Tribuna do Leitor

Os vestibulandos e a engenharia


| Tempo de leitura: 4 min

A Engenharia brasileira, cuja história remonta ao final do século XVIII, viveu seu período de ouro de 1920 ao final da década de 1970. Foi um período marcado pela liderança brasileira na tecnologia do concreto armado, de forte desenvolvimento no setor elétrico, de muito investimento em rodovias, saneamento básico e abastecimento de água.

Segundo estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil possui hoje seis engenheiros para um grupo de cem mil pessoas economicamente ativas, enquanto que nos países europeus e asiáticos esta média oscila entre vinte e cinco e trinta.

Os Conselhos Federal e Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CONFEA e CREA) registram a existência de quase quinhentos mil Engenheiros no País. Por ser um profissional de amplo espectro, nem todos exercem a parte mais específica ou técnica de sua formação; muitos se realizam na informática, administração ou gestão e finanças. Esta migração foi mais acentuada nas décadas de 80 e 90, quando a Engenharia desandou e desabou em meio à estagnação econômica brasileira.

O Engenheiro Metalúrgico Odil Garcez Filho, formado pelo Mackenzie e que virou “suco” foi o símbolo desta época. Sua lanchonete na Avenida Paulista, quase esquina com a Rua Brigadeiro Luiz Antônio já era toda informatizada e avançada para a época. Infelizmente em 1987, já padecendo de grave enfermidade foi obrigado a fechá-la, no entanto, sua mulher, a Engenheira Neide Correa Garcez conta que o casal já guardava dinheiro para abrir uma filial que teria o nome: “o Engenheiro que virou suco... e deu certo”. Bons profissionais desta época, também deram certo em áreas correlatas, hoje são diretores de multinacionais e até presidentes de bancos, como acontece com o Engenheiro Civil Henrique Meirelles.

O número de Engenheiros que formamos atualmente - quase vinte mil por ano – não é suficiente para atender a demanda do setor produtivo e permitir ao País alcançar padrões mais sólidos e sustentáveis de desenvolvimento. O Brasil precisaria de mais trinta mil Engenheiros por ano, porque a Engenharia e o desenvolvimento caminham juntos; é o Engenheiro quem gerencia o progresso. O entrave ao nosso crescimento é, em grande parte, causado pela carência de Engenheiros; gente especializada em infra-estrutura, saneamento, obras industriais, telecomunicações, petróleo e gás; gente que agregue tecnologia aos produtos agrícolas que exportamos.

Essa carência não é exclusividade brasileira. Os Estados Unidos precisam de cem mil Engenheiros por ano, formam setenta mil e buscam o restante no Exterior. França, Áustria, Japão e Alemanha estão ficando sem Engenheiros, no entanto, foi o talento na Engenharia que fez estas Nações superarem as dificuldades do pós-guerra e se tornarem superpotências. Procuram o concurso destes profissionais na China, Índia e, inclusive no Brasil, selecionando nossos melhores alunos para um estágio no Exterior e, infelizmente para nossa sociedade, oferecendo-lhes a dupla diplomação.

Estudo feito pela CNI em 2007 mostra carência de Engenheiros Civis, Eletricistas, Eletrônicos e Mecânicos. Em quinto lugar, indica a necessidade de Engenheiros pesquisadores com mestrado e doutorado; depois aqueles ligados ao setor agropecuário e, na seqüência, os Engenheiros de Produção, o Químico e o Ambiental.

A análise da relação candidato/vaga dos grandes vestibulares mostra que a preferência dos jovens, contudo, recai sobre os cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Internacionais, Hotelaria, Gastronomia, Medicina, Biotecnologia, entre outros. Ouso dizer que a crônica falta de procura pelas licenciaturas, principalmente, em Física, Matemática e Química é uma das causas das dificuldades nestas disciplinas e do conseqüente desestímulo dos vestibulandos pela Engenharia.

Levantamento feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) apontou um déficit de quase oitocentos mil professores junto à rede pública de ensino, principalmente, no Ensino Médio. Oferecer cursos de graduação à distância para suprir esta deficiência, como propõe a Secretaria do Ensino Superior, com o aval das três Universidades do Estado, não é a solução. É agravar o problema; o ensino a distância é uma ferramenta que precisa ser usada com muito cuidado senão o conhecimento torna-se inacessível de tão distante. Melhor seria valorizar a carreira docente. Mas, enfim, não teremos Engenheiros sem um bom e motivador ensino básico, mormente em Matemática, Física e Química.

Além da aptidão para os números, o longo curso de Engenharia, ao exigir pesada jornada de estudos e, praticamente, dedicação integral, deve em contrapartida motivar o aluno fazendo uma ligação mais “visível” entre as atividades teóricas e práticas. Por isto, a solução para este “apagão” de Engenheiros passa, também, pela Universidade. Sem deixar o embasamento teórico firme ela precisa se aproximar mais das demandas do mercado; sem deixar de lado os aspectos técnicos, colocar ênfase no trabalho em equipe, na capacidade de liderança e de gerenciamento de projetos complexos e, por isto, multidisciplinares. De maneira geral, nesta área, a Universidade é pouco participante do processo de geração e inovação tecnológica e tem dificuldades para acompanhar a indústria, pois, os laboratórios exigem atualização constante e pesados investimentos.

Atualmente nossos alunos do último ano precisam optar entre três ou quatro ofertas de estágio e/ou emprego e, como conseqüência, as empresas disputam, com a própria escola, os quartanistas. Dizem que Engenheiro com experiência e prestes a se aposentar, “vale ouro”... mas, isto, depois lhes conto!

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

Comentários

Comentários