Economia & Negócios

Com crise mundial, comércio já sente retração no consumo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

A crise financeira mundial não está mexendo apenas com as bolsas de valores, mas também com a confiança das pessoas. De maneira geral, elas estão apreensivas em assumir compromissos que envolvam despesas a longo prazo, principalmente aquelas que comprometem uma considerável parte de suas rendas mensais por muitos anos, como são os casos específicos de financiamentos para a compra de bens com maior valor agregado.

Embora não sejam imediatos, em alguns segmentos os reflexos da crise já são evidentes, como no comércio de veículos novos e de produtos importados. Em uma concessionária de motocicletas da cidade, a retração no consumo chegou a 20% em menos de um mês.

Na prática, o índice significa queda acentuada nos negócios. “Além do receio dos consumidores, os bancos também restringiram o acesso ao crédito em torno de 40%. Eles se tornaram muito mais rigorosos na avaliação dos cadastros, por medo de inadimplência”, revela o gerente da loja, Marcelo Estevão.

Ele destaca que, entre as principais mudanças impostas pelos agentes financeiros, também estão o aumento das taxas de juros, de 1,8% para 2,6% ao mês, e a exigência de pagar um determinado valor como entrada para obter o financiamento.

“Para as motos zero quilômetro, os bancos estão pedindo 20% do valor como entrada. E o acesso ao crétido está mais difícil para quem quiser fazer o financiamento dentro do prazo máximo, de 48 vezes”, explica. Em uma revenda de automóveis, a situação só não é a mesma porque algumas montadoras estão subsidiando as taxas de juros para que os clientes não sintam no bolso o peso dos problemas do mercado financeiro internacional. Com isso, algumas marcas de carros podem ser adquiridas por parcelas com apenas 0,99% de acréscimo ao mês.

Para os demais modelos, a taxa média de juros, que antes oscilava a 1,53%, agora gira em torno de 1,85%. E os financiamentos em 72 parcelas foram suspensos, com redução para pagamento em, no máximo, 60 meses.

“Ainda não sentimos redução nas vendas, mas se as montadoras tirarem esse subsídio do mercado, com certeza haverá reflexos negativos. As indústrias estão tirando parte da margem de lucro delas porque esta é a única forma de continuarem a vender”, aponta o gerente de vendas Fernando Vieira de Mello.

Para o comércio varejista de produtos importados, a instabilidade econômica provocada pela flutuação cambial também é preocupante. De acordo com o empresário César Prando, sócio-proprietário de um estabelecimento do ramo, alguns itens como vinhos, uísques, azeites, frutas secas e bacalhau estrangeiros já foram reajustados em 11%, devido ao encarecimento do preço cobrado pelos fornecedores.

“As compras (de mercadorias) que forem feitas a partir de agora terão os preços totalmente influenciados pela variação do dólar, mas estamos ‘segurando’ ao máximo os preços antigos”, diz. Frente à situação atípica e cheia de possíveis imprevistos, o empresário pretende reduzir a compra de produtos em 20% até o final do ano. “Se o dólar continuar subindo, outros reflexos virão, principalmente de retração no consumo. Já estamos prevendo essa insegurança do consumidor”, analisa.

À vista

Face à condição crítica que o mundo atravessa, o economista Wagner Ismanhoto recomenda cautela. No entanto, para quem está programando comprar um veículo à vista, ele avalia que o momento pode ser bastante oportuno.

“Como o volume de vendas diminuiu, naturalmente começa a sobrar mercadoria e os preços caem. É a lei da oferta e da procura. E, com o mercado parado, o preço dos automóveis realmente está baixando”, diz.

Segundo ele, como as taxas de juros estão mais altas, o mais correto no momento é evitar o financiamento e não se empolgar com as promoções que as concessionárias já começam a oferecer. “São ações para recuperar as vendas que elas estão perdendo, mas nem sempre a oportunidade é tão imperdível quanto parece”, adverte Ismanhoto, lembrando que, em momentos de crise, não é possível prever como o emprego e também a renda das pessoas serão afetados. “Por enquanto, a economia brasileira está se comportando bem em comparação a outros países, mas não sabemos até quando. O consumidor que não puder comprar à vista deve esperar”, complementa.

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