Com todos os defeitos, a democracia é a melhor forma de governo, disse-me um amigo. Pensei no presidente Thomas Jefferson afirmando: prefiro os inconvenientes decorrentes do excesso de liberdade, às decorrentes de um grau muito pequeno dela. A frase foi dita em 1808, quando Napoleão era dono do mundo, mas não conseguiu impedir a fuga da família real portuguesa para o Brasil, escoltada por quatro navios ingleses, enquanto os tablóides faziam piadas usando caricaturas de um frustrado Boney, como era chamado o imperador. Duzentos anos se passaram. O Brasil colônia tornou-se monarquia, república e continua com problemas enormes.
Como todos, tenho meditado sobre as questões mundiais e seus efeitos em nosso país. O assunto do momento, as eleições municipais, também me deixa sem sono. O desejo ingênuo de eleger um candidato e receber dele uma compensação abre caminho para realidades preocupantes. O eleito pode promover medidas desagradáveis. Talvez o morador da periferia não tenha um posto de saúde perto, talvez enfrente filas em busca de uma consulta ou de uma vaga na escola. Conseguir o que se quer nas democracias modernas não é fácil e depende de consenso entre os cidadãos e seus representantes, ou seja, decisão tomada através do diálogo. Duas ou mais partes discordam, cedem e concordam deliberando algo diferente do ponto de vista de partida, uma nova solução, com benefícios e perdas comuns. Simplificando, consenso pode ser chamado de um acordo entre os interessados e isso demanda tempo. Essa é uma das razões para os governos democráticos fazerem mudanças com tanta lentidão.
No caso de uma eleição existe um conflito de interesses, então o problema é resolvido através da urna. Votação não é sinônimo para consenso e nem para bom senso. Gosto pessoal, critérios de formação moral, ideológica ou religiosa e outros itens mais estão presentes na escolha, assim a votação é uma metodologia para se obter um resultado. O consenso é algo a ser buscado após as eleições, o momento para se exercitar a arte do possível, pois o governo nunca será capaz de dar a todos os cidadãos o que eles querem. Nesse caso, o bom senso pode funcionar de forma eficiente... eis o desafio.
A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC