Saúde

Dias mais longos facilitam adaptação ao horário de verão

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

Todo ano é a mesma coisa. Quando chega o mês de outubro, os relógios são adiantados em uma hora e começam as discussões sobre os benefícios e malefícios que isso provoca na vida das pessoas. O dia fica mais comprido. Para o governo, o horário de verão ajuda a reduzir o consumo de energia. Para o cidadão, ajuda a confundir o relógio biológico. Mas o fato do dia ficar mais longo torna a adaptação mais rápida.

A afirmação é do otorrinolaringologista e especialista em medicina do sono Carlos Henrique Ferreira Martins. Segundo ele, dias mais longos significam maior exposição do organismo à luz e isso contribui para amenizar os efeitos da mudança. É por esse motivo que as pessoas que têm o costume de levantar cedo assimilam mais rápido o novo horário enquanto aqueles que preferem dormir até mais tarde demoram um pouco mais para se adaptar.

Por isso que uma das maneiras de driblar, em parte, o “jet lag” (desconforto provocado pela mudança de fuso horário) é marcar a viagem em um horário que proporcione o desembarque no Exterior ainda durante o dia, para poder expor-se ao sol e começar a adaptação ao fotoperíodo (tempo ao qual o corpo fica exposto à luz natural) o mais rápido possível (leia mais sobre o assunto na página 3).

Uma outra maneira de ajustar o relógio biológico é forçando o organismo. Segundo o médico, a recomendação é deixar o corpo cansado para que a pessoa tenha mais sono à noite, vá dormir cedo e se adapte mais facilmente às mudanças.

Normalmente, o corpo humano começa a se preparar para despertar logo depois que o sol nasce. É o momento que a temperatura começa a subir e o hormônio cortisol (responsável por despertar você todas as manhãs) atinge seu pico no organismo. Quando se é obrigado a acordar mais cedo, essas reações ficam fora de sintonia.

O tempo de adaptação varia de pessoa para pessoa, segundo Martins. “As pessoas matutinas se adaptam muito rápido, em poucos dias, pois gostam de acordar cedo. Os vespertinos demoram mais, pois gostam de acordar mais tarde”, alega. Como os idosos geralmente acordam mais cedo que os jovens, a tendência natural é que eles se acostumem mais rápido ao horário de verão do que os mais novos.

Uma pesquisa conduzida por laboratórios de cinco países sul-americanos abordou 9.251 pessoas do Brasil e mostrou que 46% dos entrevistados sentem algum tipo de desconforto no início do horário de verão. Segundo especialistas, a principal conseqüência da mudança de horário é a alteração do sono. Mas outras, como cansaço, falta de concentração e irritabilidade também são bastante comuns. Em média, a adaptação total do organismo demora cerca de uma semana.

A implantação do horário de verão sempre foi polêmica. Enquanto uma parte da população aprova, dizendo que ganha mais uma hora de dia claro para caminhar, passear, jogar bola, etc, a outra parte protesta alegando que o calor do fim da tarde incomoda quem já está em casa ou precisa ir para a faculdade.

Divergências à parte, uma pesquisa realizada pela CNT/Sensus no início do horário de verão do ano passado mostrou que 59% dos entrevistados eram favoráveis à mudança. O relógios foram adiantados em uma hora no domingo passado, dia 19, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Os ponteiros voltam ao normal à 0h do dia 15 de fevereiro de 2009.

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Idéia é aproveitar a luz natural

O horário de verão consiste no adiantamento dos relógios em uma hora com o objetivo de economizar energia elétrica. A idéia é aproveitar a luz natural dos dias mais longos das estações primavera e verão. Além do Brasil, o horário de verão é adotado em mais 30 países, aproximadamente.

De acordo com o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), foi Benjamin Franklin, em 1784, quem teve a idéia de implantar o horário de verão. No início, a idéia era economizar velas. A proposta só foi encarada com seriedade durante a Primeira Guerra Mundial, sendo adotada inclusive pela Inglaterra e Alemanha. Na Segunda Guerra Mundial, a iniciativa foi repetida pela Inglaterra, que adiantou os relógios em duas horas. A partir daí, outros países adotaram o horário de verão e continuaram a utilizá-lo mesmo após a guerra.

Nos Estados Unidos, o horário de verão começa no primeiro domingo de abril e termina no último domingo de outubro. Na Inglaterra, começa uma semana antes do que nos Estados Unidos. Em outros países europeus termina na última semana de setembro.

No Brasil, o horário de verão começa em outubro e termina em meados de fevereiro. A meta é reduzir o consumo de energia entre 4% e 5% no horário de pico, ou seja, entre 18h e 21h . Os especialistas explicam que a medida não visa economia de energia, mas a redução do consumo para evitar um congestionamento nas linhas de transmissão de energia do País.

Segundo eles, em termos de economia de energia, o impacto do horário de verão é pequeno. O balanço final fica em 0,5% a 1%. A diferença é que, no horário de pico, a demanda tem caído em média cerca de 5%. Essa folga é que garante o funcionamento do sistema elétrico.

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Crianças com horários a cumprir sentem mais

Assim como os jovens e adultos, as crianças que têm horários a cumprir também sentem os efeitos da mudança de horário, em vigor desde domingo passado. Com os pequenos que ficam em casa, a adaptação é mais fácil. Dá para adequar a rotina deles aos poucos. Mas com as crianças que precisam levantar cedo para ir à escola, por exemplo, não há como seguir essa fase de transição.

Por isso, a pediatra Eliane Alves Cabello, 42 anos, diz que é normal elas sentirem dificuldade para dormir, acordar e se alimentar nos primeiros dias da mudança. Como conseqüência, os pequenos acordam irritados, ficam manhosos (os menores), não conseguem prestar atenção na aula e não têm apetite na hora certa de comer. “Só quem tem filho pequeno sabe a dor de cabeça que dá fazer eles comerem quando não têm fome”, comenta Eliane Cabello.

O melhor a fazer, segundo ela, é desacelerar a criança mais cedo, ou seja, evitar brincadeiras mais agitadas tarde da noite, oferecer uma alimentação mais leve, desligar a TV mais cedo, até que o filho entre novamente no ritmo que estava acostumado, que obedeça os horários de antes da mudança.

Mas acima de tudo, aconselha a pediatra, é preciso ter paciência. A confusão no relógio biológico da criança é normal e leva mais tempo para se adequar ao novo horário do que um adulto. Isso porque eles não têm a consciência de forçar o organismo, como comer sem fome ou ir para a cama sem sono, como tem o adulto.

A professora Thatiane dos Santos Adorno tem crianças que viveram as duas situações. Isabela, de 5 meses, teve tempo para uma transição tranqüila. Já Felipe, de 2 anos, não teve o mesmo privilégio. Teve de acordar uma hora antes do que estava acostumado na segunda-feira passada, comer uma hora antes e ir para cama uma hora antes.

“Nos primeiros dias, ele não queria comer nem dormir no horário certo. Ele resistia, mas agora entrou novamente na rotina”, conta a mãe. A saída, segundo ela, foi seguir as orientações da pediatra, ou seja, desligar tudo mais cedo, até que os filhos se acostumassem com o novo horário. Segundo ela, um banho quente pouco antes de levar os pequenos para a cama ajuda a deixá-los relaxados.

Thatiane diz que sempre procurou seguir uma rotina com os filhos. Estabelecer hora certa para comer, para brincar, tomar banho, assistir TV e dormir. Ajustar tudo isso ao horário novo, segundo ela, dá trabalho, leva alguns dias, mas não é impossível.

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