passo que, em 2008, representam 3,49% para prefeito e 5,90% para vereador; os votos nulos, em 2004, equivaliam a 4% para prefeito e 3,31% para vereador, em 2008 representam 5,40% para prefeito e 4,35% para vereador. Resumidamente, os números dizem que, apesar de menos pessoas comparecerem às urnas, mais pessoas votam em branco e nulo, o que significa claramente um movimento popular de descaso com a participação política. O resultado não poderia ser diferente: na contramão do aumento do eleitorado, o quociente eleitoral diminuiu. Um partido político ou coligação, em 2004, precisava de 11.288 votos para obter uma vaga em nossa Casa Legislativa, o que equivalia a 5,17% do total de eleitores aptos; foram necessários, em 2008, apenas 10.963 votos para obter a mesma vaga, o que equivale a apenas 4,69% dos eleitores aptos. Conclusão: os partidos precisam de menos apoio popular por vaga obtida.

O lamentável cenário político nacional, ao invés de instilar no eleitor um ímpeto de cobrança e vigilância mais sofisticado e aguerrido, o afasta da vivência política e, como conseqüência, facilita a vida daqueles que fazem da improbidade e do crime elementos corriqueiros em suas carreiras públicas (se é que se pode chamar de carreira uma seqüência infinita de manobras marcadas pela imoralidade e ilegalidade). A revolta do eleitor, se continuar produzindo apenas a sua inércia política, terminará por alimentar o sistema contra o qual ele se insurge, fazendo com que o cidadão seja a única vítima dessa “insurreição” que, curiosamente, fortalece o mal político.

Segundo o velho adágio, “as palavras convencem, os exemplos arrastam”. Como se pode ver a partir dos números, as palavras dos nossos políticos convencem cada vez menos (aumento de votos brancos e nulos), e seus exemplos, da mesma forma, já não arrastam as pessoas como antes (aumento de abstenções). Haverá reversão da tendência que ora se apresenta?

Em face dessa realidade matematicamente mensurável, seria de se esperar que a reforma política em trâmite no Congresso Nacional levasse em conta que a crise política que demanda providências é, sobretudo, uma crise de consciência política. Não obstante, nada disso está em pauta nas discussões. Quando terminar mais esse leilão legislativo, teremos apenas um novo amontoado de complexas leis desconhecidas daqueles que a utilizam, e, seguramente, elas não impedirão que os escândalos afastem os eleitores da política e que esse afastamento facilite a vida dos que produzem tais escândalos.

A julgar pelas tendências estatísticas do eleitorado, continuaremos entre os países que encabeçam os rankings dos mais corruptos, das piores distribuições de renda, dos piores níveis culturais, da prostituição infantil, do tráfico de animais, da baixa produção científica etc. Tudo, é claro, com a bênção do cidadão desatento, inerte, longe de tais questões, e que, em breve, estará entre os piores eleitores do planeta, apesar de possuir o sistema de votação mais evoluído que existe. De fato, somos a nação dos paradoxos.

O autor, Luciano Olavo da Silva, é bacharel em direito, especialista em direito eleitoral e analista judiciário da Justiça Eleitoral

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