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Entrevista da semana: ‘Fiz a trilha sonora da vida de muita gente’

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 9 min

Espanhol de nascimento, mas brasileiro de coração. É assim que se define o saxofonista Antonio Rozas Sanchez, 65 anos, mais conhecido como Manito – um ícone da Jovem Guarda e líder da banda Os Incríveis, que fez grande sucesso nas décadas de 60 e 70.

Em mais uma das inúmeras passagens por Bauru, Manito concedeu entrevista ao Jornal da Cidade e contou um pouco mais sobre sua vida e sua carreira. Entre a passagem de som e o show da última quarta-feira no Sesc com o Jazz Quarteto, Manito se emocionou ao falar o que a música significa para ele. Não só para ele, mas para praticamente todo ser humano.

As músicas lembram diferentes fases da vida de cada um de nós e Manito se sente plenamente satisfeito e recompensado por ter ajudado a compor a trilha sonora da vida de muita gente.

Nascido em Vigo, na Espanha, ele chegou ao Brasil com 9 anos. Foi morar em São Paulo e por quatro anos esteve em Bauru. Atualmente, além do Manito & Jazz Quarteto, participa da banda Ultraje a Rigor como tecladista e está sempre aberto a novos convites.

Em seu extenso currículo, estão participações em gravações com Raul Seixas, Rita Lee, Zé Ramalho e até mesmo com a dupla sertaneja Leandro e Leonardo, no sucesso “Pense em Mim”. Acompanhe a entrevista.

Jornal da Cidade – Você é espanhol de nascimento, mas morou em Bauru na década de 80. O que te trouxe para cá naquela época?

Antonio Rozas Sanchez (Manito) – Sou espanhol de nascimento e brasileiro de coração. Duas coisas me trouxeram para Bauru. Uma delas foi a simpatia que eu tenho pela cidade. No começo da carreira de Os Incríveis, foi uma das primeiras cidades que nós tocamos. E todas as vezes que nós vínhamos a Bauru, era um show à parte. Os clubes estavam sempre lotados. Era um buxixo danado. O outro motivo que me trouxe para cá foi que eu recebi uma proposta para tocar em uma banda de Ibitinga, o Musical Pedras. Eu vim para fazer uma temporada de um ano com eles e acabei ficando quatro. Nesse tempo, dei aulas na escola de música, toquei nos barzinhos com músicos daqui, participei da inauguração da Praça da Paz tocando “Imagine”, de John Lennon, no sax, sozinho. Ganhei prêmios, junto com o Badê, como destaque em arte e cultura. Minha ex-esposa trabalhava na Redação do Jornal da Cidade.

JC – Você a conheceu aqui em Bauru?

Manito – Não, eu a conheci em São Paulo. Ela não é de Bauru. Ela veio comigo para cá e passou a trabalhar no JC. Enquanto eu tocava, ela trabalhava no Jornal. Enfim, eu gosto muito de Bauru e fiz muitas amizades por aqui.

JC – E por que foi embora?

Manito – Fui embora porque o Netinho e o Nenê (que também fizeram parte da banda) tinham um projeto de relançar Os Incríveis e eles diziam que se eu não voltasse também não iria dar certo. Fiquei um pouco animado, embora nunca tenha gostado da idéia de voltar com a banda. Esse negócio de voltar é duro. Depois que você apaga o cigarro, para acender de novo, o gosto não é mais o mesmo.

JC – Mesmo assim decidiu voltar?

Manito – Decidimos voltar. Voltei para São Paulo, fizemos mais algumas temporadas, participamos do projeto da Jovem Guarda, o Tom Brasil, que ficou bastante tempo em cartaz. Quando eu vi, já estava envolvido com o trabalho em São Paulo. Toquei durante dois anos e meio na orquestra do Roberto Carlos, fui para a Espanha, fiquei tocando lá por um tempo. E voltei para Bauru diversas vezes. Sempre que eu posso, eu volto. Toquei com o Badê no Templo Bar. Já vim com o Ultraje a Rigor e com outras bandas. E agora voltei com uma banda minha, que é uma banda nova, mais voltada ao jazz rock, que é um jazz mais pop, que tem mais pulsação.

JC – Você começou a tocar com cinco anos?

Manito – Isso mesmo. Comecei como baterista. Meu pai tinha orquestra na Espanha e eu tocava com ele. Toco desde os cinco anos. Hoje, eu tenho 65. São 60 anos tocando direto.

JC – Você ainda toca bateria?

Manito – Toco, mas pouco. Qualquer instrumento que você pára de praticar se torna difícil. Para os músicos que têm muitos anos de carreira, como eu, é muita correria, são muitos compromissos. Não temos tempo para nos dedicarmos aos instrumentos. Você se dedica a um ou dois. Eu escolhi teclado e saxofone, mais o saxofone.

JC – E por que o saxofone?

Manito – Quando eu comecei a tocar saxofone, eu tinha 18 anos. Era a época que estava surgindo o rock, com Elvis Presley. Logo em seguida, veio o twist. E eu com 18 anos tocando saxofone, o que você acha? Foi maravilhoso! Eu colocava o disco de John Coltrane na vitrola e tocava junto com ele. Foi quando pintou o lance de montar o The Clevers.

JC – Como foi isso? Foi algo entre amigos?

