Conseguir um emprego não é fácil para a maioria das pessoas. Mas se o candidato tiver entre 15 e 29 anos, ser contratado pode ser ainda mais difícil. Que o diga Roberto Carlos Pereira de Souza, 24 anos, que está há um ano em busca de um espaço no mercado de trabalho. Ele é uma das 9.527 pessoas em Bauru nessa faixa etária, considerada a mais problemática quando o assunto é desemprego.
Segundo análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a taxa de desemprego entre os jovens é de 14%, número três vezes maior se comparado com o índice entre os adultos, que é de 4,8%. E a estatística se torna ainda mais preocupante se considerado o fato de que a população juvenil vem decrescendo sistematicamente nos últimos anos.
Em Bauru, a porcentagem da população de jovens entre 15 e 29 anos reduziu de 26,03%, em 2007, para 25,62%, neste ano, conforme dados da Fundação Seade. No Brasil, os jovens correspondiam a 29% da população nos anos 1980 e, pela projeção da Diretoria de Estudos Sociais do Ipea, devem cair a 19,1% em 2050.
A análise do Ipea demonstrou que, nos últimos 15 anos, as condições de vida juvenil melhoraram em diversos aspectos: formalização do trabalho, escolarização, queda do analfabetismo e queda nas diferenças de gênero e raça. Mas ainda há muito o que avançar.
E Roberto sabe disso. No último ano, ele só conseguiu ganhar algum dinheiro com trabalhos temporários, mas nenhum emprego fixo. “O que aparecia, eu fazia. Fui servente, garçom, montador de calçados. Tem que correr atrás, porque é muito difícil conseguir serviço”, conta.
Depois de bater de porta-em-porta em busca de uma oportunidade, agora ele aguarda uma chance de efetivação em uma empresa da cidade. Se tudo der certo, esta será a segunda vez que trabalhará com carteira assinada.
Para o diretor regional da Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho (Sert) em Bauru, Alexandre Ciro Perin Bertoni, o principal entrave para o ingresso do jovem no mercado formal de trabalho é a falta de experiência profissional. Em um momento da economia em que a especialização é cada vez mais exigida, ser admitido por uma empresa é das tarefas mais complexas.
“Para o jovem, isso se transforma em um dilema: como ele vai ter experiência se não consegue emprego?”, questiona. “E isso se dá em meio a um mercado de trabalho extremamente competitivo, já que a evolução das tecnologias está acabando com muitos postos de trabalho e exigindo uma mão-de-obra cada vez mais especializada para operar essas novas máquinas”, complementa.
Bertoni cita programas do governo, como o Jovem Cidadão, que poderiam resolver parte do problema através da oferta de estágios em empresas parceiras. No entanto, a iniciativa ainda está centrada na Grande São Paulo e não foi implementada em Bauru. “É um programa que queremos trazer para cá até o final do ano”, revela.
Comércio
Na avaliação do secretário de Desenvolvimento Econômico, Walace Sampaio, o jovem bauruense enfrenta menos dificuldades que os que vivem nos grandes centros industriais. Isso porque o comércio varejista – principal atividade econômica da cidade – oferece mais vagas para quem não tem nenhuma experiência anterior.
No entanto, em se tratando de um país pobre como o Brasil, ele avalia que investimentos do poder público em escolas profissionalizantes e cursos técnicos continuam sendo essenciais para propiciar maior qualificação da mão-de-obra juvenil. “Os jovens de baixa renda não têm acesso a um ensino mais compatível com o mercado. Por isso, acredito que a saída é ir além e repensar todo o sistema de ensino formal, que não contempla o dinamismo do mercado de trabalho”, afirma Sampaio.
A análise do Ipea, publicada na semana passada na “Pnad-2007: Primeiras Análises (volume 4) - Educação, juventude e raça”, revela que cerca de 30% dos jovens brasileiros vêm de famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo. Tratam-se de 14 milhões de jovens vivendo com menos de R$ 208 mensais.