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Deficiência não impede desejo sexual

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Debater o tema ‘sexualidade’ ainda é tabu para grande parte das pessoas ditas normais. Mas quando o assunto passa para o universo dos portadores de síndrome de Down, lidar com a questão fica ainda mais difícil, porque vem acompanhada de uma série de mitos e preconceitos. Entre eles, a falsa crença de que essa parcela da população é assexuada ou hipersexuada.

“Na verdade, as famílias têm muito medo de que os deficientes entrem em contato com o próprio corpo. Como conseqüência, eles acabam experimentando o prazer sozinhos em casa, de forma privada e sem orientação”, observa a psicóloga Priscila Foger Marques, da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

Seja por falta de informação ou despreparo, o fato é que uma grande parcela dos deficientes enfrenta barreiras duríssimas para vivenciar relacionamentos e a experiência erótica. A assistente social da Apae, Cátia Aparecida Cardoso Teixeira, observa que muitas famílias têm dificuldade em aceitar que o portador de necessidades especiais também tem desejos.

“Por mais que a gente tente esclarecer as famílias, ainda existe preconceito e um medo muito grande sobre o que pode acontecer caso eles permitam essa experiência”, analisa.

No entanto, segundo Priscila, nas famílias que apóiam ou permitem o namoro e relacionamentos amorosos, o exercício da sexualidade ocorre de forma natural. Nesses casos, é fundamental orientar, educar e acompanhar o cotidiano do portador da síndrome. “Quando esse direito é garantido, os comportamentos inadequados em público simplesmente desaparecem”, esclarece.

As profissionais da Apae explicam que, para que possam viver a sexualidade, é importante que ela esteja adequada ao comportamento dos deficientes. Isso porque os portadores da síndrome tendem a ter mais dificuldades de entendimento das regras sociais que as pessoas comuns.

“Eles precisam de uma certa supervisão, mas essa experiência tem de ser garantida, por ser importante para a vida e felicidade deles, assim como é para as demais pessoas”, ressalta Priscila. Justamente por isso, ela afirma que a sexualidade deve ser encarada como algo natural na vida dos portadores de necessidades especiais. “É preciso considerar a sexualidade como algo que faz parte do cotidiano, assim como eles precisam de tratamentos de saúde, educação e convivência em sociedade”, diz.

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Trabalho contribui para auto-estima

O processo de inserção dos jovens portadores da síndrome de Down no mercado de trabalho é outro ponto a ser destacado na conquista da independência de seus portadores. Desde 1992, Roberto Augusto Lessa, 40 anos, atua como office boy em uma indústria do setor de papelaria e produtos, em Bauru.

Morando com os pais, ele fala com orgulho de seu cotidiano e do emprego. “Trabalho o dia todo e sempre fui bem recebido na empresa. Quero ficar lá até me aposentar”, diz ele, que está sempre em busca de aperfeiçoamento profissional por meio de cursos e workshops.

Com o ensino fundamental completo, Roberto conseguiu emprego através do Centro Profissionalizante da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que insere, por ano, aproximadamente 40 portadores de deficiências no mercado de trabalho. “Os deficientes passam por treinamento, estágio e, depois de empregados, são periodicamente acompanhados por psicólogos e outros profissionais”, conta a assistente social da entidade, Cátia Aparecida Cardoso Teixeira.

Ela explica que, desde que a Lei de Cotas para deficientes foi regulamentada, em 1999, houve um significativo aumento no número de portadores de síndrome de Down no mercado de trabalho. A norma federal tornou obrigatória, para empresas com mais de 100 funcionários, a reserva de 2% a 5% das vagas para indivíduos antes marginalizados nos processos de recrutamento e seleção.

“Antes, era a Apae que procurava as empresas pedindo uma oportunidade. Depois da lei, esse quadro mudou: são as empresas que procuram a entidade para preencher o número de vagas disponíveis”, observa.

Conforme avalia a assistente social, a inserção de portadores da síndrome no mercado de trabalho depende do nível de manifestação da doença em cada paciente e também das oportunidades oferecidas e do incentivo da família. “Os níveis de sociabilidade, autonomia e auto-estima dos portadores com carteira assinada aumentam consideravelmente. Por isso, a gente continua trabalhando para que cada vez mais deficientes possam ter acesso ao trabalho”, complementa.

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Enriquecimento instrumental

Determinada a tornar sua filha Laura Inoue, 7 anos, ‘a melhor portadora de síndrome de Down do mundo’, Dilza Inoue começou a estimulá-la desde cedo. Já freqüentando uma escolinha de educação infantil e aprendendo ao lado de dezenas de outras crianças da sua idade, Laura agora foi matriculada em um curso recém-implantado em Bauru. Trata-se do Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI), que promete aumentar as habilidades cognitivas necessárias para o pensamento independente.

“A Laura faz fonoaudiologia, fisioterapia, equoterapia, terapia ocupacional e natação. E, agora, a colocamos neste curso”, conta Dilza. Segundo a mãe, que foi uma das responsáveis pela vinda do PEI a Bauru, esta nova ferramenta já vem sendo utilizada em mais de 30 países, com o objetivo principal de provocar mudanças profundas na estrutura de pensamento do indivíduo.

O processo, segundo ela, se dá através do aumento da eficiência das etapas que constituem o pensamento, do desenvolvimento de novos hábitos, da tomada de consciência pelo indivíduo de seus processos mentais e da mudança de sua postura passiva e reprodutora de informações para um ser ativo e gerador de novas informações.

“Além das aulas para as crianças, os pais também podem receber treinamento para poder ensinar seus filhos”, complementa, salientando que, através do PEI, dois jovens com síndrome de Down – um de São Paulo e outro de Curitiba – conseguiram ingressar no ensino superior e já estão freqüentando a faculdade. “Assim como aconteceu com esses dois exemplos, tenho certeza que isso também pode acontecer com a minha filha”, aposta.

Serviço

Interessados podem obter mais informações sobre o PEI por meio dos telefones (14) 3879-9032 (com Janaína) e 0800-7731415 (no Centro Brasileiro de Modificabilidade).

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