Política

Política não se restringe às eleições

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Uma das marcas das eleições municipais deste ano (em Bauru, pelo menos), tem sido a falta de mobilização do eleitorado. Os candidatos demoraram a sair às ruas e os eleitores só se mostraram empolgados com a discussão alguns dias antes do pleito.

Para o cientista político Rodrigo Cesar Moura, o problema não está na ausência de mobilização no período da campanha, mas sim na falta de participação das pessoas comuns nas outras épocas do ano. “O Estado não permite que os eleitores tenham acesso aos espaços de discussão. Isso é uma questão que vai além de partidos ou ideologias. O brasileiro, em geral, costuma ficar alheio à política”, diz.

O ex-deputado estadual Roberto Purini, na política desde 1962, lembra que os partidos políticos existentes antes do golpe de 64 costumavam ter mais ligação com as pessoas comuns. “Eles representavam campos ideológicos distintos”, afirma.

Na visão de Moura, a tão propalada reforma política não seria suficiente para criar espaços de participação para o cidadão comum. “Da forma como está sendo proposta, de cima para baixo, de pouco ela valeria”, pensa.

Ele critica a proposta, feita por certas lideranças, de se diminuir a quantidade de partidos políticos no Brasil. “Tentam vender a idéia de que essas agremiações passariam a fazer sentido para eleitor - sentido que hoje não possuem -, caso tivessem seu número reduzido. Na verdade, a democracia brasileira é personalista e isso não representa um demérito para ela”, argumenta.

A cientista política Maria Teresa Kerbauy, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), lembra que, embora exista uma grande quantidade de agremiações políticas no País, apenas um pequeno número delas tem relevância para o eleitor. “Existem seis ou sete partidos que se destacam - seja nas eleições ou nos parlamentos. Os demais ficam a reboque dos grandes”, afirma.

O professor Gerson Trevisani, o Duda, diretor do Grupo Preve, acredita que algumas mudanças pontuais poderiam ser feitas para aperfeiçoar o sistema político brasileiro. Ele é favorável, por exemplo, à instituição do voto distrital, medida que serviria, na visão dele, para aproximar o cidadão de seus representantes.

Na opinião dele, uma mudança na mentalidade de candidatos e ocupantes de cargos públicos poderia ajudar a aproximar o cidadão comum da discussão política. “A corrupção criou nas pessoas uma forte rejeição com relação à política. É claro que esperar uma mudança tão radical como esta (dos políticos) é o mesmo que sonhar. Afinal, vivemos no país do oportunismo”, pondera.

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Duas regras

Os candidatos Caio Coube (PSDB) e Rodrigo Agostinho (PMDB) manifestaram posições um tanto distintas quando questionados pela reportagem a respeito das eleições deste ano serem realizadas em dois turnos.

Na opinião do peemedebista, esse formato de disputa dá mais legitimidade ao candidato escolhido. “Eleição em dois turnos permite que o vencedor conte com apoio da maioria absoluta dos eleitores”, disse Rodrigo.

Candidato mais votado do primeiro turno, com 71.920 votos (40,39% do total), Caio foi reticente ao comentar sobre o assunto. “A única coisa que questiono é o porquê de existirem duas regras para escolha de prefeito no Brasil. Por que nas cidades com menos de 200 mil eleitores a escolha ocorre em apenas um turno e nas maiores é preciso que se realize segundo turno?”, questionou.

Ele não deixou claro se estava criticando o fato de os moradores das cidades menores não terem a chance de fazer a escolha do prefeito em dois turnos ou se estava lamentando por ter sido o mais votado em 5 de outubro e, ainda assim (por conta da regra), ter de enfrentar uma nova disputa.

Em Reginópolis, município com pouco mais de 4.200 eleitores localizado a cerca de 70 quilômetros de Bauru, o candidato vencedor, Marco Antônio Bastos Martins (PSDB), obteve apenas 42 votos a mais que a segunda colocada, Carolina Araújo de Souza Veríssimo (PMDB). O tucano acabou com 42,86% do total contra 41,69% da adversária.

“Idealmente, seria desejável que todas as cidades, grandes e pequenas, pudessem escolher seu prefeito em dois turnos. Se isso fosse feito, porém, acabaria por acarretar em despesas imensas para a Justiça Eleitoral”, avalia o cientista político Rodrigo César Moura.

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