Manito – Não, eu não conhecia ninguém. Eu estava tocando em um lugar e o baterista do The Jordans estava assistindo ao show, ele me chamou, falou comigo, disse que estava montando um conjunto e precisava de um saxofonista. Fiz um teste, eles adoraram e comecei a fazer parte do conjunto. Passamos a tocar à noite, meu pai começou a ficar cabreiro. Ele escondia meu instrumento, mas eu sempre achava. Até que um dia, ele escondeu e eu não achei. E agora? Não teve jeito, eles colocaram outro no meu lugar. Até que o baterista da banda foi servir o Exército e eles me chamaram de volta (risos). Um dia, eu encontrei com o Mingo, que também tinha saído do The Jordans, e decidimos montar o The Clevers.

JC – E quando foi que o The Clevers passou a se chamar Os Incríveis?

Manito – Quando nós fomos tocar na Argentina. Tocamos lá por quase um ano e gravamos um disco com o nome The Increíbles. Isso porque gravamos por uma outra gravadora, a CBS (e não pela qual eles tinham contrato no Brasil, a Continental). Quando voltamos ao Brasil, tivemos problemas com o nome The Clevers por causa de empresários e mudamos para Os Incríveis.

JC – Enquanto atendia por The Clevers, a banda chegou a gravar discos?

Manito – Chegamos. “O Relicário” uma música solada de sax ficou muito tempo em primeiro lugar na parada de sucesso. “O Milionário” nós tocamos até hoje. Nós lançamos uns cinco discos como The Clevers.

JC – Você permaneceu quanto tempo com Os Incríveis?

Manito – Uns dez anos. Quando saí da banda, por volta de 1972 ou 73, montei o Som Nosso de Cada Dia. Foi o conjunto que fez a abertura do show do Alice Cooper, quando ele veio tocar no Brasil pela primeira vez. Recentemente, remontei a banda para participar da Virada Cultural. Foi um sucesso. Tem muita história. Os Incríveis tem muita história. Com a banda, eu passei a viajar, a viver uma vida de sucesso, muita correria, muito trabalho, conheci muitas pessoas, fizemos um filme “Os Incríveis Nesse Mundo Louco”.

JC – Em quais países vocês tocaram com Os Incríveis?

Manito – Tocamos na Itália, Espanha, Portugal, Inglaterra, França, Estados Unidos, Japão. Fizemos muito sucesso no Japão. Mas chegou um momento que eu quis mudar o som. Eu estava precisando tocar outras coisas. O Som Nosso de Cada Dia, que foi a banda que eu montei depois, tocava rock progressivo, que é um rock mais clássico, mais técnico.

JC – No começo da entrevista, você disse que aceitou convite para voltar à banda Os Incríveis. Quanto tempo durou esse retorno?

Manito – Durou mais dez anos. O grupo foi lançado em 1962 e separamos em 1972. Voltamos em 1982 e separamos de novo em 1992.

JC – Quando foi que vocês viveram o auge da carreira da banda?

Manito – Foi quando nós gravamos “Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”, “O Vagabundo”, “O Vendedor de Bananas”. Foi tudo na mesma épóca.

JC – E que época foi essa?

Manito – Fim da década de 1960 e início da década de 1970. Os Incríveis tinha uma coisa boa, eles faziam sucesso todo ano. Sempre tinha alguma música na parada de sucesso. Aconteceu de ter músicas de discos diferentes fazendo sucesso ao mesmo tempo. Até hoje, as pessoas sentem saudades e elogiam a banda.

JC – Sua vida não se resume apenas ao conjunto Os Incríveis, mas que balanço você faz dos 20 anos que viveu na banda?

Manito – Foi uma época boa. A música sempre me ajudou muito. Eu sei que a música tem uma importância grande tanto para mim quanto para outras pessoas. Dá até vontade de chorar, sabe. Eu acho que a minha função... (Manito se emociona).

JC – Podemos dizer que você ajudou a compor a trilha sonora da vida de muita gente?

Manito – Eu ouço coisas que me deixam realmente muito emocionado. ‘Pô, você faz parte da minha vida. Você alegrou minha vida. Conheci minha esposa dançando em um baile de vocês. Hoje, vocês estão tocando para minha filha que está fazendo 15 anos (risos). Então, tem essas coisas que são boas.

JC – Você continua tocando com o Ultraje a Rigor?

Manito – Continuo. Estamos tocando e viajando direto. É uma delícia tocar com eles. São músicas que todo mundo canta e se diverte.

JC – A banda está compondo músicas novas?

Manito – Não. Ainda não. O Roger tá meio quieto, mas acho que logo ele começa a compor.

JC – Estão viajando bastante?

Manito – Estamos viajando bem. Não muito porque o Roger não viaja de avião. Ele também não pode ficar muito tempo fora porque tem o papagaio dele (risos). Mas eu não toco só com eles. Sou muito convidado para tocar com outras bandas.

JC – Tirando a música, o que mais alegra o Manito? O que você gosta de fazer longe do saxofone?

Manito – Eu gosto de carro antigo. Eu gosto de estar sempre retocando para deixar o carro nos trinques. Também gosto de ver um bom filme. Mas, na verdade, eu gosto é de mulher (risos). Lembrei da música do Ultraje a Rigor, que fala isso no refrão. É claro que estou dizendo isso com o maior respeito.

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Perfil

Nome: Antonio Rozas Sanchez

Idade: 65 anos

Local de nascimento: Vigo (Espanha)

Mulher: Maria Lúcia Fernandes

Filhos: Marco Rogério (falecido), Sandro Rogério, Luiza e Nina

Hobby: Carros antigos

Livro de cabeceira:

“Não tenho tempo para ler”

Filme preferido:

“Música e Lágrimas” (1953) de Anthony Mann

Estilo musical predileto: Todos

Para quem dá nota 10: Para todas as mulheres

Para quem dá nota 0: Para a miséria

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