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Quatro já receberam órgãos de Eloá

Por Ricardo Westin | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Santo André - Quatro pessoas foram operadas ontem na cidade de São Paulo para receber parte dos órgãos da estudante Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, morta com um tiro na cabeça após ter sido mantida refém por cem horas pelo ex-namorado em Santo André (Grande São Paulo).

O número de beneficiados deverá chegar a sete, já que outros três transplantes deverão ser realizados nos próximos dias. Ainda não se sabe quem serão os beneficiados.

O coração de Eloá foi colocado no peito de Maria Augusta Silva dos Anjos. Por coincidência, o transplante foi no dia em que Maria Augusta completou 39 anos. Ela morava em Ananindeua (PA) e se mudou para São Paulo no ano passado, para aguardar o transplante. Ela nasceu sem o lado direito do coração e, por isso, não conseguia fazer nenhum tipo de esforço físico sem ter falta de ar. Em razão do problema, a paciente não podia trabalhar.

“Para nós, foi ao mesmo tempo triste e alegre”, disse Maria Adriana Batista, uma das irmãs de Maria Augusta. “Alegre porque ela finalmente recebeu o coração. E triste por causa da morte de Eloá e do sofrimento da família dela.”

Assim que o coração de Eloá foi retirado, na madrugada de anteontem, no Centro Hospitalar do Município de Santo André, a equipe do hospital Beneficência Portuguesa começou a cirurgia para extrair o órgão defeituoso de Maria Augusta.

O transplante durou cerca de uma hora e foi conduzido por José Pedro da Silva, o mesmo cirurgião que, em 2001, transplantou o coração de Marcelo Fromer, guitarrista do Titãs, num aposentado e, em 2003, realizou o transplante cardíaco do ator Norton Nascimento. Segundo o boletim médico emitido anteontem à tarde, Maria Augusta se recuperava bem.

No caso dos outros três transplantes realizados anteontem, os familiares não permitiram que os nomes dos pacientes fossem divulgados. Também na Beneficência Portuguesa, um homem de 25 anos passou por um duplo transplante à tarde. Recebeu primeiro o rim esquerdo de Eloá e depois o pâncreas. Ele havia tido insuficiência renal por causa de um diabetes.

Na Santa Casa de São Paulo, uma menina de 12 anos submeteu-se a uma longa cirurgia para receber o fígado da adolescente de Santo André. O transplante começou pouco depois das 8h e não havia terminado até a conclusão desta edição. Segundo o hospital, ela passava bem durante o procedimento.

Os pulmões de Eloá foram transplantados por médicos do Instituto do Coração (InCor) numa jovem de 18 anos que sofria de fibrose cística (doença congênita que compromete a respiração). O procedimento começou na madrugada, às 2h. Os pulmões chegaram após três horas. O transplante terminou perto do meio-dia. De acordo com o InCor, o estado de saúde da paciente à tarde era estável.

Mais três receptores faltam ser transplantados o rim direito e as duas córneas de Eloá. Nesta noite, o rim passava por exames para determinar o receptor ideal e as córneas eram tratadas para ficar em condição de transplante.

Assim que se diagnosticou a morte cerebral de Eloá, no final da noite do sábado, os médicos procuraram a família para explicar a importância da doação de órgãos. No início, a mãe dela teve dificuldades para entender que a filha já não vivia, mesmo com o coração batendo. A família só deu concordou com a doação na manhã seguinte.

As filas de transplante são administradas pelos Estados. As cirurgias são pagas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

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Velório atrai 8 mil pessoas

Santo André - O corpo de Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, chegou ao cemitério Santo André, na Vila Progresso, por volta das 15h de ontem. Escoltado por policiais militares, o carro funerário que carregava o caixão branco da garota foi aplaudido por uma multidão de 2 mil pessoas formada por curiosos, amigos de escola de Eloá e conhecidos da família.

Segundo estimativa da Polícia Militar, até o final da tarde, 8 mil pessoas estiveram no cemitério, onde ocorreu o velório. O salão onde a menina foi velada só foi aberto ao público pouco antes das 17h, após a entrada dos familiares e da imprensa.

Abatida, a mãe de Eloá, Ana Cristina Pimentel da Rocha, chegou ao cemitério com parentes por volta de 16h20 e ficou sentada ao lado do caixão da filha, cujo corpo estava escondido por pétalas rosas e amarelas. A cabeça da menina estava coberta por um lenço branco. Ana Cristina disse que só falaria com a imprensa hoje, após o enterro da filha, marcado para as 9h.

Em fila indiana, pessoas que aguardavam para ver a adolescente desde o início da manhã foram orientadas por policiais militares a não parar na frente do caixão. Mas muitas tiravam fotos. Na fila havia mães com bebês de colo e crianças. Em muitos momentos houve tumulto. Duas pessoas passaram mal e foram levadas por ambulâncias para hospitais. “Virou um circo. Isso tudo é culpa da mídia”, reclamava a desempregada Iraci Souza de Queiroz, 48 anos, vizinha da família de Eloá e que ficou as 100 horas que durou o cárcere privado impedida de sair de casa. Ela se espremia na fila já fazia duas horas.

Colegas de classe de Eloá carregavam botões de rosas nas mãos e choravam, enquanto cantavam a canção preferida da menina. “Ela era perfeita, muito doce. Sempre que alguém precisava, ela ajudava”, conta, emocionado, Douglas Wallacy Ricardo, 15 anos. O adolescente fazia parte do grupo de trabalho que se reunia na casa da menina no momento em que Lindemberg Fernandes Alves invadiu o apartamento. Uma dor de cabeça fez com que ele fosse para casa.

Nayara chora

A adolescente Nayara Rodrigues da Silva, 15 anos, foi informada na manhã de ontem sobre a morte da amiga. Segundo o secretário da Saúde da cidade, Homero Nepomuceno Duarte, a menina chorou e disse que sabia que a amiga poderia morrer.

A notícia foi dada a Nayara por uma equipe de psicólogos. A garota, que foi ferida por um tiro no rosto, terá alta amanhã. Hoje, ela passará por um procedimento para retirar um aparelho instalado no céu da boca. De acordo com os médicos, ela não deve ter seqüelas.

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